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CORREIO DAS ARTES


CAPA

Cem anos, sem a arte de Pedro Américo

Um homem simples do Brejo paraibano deixa seu nome imortalizado por pincéis, penas e tintas.

Por Fernando Patriota

O que faz uma criança ainda na segunda infância e na metade do século XIX abandonar sua cidade, seus pais, seus amigos, seus brinquedos e se lançar no mundo, para só voltar à sua terra natal depois de morto? A resposta talvez esteja no talento ou na certeza de que tudo daria certo no decorrer de sua vida. Foi praticamente o que aconteceu com aquele, que antes de morrer, maravilhou a Europa e todo o mundo com suas telas universais e imortalizadas pelo hiperealismo com que pintou as batalhas, as mulheres e as personalidades de sua época. Pedro Américo de Figueiredo e Melo - o grande Pedro Américo - foi o que se pode chamar de um verdadeiro mestre dos pincéis. Mas ele não se limitou as Artes Plásticas. Ao contrário. Nascido em Areia, no dia 29 de abril de 1843, Pedro Américo foi filósofo, botânico, romancista, poeta, físico, antropólogo, astrônomo, químico, professor emérito de Desenho, Pintura, Estética, também de Filosofia das Artes e um exímio orador. Discursou, na presença de D. Pedro II, para Victor Hugo, quando este completava 80 anos de idade, e disse: "...eu tive a oportunidade de conhecer pessoalmente o poeta filósofo, quando exulava a espera da libertação da sua cara pátria. Agradeci-lhe e com a mão trêmula, tocando meu copo o copo dele, o brinde que fazíamos a liberdade."
No ano e no mês que se comemora um século de sua morte, O Correio das Artes, presta uma justíssima homenagem ao um dos maiores pintores e intelectuais que nasceu neste país. Pedro Américo faleceu aos 62 anos, no dia 7 de outubro de 1905, em Florença (Itália) e  foi sepultado em João Pessoa, em abril do ano seguinte. Anos depois seu corpo foi levado para Areia. Era filho de Daniel Eduardo de Figueiredo Mello e D. Feliciana Cirne de Figueiredo. Casado com D. Carlota , filha do pintor e poeta Manuel de Araújo Porto Alegre. Seu indiscutível talento foi revelado logo na infância, talvez por influência da sua mãe, que também era pintora. Quando criança estudou música com o avô, integrava o coral da igreja e já desenhava retratos e paisagens. Diz o texto da Academia Paraibana de Letras (APL), a qual ocupou a cadeira número 24, que a figura de um galo, desenhada por Pedro Américo na parede do estabelecimento do seu pai, despertou a curiosidade do desenhista alemão Bindsel, que visitava a cidade com um grupo de cientistas liderados pelo naturalista Jacques Brunet. O desenhista admirou-se com a firmeza dos traços e a riqueza de detalhes do desenho e, sabendo da situação financeira da criança, apelou às autoridades para que ajudassem àquela criança a desenvolver o seu talento, conseguindo meios, através do Governo Geral, para que ele pudesse freqüentar uma escola.
No final de 1854, Pedro Américo seguiu para o Rio de Janeiro, protegido pelo Governo Imperial, para matricular-se no Colégio D. Pedro II, onde fez os preparatórios e ingressou na Academia de Belas Artes do Rio de Janeiro, sendo considerado pelo diretor "a glória da Academia". Com o fim de aperfeiçoar-se, embarcou para a Europa. Em Paris, estudou na Academia de Belas Artes, no Instituto de Física de M. Ganot e na Sorbone. Conheceu os maiores centros culturais do mundo. No Velho Continente, ele foi muito prestigiado, teve a sua arte reconhecida. Era doutor em Ciências Naturais pela Universidade de Bruxelas, tendo sido professor adjunto desta Universidade. Ensinou na Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro e foi Deputado Geral pela Paraíba. Recebeu as honrarias de Grão Cavaleiro da Ordem Romana do Santo Sepulcro e Cavaleiro da Coroa da Alemanha. Pedro Américo fez parte de várias associações culturais. Consagrado como pintor, ficou eternizado pelos quadros; O grito do Ipiranga; A Batalha do Avaí; A Batalha de Campo Grande; O consertador de bandolim; A rabequista árabe; O passo da pátria; Tiradentes esquartejado; David e Absag; Judith e Holofernes; Jacob e Moisés; O voto de Heloísa; A primeira culpa; O noviciado; Mater dolorosa;; A mulher de Putifar; Joana D'Arc; Cristo menino; Cristo diante de Pilatos; Cristo morto; Cristo ressuscitado; Paz e concórdia; Honra e pátria; A noite com os gênios do amor e do estudo.
Seu traço era tão, mas tão real, que Álvaro Cotrim, em Pedro Américo e a Caricatura lembra um fato curioso e engraçado dito por Luiz Guimarães Júnior, colega de Pedro Américo no Pedro II; "Pedro Américo desenhou com tal primor de felicidade uma nota de dez ou vinte mil réis do Banco do Brasil, que todos nós ficamos assombrados e tive uma idéia de feitiçaria ou de bruxos. Dizíamos então uns aos outros com certa ingenuidade e pasmos adoráveis: como poderia ser rico Pedro Américo se quisesse! Basta pintar quarenta ou cinqüenta notas por dia."



Escrito por Correio das Artes às 09h19
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CONTINUAÇÃO

O professor universitário e escritor, Amaury Vasconcelos é também um dos maiores estudiosos sobre a vida e a obra de Pedro Américo. Em seu livro, Antologia dos Oradores Paraibanos, produzido pelas oficinas gráficas de A União e publicado em 2002, o pesquisador escolhe justamente Pedro Américo para abrir uma seqüência de grandes homens retratados em sua obra, a exemplo de Epitácio Pessoa, Raimundo Asfora, Alcides Carneiro, Octacílio Albuquerque, Castro Pinto e tantos outros. "Ao lado do pincel, febrilmente, com a mesma agilidade, sua pena produziu De La Liberte, De La Methode Et de L´Esprit de Sisteme Dans L´Etude de Nature, que foi sua tese de doutorado na Universidade de Bruxelas, obra recentemente traduzida e publicada pela Gráfica Universitária da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), com a denominação de As Ciências e os Sistemas, com classificação antes da obra de Augusto Comte e na mesma temática e assunto, De L`Enseignement Libre Des Ciênces Naturale", comenta o Amaury no início de seu livro. Pedro Américo tenha sido, talvez, o primeiro paraibano romancista. Ao lado do seu irmão, Aurélio de Figueiredo, autor de escreveu O Missionário.
Em pleno Realismo, gênero literário que não fez parte, Pedro Américo publicou O Holocausto, livro autobiográfico, O Foragido na Cidade Eterna e Amor de Esposo. Todas essas obras receberam crítica pelo estilo denso e período longos, até certo ponto cansativos com personagens irreais. Por outro lado, provou nos críticos, algo inquietante, por seu caráter filosófico.
Pedro Américo, em seus textos, carregava consigo uma polêmica intelectualizada sobre questões inerentes ao mundo as artes. Ele escreveu um discurso sobre o plágio na Literatura e na Arte, citado por Donato Mello Júnior, em Pedro Américo de Figueiredo e Melo e traduzida e publicada em seu livro, Alguns Discursos, em Florença, 1988. Diz: "se por plágio se entende a imitação inconsciente, ou coincidências acidentais do pensamento, ou a identidade original do assunto, ou finalmente as casuais reminiscências, que inevitavelmente se encarnam nos grandes produtos da inteligência, qual é o ator, por mais ilustre que seja, que nunca incorreu no involuntário delito de plagiário."
 Conta Amaury Vasconcelos que aos 15 anos, participou das comemorações da abertura da sepultura de Pedro Américo, para retirada de seus ossos a serem transladados ao túmulo à sua terra natal. Para grande surpresa do escritor o corpo do grande pintor batalhista estava intacto no invólucro de chumbo que envolvia um caixão de carvalho artisticamente talhado. "Estava inteiriço, como também se encontrava apodrecido ou decomposto apenas na parte do lábio direito falhando a parte final de seu tradicional bigode.", disse o pesquisador. Horácio de Almeida, seu maior biógrafo paraibano, assim descreveu tudo na forma de seu trabalho Pedro Américo - Centenário de seu Nascimento:
"Aconteceu que o ataúde encerrava um invólucro de chumbo hermeticamente fechado, dentro do qual vinha o areiense embalsamado. Ninguém lhe viu o cadáver e daí a notícia que logo circulou e ficou por muito tempo de que não era do genial pintor o corpo que deveria estar dentro daquele invólucro, mas o de algum engraxate italiano ou coisa parecida. Por outro lado a Paraíba nunca lhe deu sepultura condigna e, como Areia, querendo agora guardar os restos mortais do seu maior filho, mandasse erigir-lhe majestoso monumento, em comemoração ao primeiro centenário do seu nascimento, foi preciso abrir-se o túmulo para a transladação das cinzas, e lá estava ainda intacto o envoltório de chumbo. Rompido este foi notado, com surpresa de todos, que o corpo do artista se conservava quase todo perfeito, vestido em seu traje de rigor, apesar de sepultado há 37 anos. Cumpriu-se assim, embora tardiamente, a sua ultima vontade, manifestada no leito da morte: a de repousar eternamente na cidade que o viu nascer, a formosa e fecunda Areia, que tantos homens ilustres tem dado ao Brasil."
As linhas que se seguem são de extrema importância para esta matéria, pois trata-se de um relato histórico e valoroso, para todos aqueles que admiram Pedro Américo ou têm curiosidade a respeito da sua chega ao Brasil, depois de morto.De seu enterro na Paraíba, temos uma fiel descrição do então presidente do Instituto Histórico e Geográfico da Paraíba (IHGP), Francisco Seráfico da Nóbrega, no vol nº 1, da Nossa Revista do IHGP: "Tendo a Diretoria do Instituto sabido por comunicação do benemérito governo do Estado - Álvaro Machado - da vinda do cadáver do nosso glorioso patrício - Pedro Américo, falecido na cidade de Florença (reino da Itália) para esta capital, convocou uma sessão extraordinária e resolveu chamar a si a nobre tarefa de levar tão venerando morto ao tumulo, em sua pátria. Constituída a nossa comissão, fez ela um apelo ao povo paraibano em que foi generosamente correspondido, sem distinção de classes. Dirigiu-se a Cabedelo na manhã de 28 de abril do corrente ano, secundado pelos moços do patriótico Clube Benjamim Constant que foram incansáveis na obra das homenagens ao glorioso morto e ali naquele porto, no referido dia, recebemos de bordo, do paquete Alagoas, o invólucro sagrado que continha aquele notável morto! Foi um quadro que tocou a alma de todos nós irmãos, presentes - vermos sair tão obscuro de dentro do navio o cadáver daquele que deixou no mundo das letras e das artes tão luminoso e esclarecido nome!"
Coordenada (Depoimentos)
Para o artista plástico e escritor W. J. Solha a arte brasileira deveria ser mais reconhecida internacionalmente e critica a ausência de pintores, escultores e desenhistas nacionais disponíveis nos grandes museus e bibliotecas do mundo todo. "Você não vê nada de arte brasileira nos grandes museus e os nossos maiores artistas sequer constam na História da Arte nas bibliotecas. Quando muito, nas edições com tiragens feitas especialmente para o Brasil", disse o autor de livro História Universal da Angústia, que será lançado no próximo mês, no XI Festival de Arte (Fenart).
 Solha não concorda com os que mais detratam Pedro Américo no Brasil, condenam-no por sua indiferença ao movimento impressionista, extremamente vigoroso na Europa de seu tempo, retrocesso que se deveria - segundo se diz - ao medo de descontentar o patrono, Pedro II. "Arrisco-me a dizer que isso não é verdade. Compare-se o quadro do 7 de setembro com o da "A Batalha do Avaí", que ele fez cerca de dez anos antes, e que está no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio. Houve uma alteração visível no estilo, de uma obra para a outra" Conforme Solha, a Batalha" é realmente acadêmica. Já "O Grito do Ipiranga" lembra Edouard Manet! E explica: "o claro-escuro -  chiaroscuro - e o esfumado - sfumato - do primeiro painel, tópicos típicos de pintura clássica, no segundo foram abandonados, com o desenho passando a  ser muito valorizado do que a luz, o volume, a cor."
O gigantesco "A Batalha do Avaí", que está no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro foi o quadro de Pedro Américo que mais impressionou Solha. "Ele é muito mais pintura do que, por exemplo, "O Grito do Ipiranga" - que é mais famoso.  Mesmo quando menino, nas várias vezes em que vi a cena do 7 de setembro, em São Paulo, ela não conseguiu me empolgar."

Fernando Patriota é jornalista paraibano. É repórter do jornal A União

(Correio das Artes, edição de 19,20 de novembro de 2005)



Escrito por Correio das Artes às 09h18
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ENTREVISTA

O rock no Brasil foi uma aberração

Nelson Motta diz que hip hop e música eletrônica são os formatos musicais mais representativos

Por Fernando Patriota

Em uma palestra de quase duas horas de duração no XI Festival Nacional de Arte (Fenart), o jornalista, compositor, escritor e produtor musical, Nelson Motta, traçou toda a sua trajetória de sua militância na Música Popular Brasileira nos últimos 40 anos, que na verdade se confunde um pouco com a história da música urbana de classe média do país. A conferência é presa aos capítulos do seu livro, "Noite Tropicais", mas como o próprio Nelson Motta disse que não tem a menor pretensão de ser uma história da música brasileira e sim deu seu ponto de vista pessoal. "Foram coisas que vi e não coisas que li ou me contaram Não tem a abrangência total da música brasileira." Em sua conferéncia ele passa pelos festivais da década de 60, passando pelo Tropicalismo, pelas discotecas durante os anos 70, o movimento do Rock Nacional, em 80 e 90 e a famigerada invasão da "música sertaneja". Alguns trechos da palaestra e da entervista de Nelon Motta foram selecionados para esta edição do Correio das Artes.

Qual o tipo de movimento que representa esta década?
Se eu soubesse que movimento representa esta década eu estava multimilionário. Não sei, acho que ninuém sabe. O Mangue Beat é um movimento interessantíssimo, mas ficou bastante restrito pela morte do Chico. Dificilmente vai existir um movimento forte no Brasil. O movimento de rock no país já foi uma aberração, porque já estava acabando isso no mundo. Eu acho que os dois formatos musicais mais representativos são o hip hop e a música eletrônica. Não são movimentos artísticos, são formatos. A letra é muito valorizada no hip hop. A eletrônica, por exemplo, a letra é totalmente desprezada, o que pesa é a sonoridade, instrumentos, timbres, texturas, variações, quase sem palavras. O disco mais interssante que saiu este ano é do Marcelo D2, "A procura da batida perfeita.", a mais perfeita fusão do samba tradicional, com o hip hop.

O que você entende por politicamente correto?
Eu odeio essa coisa de politicamente correto. Acho uma coisa de universitário americano burguês. Isso é um atraso de vida para todo mundo. O que deve ser respeitado é o social, o sentimento, a compaixão, o respeito pelas pessoas. O ser humano sempre existiu, não é uma fórmula. "Olha, você não pode falar negro, tem que afro-americano." É ridículo politicamente correto. Eu acho que nós devemos ser respeitados por nossas diferenças. O Brasil é lindo, porque é diferente. "Não somos todos iguais." Iguais um cacete. Somos diferentes sim. Eu gosto de ser diferente e não quero ser igual. Esses caras que se dizem politicamente corretos são os mais escrotos, os que mais enganam, tudo é uma grande hipocrisia.

Qual a sua ligação com o lado B da música brasileira?
Olha, o que eu contei no meu livro são coisas que eu vi e ouvi. Não tenho pretensão de contar a história da música brasileira. Um regsitro pessoal. O que não está no meu livro é porque não tive a oportunidade de presenciar. Agora, eu adoro as músicas menos conhecida do grande público, mas não tenho nada a contar sobre este assunto. Os Secos e Molhados, nem mencionei aqui. No meu livro tem pouquissímo do Cazuza, porque acho que não teria mais o que acrescentar além do que a mãe dele, Lucinha Araújo, em "Só as mães são felizes" registrou. Não vou ficar repetindo. 

Como foi o início de seu envolvimento com o mundo da música?
Quando eu tinha 15, 16 anos, tive o privilégio de um garoto de classe média, em Copacabana, no Rio de Janeiro. Era uma época maravilhosa, 1958 e 1959, JK no poder. O Brasil vivia uma época de democracia, de liberdade, de grande otimismo e de grande modernização também. 1958 foi um ano chave em nossa história, tem até um livro maravilhoso, do Joaquim Ferreira dos Santos, que eu recomendo a vocês, que se chama "1958 - O ano que não devia terminar". No cenário tão favorável, só num ambiente assim é que poderia ter surgido João Gilberto e a Bossa Nova. Qualquer pessoa da minha geração - Chico Buarque, Caetano Veloso, Roberto Carlos, Rita Lee - sabe responder quando ouviu João Gilberto pela primeira vez. Quando ouvi o João Gilberto senti um impacto, não sabia se adorava ou detestava aquilo. Foi ele também que incorporou a tecnologia na música. Com microfones e amplificação de voz. Ele é um dos primeiros cantores tecnológicos do mundo. Nós brincávamos dizendo."

Fale sobre os anos 60 de uma forma geral.
Depois de JK, foi eleito Jânio Quadros. Aquele doidão, aquela figura patética, uma cara ultracareta, intolerante, bebum, completamente irresponsável que um ano depois tentou dar um golpe de Estado e acabou renunciando e lançando o Brasil no caos que acabou desaguando no golpe militar de 64. Um momento marcante, em 1961, foi o lançamento do segundo LP do João Gilberto, "O Amor, o sorriso e a flor". Foi feito um grande show no Rio de Janeiro, histórico, considerado o lançamento do movimento da Bossa Nova. Por que no início era só o João Gilberto. Então, nesse show se apresentaram todos os novos artistas da Bossa Nova, que nem tinha esse nome. O nome Bossa Nova surgiu de uma divulgação nas festinhas de colégios e clubes. Em um desses shows, no Hebraica, no Rio de Janeiro, o cara que estava promovendo o espetáculo escreveu no quadro negro ´Hoje grande show com uma turma Bossa Nova`. O nome pegou. Na mesma época também foi lançada a música Desafinado, no segundo LP do João Gilberto, de Tom Jobim e Ilton Mendonça, que diz `isso é bossa nova, isso é muito natural´. A partir desse momento, a Bossa Nova fez tanto sucesso que tudo virou Bossa Nova.

E as origens da MPB, o Beco das Garrafas e ressurgimento da Bossa no exterior?
Com o desastre que aconteceu com a Bossa Nova, nasceu uma consciência da limitação artística de alguns jovens, como Chico Buarque e Edu Lobo, que foram fazer um outro tipo de música, porque chegaram a conclusão que eles jamais fariam alguma coisa melhor que o João Gilberto e Tom Jobim, naquele gênero, no que estava absolutamente certo. Dessa limitação desses grandes artistas estão algumas raízes do que veio a se chamar a gloriosa MPB. Ao mesmo tempo que termina a Bossa Nova no Brasil, ela estava se desenvolvendo no lado mais instrumental, que teve seu quartel general no beco em Copacabana, conhecido como o Beco das Garrafas. Onde começou Elis Regina, Samba Trio, Sérgio Mendes, Wilson Simonal. Era maravilhoso. Chama-se Beco das Garrafas, porque quando tinha muito barulho, os moradores dos edifícios jogavam garrafas e outras coisas piores.

E Roberto Carlos e a Jovem Guarda ?
O Roberto Carlos começou imitando o João Gilberto. Eu me lembro da primeira vez. Foi em uma das festinhas no apartamento, e em determinada hora Carlos Imperial, que era o grande divulgador do rock do Rio de Janeiro, tinha programa de TV e tudo, era um cara cafajestérrimo, era odiado pela turma da Bossa Nova, que ele falava criticava muito e defendia a turma da Zona Norte. E nesta festa ele apresentou sua nova revelação. Aí passei um tempão sem vê o Roberto. Já encontrei o cara gravando que se chamava o Iê, Iê, Iê.

(Correio das Artes, edição de 19,20 de novembro de 2005)



Escrito por Correio das Artes às 09h16
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CINEMA

Adorável Cole Porter

Por João Batista de Brito


Adoro música, mas claro, tenho as minhas predileções. Para mim, um compositor fácil de amar ("Easy to love") é Cole Porter. Pela sua música alimento um amor sincero ("True love") e se pudesse a escutaria noite e dia ("Night and day"). É simplesmente uma daquelas coisas ("Just one of those things"), que a gente curte na calada da noite ("In the still of the night") ou em qualquer tempo, e não precisa esperar que o Beguine comece ("Begin the Beguine").
Pois, para os fãs de Porter como eu, estas canções, citadas nos parênteses, e muitas outras, estão no filme De-Lovely: vida e amores de Cole Porter (Irwin Winkler, 2004) que não veio para os circuitos exibidores locais, mas está em DVD.
Fazendo abstração da infância e adolescência, o filme começa com Porter (papel do ótimo Kevin Kline) já adulto, em plena atividade ao tempo - anos trinta - em que residia em Paris, ocasião em que conhece sua futura esposa, Linda (Ashley Judd), e estende-se até o final de sua vida, passando pelos fatos mais marcantes na linha existencial desse que foi um dos maiores nomes de música popular americana do século XX.
.O espectador fica conhecendo a sua bissexualidade (aparentemente estimulada pela esposa), suas relações profissionais nada tranqüilas com os estúdios de Hollywood, a separação conjugal e, mais tarde, o acidente com o cavalo que o aleija, a decadência física e moral, o isolamento, etc... Porém, nada disso é dado de modo convencional.
Para começar, o filme a que se assiste tem um espectador interno, que é o próprio Porter, já idoso, sentado numa poltrona de teatro, ladeado por um amigo que a ele re-conta (leia-se: põe na tela), a sua própria vida, permitindo intervalos anti-diegéticos em que o Porter espectador interfere e opina sobre si mesmo, sobre os outros, ou sobre os fatos exibidos. Por exemplo, quando a próxima cena vai ser a separação da esposa, esse Porter espectador quer se recusar a assistir, e o amigo lhe lembra que ele não pode evitar, pois aquilo veridicamente aconteceu. Se esse Porter fictício assiste ou não, não se sabe, mas nós, sim.
O que se observa é que o filme assume-se como uma grande homenagem ao compositor em que o cinema como que se rende à música. Possivelmente seguindo o conselho do que diz uma das canções mais conhecidas e irreverentes de Porter "Let's misbehave" ('Vamos nos comportar mal", ou mais livremente: 'vamos bagunçar'), toda a biografia do compositor é submetida às situações criadas em suas letras.
Nesse sentido, um dos recursos interessantes está na maneira de combinar os dados biográficos narrados com o que dizem as letras das canções, como ocorre na ocasião da morte de Linda, toda circundada pela performance da canção "Every time we say goodbye" ('Toda vez que dizemos adeus"). Ou então, de modo cômico e nada verossímil, quando se põe o dono da MGM para dançar o "Be a clown" ('Seja um palhaço', ou mais livremente: 'faça rir'), que - vocês recordam - está na trilha sonora de Cantando na chuva, uma produção da MGM.
No mesmo esquema, o triste final, que seria a morte do protagonista, é burlado para virar um belo e pomposo número musical cujo tema é o sublime "Blow, Gabriel, Blow".
Tal postura metalingüística, digo, o esforço de fazer a música e o cinema falarem explicitamente de música e cinema, pode ter diminuído o apelo popular do filme para a grande maioria dos espectadores, porém, de todo jeito, vale a pena ver, nem que seja somente para saber -- ou não saber -- "o que é essa coisa chamada amor" ("what is this thing called love").
Em tempo: retirada de uma das canções de Cole Porter, a estranha palavra do título do filme ("De-Lovely") consiste num neo-logismo brincalhão que ele formou a partir de outras palavras da língua inglesa que começam com a sílaba "de": delightful, delicious, devine... Algo como 'adorável', reforçado por um prefixo redundante.

(Correio das Artes, edição de 19,20 de novembro de 2005)



Escrito por Correio das Artes às 09h14
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ENSAIO

Virginia Woolf e a Poesia da Existência

Por Genilda Azerêdo

(para Vilani, que me introduziu no estudo de literatura inglesa)

I. Um recorte afetivo: a autora e a leitora

 Minha relação com a escritora Virginia Woolf se deu inicialmente através de um de seus contos (talvez "Kew Gardens" ou "The Mark on the Wall"/"A Marca na Parede"), à época da graduação em Letras. Mas lembro-me de ter achado sua prosa de ficção muito difícil, e certamente esta dificuldade não me permitiu apreciá-la em suas nuanças. Nosso re-encontro aconteceu certo tempo depois, no mestrado, e de uma forma inusitada. Já havia esboçado um primeiro projeto de pesquisa sobre o também escritor inglês Graham Greene, mas não estava de todo satisfeita com a escolha, e, não me lembro bem por que, comecei a ler Um Teto Todo Seu, um ensaio teórico-crítico de Virginia Woolf. Este livro teve tal efeito sobre mim que, a partir dele, senti vontade de voltar à prosa de ficção da autora. Resultado: abandonei Graham Greene e (para apreensão de minha orientadora) decidi desenvolver um projeto de pesquisa sobre Woolf, focalizando na relação entre as inovações formais de sua prosa (especificamente os contos) - comumente denominada pelos críticos de prosa lírica - e seus questionamentos acerca das dificuldades que as escritoras vivenciavam, enquanto herdeiras (segundo Woolf) de uma tradição literária eminentemente masculina.
 Este recorte afetivo já nos indica determinadas marcas desta escritora. Woolf não apenas (se isto já não se fizesse bastante) produziu ficção (romances e contos), mas escreveu vários textos teórico-críticos sobre a literatura moderna (a exemplo do texto intitulado "Modern Fiction"), sobre a relação da mulher com a literatura (a exemplo de Um Teto Todo Seu) e sobre textos específicos produzidos por outras escritoras (a exemplo de textos críticos que escreveu sobre Jane Austen, Emily Brontë, Charlotte Brontë, Mary Wollstonecraft, dentre outras). Ou seja, tais atividades fazem dela uma escritora com uma prática literária variada e um nível de conscientização bastante agudo sobre a literatura, em suas diversas modalidades: ficcional, teórica e crítica.
 Como se isto já não bastasse, Virginia Woolf  também tem uma história de vida que chama a atenção dos leitores por diversos aspectos: diz-se que foi molestada sexualmente na adolescência por seus meio-irmãos, fato que, segundo biógrafos, tornou-a avessa a experiências sexuais, justificando sua fama de frígida; tinha freqüentes crises de melancolia, depressão e loucura, quando se recusava a comer e dizia ouvir vozes; costumava - dada a carência que sentia da presença materna - se "apaixonar" por mulheres mais experientes que ela (a exemplo de Violet Dickinson e Madge Vaughan). Numa de suas cartas a Violet Dickinson, Woolf pede: "Escreva para mim, escreva e me diga que me ama muito. Não desejo mais nada. Meu alimento é o afeto". Mas talvez o fato mais marcante de sua biografia seja mesmo o de sua morte, através do suicídio que cometeu, em março de 1941, nas águas caudalosas do rio Ouse.
De fato, o fascínio que sua vida tem exercido, em toda uma geração de escritores, críticos e leitores, ao longo dos anos, pode ser sentido através das inúmeras referências a sua obra, pesquisas acadêmicas desenvolvidas e dos inúmeros livros publicados sobre sua produção literária. Há também o caso de escritores que criam textos ficcionais a partir de um diálogo explícito com seus textos. Recentemente, dois exemplos tornaram-se emblemáticos: o conto "Ginny" (apelido carinhoso para Virginia), cuja narrativa é construída a partir do suicídio de Woolf, constante do livro Vésperas (2002), de Adriana Lunardi; e o livro As Horas (inclusive transformado em filme), do americano Michael Cunningham, em que Virginia Woolf aparece como uma das personagens da narrativa, e seu livro, Mrs. Dalloway, constitui um framework para a compreensão de todo o livro de Cunningham.
Sabemos que um dos princípios básicos do estudo da literatura recomenda que a obra do escritor não seja confundida com sua história de vida. Fernando Pessoa, num de seus poemas mais conhecidos, refere-se ao poeta como aquele que "chega a fingir que é dor / a dor que deveras sente". Ou seja, não é que devamos (nem podemos) negar a relação entre a literatura produzida e a experiência vivida (a dor existe deveras), mas a literatura será sempre uma transmutação, uma construção da experiência de vida do escritor. Entre a vida e o texto haverá sempre o distanciamento e o fingimento necessários para a criação, imaginação e construção. William Wordsworth, poeta inglês, fala deste processo como "emoção relembrada, ou recolhida, na tranqüilidade". Virginia Woolf parecia ter uma consciência bastante clara a respeito disto. No período em que estava escrevendo Mrs. Dalloway (1925), por exemplo, ela fala do processo de criação de seus personagens como uma descoberta que semelha a escavação de "bonitas cavernas por trás dos personagens: creio que isto me oferece exatamente o que quero: humanidade, humor, profundidade. A idéia é que as cavernas possam se conectar e que cada uma venha à tona no momento presente" (Diário, p. 65).



Escrito por Correio das Artes às 09h13
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CONTINUAÇÃO

II. Virginia Woolf e a Poesia da Existência

Um elemento básico que atravessa a produção ficcional de Virginia Woolf é a consciência da passagem do tempo, da efemeridade da vida (uma das partes de seu romance Passeio ao Farol é inclusive intitulada "O Tempo Passa") e de sua natureza trágica. Numa passagem reveladora de seu diário, ela se questiona: "Por que a vida é tão trágica? Tão semelhante a uma pequenina faixa de calçada acima de um abismo? Eu olho para baixo; tenho a sensação de vertigem; pergunto-me como terei que caminhar até o fim. Mas por que sinto isto? Agora que eu o digo, não o sinto mais. A melancolia diminui à medida que escrevo" (Diário, p. 36).
Em dois de seus textos teóricos mais significativos, "Ficção Moderna" e "Sr. Bennett e Sra. Brown", Woolf tenta justificar o material temático de que sua literatura é feita. Em vez de se concentrar em conflitos externos, de caráter mais tangível, na caracterização física de personagens, na objetividade do relato, seu interesse maior é apreender o caráter fugidio da vida, as percepções e emoções que definem a experiência humana, a relevância da memória e dos processos mentais e sensoriais para a compreensão de nossas vivências. Em "Ficção Moderna", por exemplo, ela afirma que "a vida não é uma série de lanternas simetricamente ordenadas; a vida é um halo luminoso, um envelope semitransparente a nos envolver do início da consciência ao final" (1996; tradução minha). É claro que a apreensão deste tipo de realidade - espiritual, emocional, introspectiva, mental - exige todo um esforço inovador em termos de técnicas narrativas, fazendo com que a sua literatura seja construída a partir do uso de monólogo interior, fluxo de consciência e da adoção de um tipo de linguagem, dicção e ritmo que, em certos momentos, lembram mais a poesia que a prosa; uma conseqüência disto é a apresentação da  realidade e experiência humana em sua fragmentação, incompletude, incoerência e ambigüidade. Ainda no texto "Ficção Moderna", ao referir-se aos escritores russos e ao legado por eles deixado, Woolf diz:
É a consciência de que não há resposta, que, se honestamente examinada, a vida apresenta pergunta após pergunta; é isto que continua a reverberar após o término da estória, numa interrogação sem esperança - e isto nos preenche com um desespero profundo (p. 1996).
Creio que é exatamente esta reverberação que constitui a marca central da literatura de Woolf ("que se dissipou, não era poesia", nos disse também Drummond); uma reverberação que nos incita a observar e a analisar a vida em seus detalhes aparentemente triviais; a senti-la em suas variadas nuances de cores, cheiros, texturas, silêncios e sons; a sorvê-la em seus sabores e abismos. Exemplos disso podem ser facilmente encontrados em sua ficção.



Escrito por Correio das Artes às 09h12
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CONTINUAÇÃO

No conto "Kew Gardens" (nome de um jardim em Londres), por exemplo, a narradora adota, em diversos momentos da narrativa, a perspectiva de um caracol, que se arrasta junto a um canteiro de flores, para dar conta da riqueza de detalhes, minúsculos, que o canteiro oferece. O recorte de vida no jardim é visto primeiro através daquilo que habita o canteiro: a descrição toma como ponto de partida o chão e o que está atrelado a ele: o canteiro de flores, os talos, as pétalas, as folhas, os seixos, as gotas de chuva e a forma como a luz do sol vai se modificando em diferentes cores à medida que entra em contato com tais elementos. Diz a voz narrativa: "A brisa circulou reanimada e a cor cintilou no ar acima, nos olhos dos homens e das mulheres que caminhavam por Kew Gardens no mês de julho" (pp. 39-40).
A partir deste momento, a narradora também passa a observar as pessoas que vão passando pelo canteiro; há, portanto, uma mudança de foco - do espaço para a consideração do material humano. Porém, logo de imediato, percebemos uma diferença na forma como as informações sobre estes dois universos - aquele do canteiro e do caracol, e o das pessoas que passeiam perto do canteiro - são apreendidas. Se, como vimos, a descrição do canteiro é caracterizada sobretudo por uma riqueza de detalhes, que valorizam seus elementos constituintes mais minúsculos, e que só podem ser vistos se olhados bem de perto (daí a adoção do ponto de vista do caracol), a apreensão dos personagens só pode ser feita à distância, e através dos fragmentos de diálogos que eles vão deixando pelo caminho, à medida que passeiam pelo jardim. No entanto, mesmo diante desta apreensão precária, ficamos sabendo de informações relevantes a respeito dos personagens: o primeiro casal que passa, por exemplo, conversa sobre determinado momento do passado, quando ainda não estavam juntos, e a mulher, Eleanor, reflete: "Não haverá sempre, num jardim em que homens e mulheres descansam debaixo das árvores, quem pense no passado? Não são eles o nosso passado, o que resta do passado, aqueles homens e mulheres, aqueles fantasmas deitados sob as árvores ... a nossa felicidade, a nossa realidade?" (p. 41)
As considerações acerca dos personagens, bem como a dramatização do que falam e do que pensam são alternados com o arrastar-se do caracol pelo canteiro, de modo que a narrativa se organiza através da articulação destes dois universos: um aparentemente estático (o do canteiro de flores, com seu caracol que se arrasta, lentamente) e um dinâmico - ainda que apreendido na irregularidade dos passos dos personagens e na aparente incoerência de suas conversas. "Kew Gardens" constitui exemplo do que disse Virginia Woolf, certa vez, acerca do material utilizado em sua ficção: "Fico pensando em diferentes formas de conduzir minhas cenas; concebo possibilidades infinitas; vejo a vida, quando caminho pelas ruas, como um imenso bloco de material, opaco, a ser expresso por mim em seu equivalente de linguagem" (Diário, p. 51). De fato, tal opacidade constitui marca recorrente da ficção de Woolf; suas vozes e fontes narrativas sempre oferecem ao leitor a possibilidade de encarar a vida como um segredo a ser decifrado, como fragmentos de um quebra-cabeça, como mensagens a serem lidas e interpretadas. Desta forma, é possível sentir, através de suas narrativas, um paralelo entre viver e criar - como se a vida, tal como a vivemos, no nosso cotidiano, constituísse sempre, e também, algo a ser construído, a ser tecido, entrelaçado.
Este caráter criativo - que permeia não só sua literatura, em sentido geral, mas a experiência subjetivada de que sua literatura é feita - é justaposto, no romance Mrs. Dalloway, à questão da loucura. Phyllis Rose, ao analisar o romance, diz: "A criatividade e a loucura são os temas centrais deste livro: o impulso em direção à vida e o impulso em direção à morte; a sanidade e a loucura representam dois impulsos dentro de Virginia Woolf" (Rose, p. 126). De fato, o romance Mrs. Dalloway é construído de modo a alternar a narrativa de Clarissa e a preparação de sua festa - que representa celebração, vida, reencontro - com a narrativa de Septimus, o visionário louco, ex-combatente da guerra, que acaba por se suicidar. Na verdade, a preparação para a festa (incluindo a compra das flores) é logo influenciada por pressentimentos, por reminiscências, por sensações que fazem Clarissa refletir sobre sua própria solidão e estranhamento diante da vida. Cria-se, logo no início da narrativa de Woolf, um paralelismo entre celebração e desencanto, festa e morte. Tal paralelismo é já condensado no parágrafo inicial do romance, quando Mrs. Dalloway diz, "What a lark, what a plunge!" (Que diversão / graça / divertimento, que mergulho / abismo / salto!) (Woolf, 1987, p. 5). É interessante enfatizar que estas narrativas não se entrelaçam, mas caminham paralelas; apenas ao final do romance, quando o médico de Septimus comparece à festa de Clarissa e conta a respeito do suicídio de seu paciente, há o real encontro entre vida e morte, fazendo com que Clarissa desenvolva várias reflexões acerca da solidão, da vida e da morte. Clarissa reflete, por exemplo, acerca do fato de que a vida nos é legada por nossos pais, e que, quando nos damos conta, já estamos no meio da vida, vivendo - uma vida que deve ser vivida até o fim. "E havia, no fundo de seu coração, um medo terrível" (Woolf, 1987, p. 164). Há, nas suas reflexões, uma implicação clara de que não temos escolha quanto à vida. É quase impossível, ao lermos tal trecho, não lembrarmos da trajetória de vida e de morte da própria Woolf, cujo suicídio, nas águas caudalosas do rio Ouse, é assim justificado, através de um bilhete direcionado ao marido: "Tenho a sensação de que vou enlouquecer. Ouço vozes e não consigo me concentrar no trabalho. Lutei contra isto, mas não posso mais continuar lutando. Devo a você toda a felicidade na vida. Você foi perfeitamente bom. Não posso continuar estragando sua vida". O suicídio já havia rondado Woolf em pelo menos três ocasiões anteriores. E é irônico quando sabemos que no processo de idealização de Mrs. Dalloway havia uma idéia inicial de que seria Clarissa a personagem que cometeria suicídio. Porém, durante o processo de escritura do romance, Woolf muda de idéia, e transfere o suicídio para Septimus. Tal decisão, a meu ver, serve para preservar as duas grandes forças que sustentam a narrativa deste romance: de um lado, como diz Phyllis Rose, "a celebração do êxtase de viver; de outro, uma elegia pela breve passagem deste êxtase. Mrs. Dalloway alterna visões de beleza e de desespero, contentamento e melancolia; expressa o perigo de se viver e a posição precária da mente sensível sobressaltada pelo mundo material" (Rose, p. 125).
A meu ver, é exatamente desta aparente contradição que nasce a poesia da existência, tal como Woolf a apreendia e a revelava a seu leitor.

(Genilda Azeredo é professora do curso de graduação e pós-graduação em Letras da UFPB)

(Correio das Artes, edição de 19,20 de novembro de 2005)



Escrito por Correio das Artes às 09h10
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RESENHA

Antes, durante e depois de abril

Por Rinaldo de Fernandes


O conto brasileiro recente se revitalizou com o aparecimento de algumas antologias na segunda metade da década de 90 e no início agora dos anos 2000, e de autores que, aqui e ali, e em todas as regiões do país, lançaram obras de qualidade. É certo que só o tempo - "o melhor crítico literário", como bem disse Alfredo Bosi - dirá quem vai verdadeiramente permanecer. No Nordeste, hoje, temos uma safra de excelentes contistas: gente como Ronaldo Correia de Brito, Tércia Montenegro, Marcelino Freire, Antônio Carlos Viana, Geraldo Maciel, Marilia Arnaud, Aldo Lopes, Aleilton Fonseca, Carlos Ribeiro, Pedro Salgueiro, Nilto Maciel, Jorge Pieiro, entre alguns outros. E agora se alinha a esse grupo Suênio Campos de Lucena, com o seu bom livro Depois de abril (2005), lançado pela Escrituras/SP.
São contos densos, de personagens psicologicamente bem elaborados. No primeiro conto do livro, "Cetim roxo", a atriz que vem atuar num modesto circo, sem recato, resoluta, aborda o adolescente que também chega para trabalhar temporariamente no circo. Narrado do ponto de vista do adolescente, o conto tem um ritmo interessante, indo e vindo (a construção em ziguezague dos personagens é um traço importante do autor) na trajetória terrível de quem, procurando o prazer, depara-se com a morte. O adolescente e a atriz são personagens de universos diferentes. O rapaz, de dezessete anos, tem pendor artístico: mexe com marionetes (as mesmas que há no circo). Mas nunca atuou verdadeiramente como artista, como manipulador de bonecos (algo que aprendeu num curso que fez). Chega no circo para carregar caixas. A atriz, famosa, intensa, intrigante, está em decadência. Aborda o tímido adolescente no trailer do circo: "Recuei assustado, estava suado e sujo, mas ela continuou, acariciou meus cabelos e eu cedi nervoso, deitando ao seu lado". É a primeira experiência amorosa do adolescente, que, no entanto, ao final, fica muito perturbado com a morte súbita e misteriosa da atriz, ali mesmo no trailer. Um conto, certamente, muito bem construído.
Em "Gustavo", narrado pela protagonista Rute, temos a história do aparecimento, numa cidade interiorana, de um estranho familiar que, após formar-se em farmácia, chega como um parente (até então anônimo) de Rute e de sua Vó Nair, uma típica proprietária rural nordestina (lembra um pouco a dona Inácia de O Quinze, de Raquel de Queiroz). Mais uma vez, o autor consegue ter um bom domínio do ritmo narrativo, prendendo a atenção do leitor. A protagonista é muito bem desenhada na sua aversão ao (suposto) primo e no desejo (camuflado) que, afinal, a faz amá-lo intensamente uma tarde, deixando de ser virgem. Gustavo, em relação a Rute, é desestabilizador, deixa-a duplamente perturbada: com a sua incerta identidade e com a atitude de desvirginá-la. No fim, as intuições de Rute se confirmam em relação ao "impostor" Gustavo, que termina, após algumas escaramuças, fazendo a Vó Nair, antes de morrer, assinar-lhe o testamento. O fato de ser um tanto previsível o final talvez tire um pouco do brilho do conto.
"Três atos" talvez seja o texto mais bem realizado da coletânea. O escritor tem um ótimo domínio da psicologia do protagonista, um floricultor que recorda a sua relação com a família, sobretudo com a mãe. O conto trata da velha doença das relações familiares danosas ao indivíduo: o protagonista se sente infeliz diante de uma mãe que só pensa em ascensão social, em se dar bem na vida a todo custo. Daí o apego ao pai e ao gato, emblemas do afeto. Um conto forte sobre memória, perda e solidão.
Em "Vinho tinto, azeitonas e cigarros", que se passa no período da ditadura militar, temos um personagem desolado diante das torturas e de um pai e uma mãe que dão festas para militares. O jovem, homossexual, vítima de tortura no Rio de Janeiro, desloca-se até a pequena cidade onde passou a infância para encontrar os pais dando uma festa para um general, a irmã - que tem conflitos com a mãe - na maternidade. O protagonista procura o tempo todo uma identidade - mais uma vez a construção em ziguezague, lembrando os personagens de Lygia Fagundes Telles, sobre quem, aliás, o autor prepara neste momento um doutorado na USP - e é impedido de exercer-se enquanto indivíduo. Termina sendo expulso do país. Assim, no conto, o exílio do protagonista é duplo - do país e dos pais.
"Personagem", espécie de relato auto-biográfico acerca de feitos e eventos em que o autor esteve presente, me pareceu um texto deslocado. Memória que se quer misturar à ficção sem muito efeito ou sintonia com os demais textos do livro.
Suênio Campos, anos atrás, publicou um pequeno romance. Mas acho que o livro de agora é um divisor de águas. Agora, Depois de abril, é que verdadeiramente começa a sua obra ficcional. Fico aguardando, animado, o próximo título do autor.

Rinaldo de Fernandes é ficcionista e ensaísta. Autor do livro de contos O perfume de Roberta (Rio de Janeiro: Garamond, 2005) e da novela Rita no pomar (inédita). Organizador do livro Chico Buarque do Brasil (Rio de Janeiro: Garamond, 2004).

(Correio das Artes, edição de 19,20 de novembro de 2005)



Escrito por Correio das Artes às 09h09
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REPORTAGEM

Fenart: a Paraíba no cenário nacional

Por Fernando Patriota

Esta talvez tenha sido a versão mais prestigiada do Festival Nacional de Arte (Fenart), desde sua a criação em 1994. Com uma média de público em torno de dez mil pessoas por noite e uma mega estrutura, que fez lembrar o mundo mágico do circo, tema homenageado deste ano, o evento organizado pelo Governo do Estado em parcerias com algumas empresas privadas e Ministério da Cultura empregou direta e indiretamente mais de mil pessoas e marcou definitivamente o Fenart no cenário nacional da cultura. Com um show histórico para quase de 15 mil pessoas A Cabruêra lançou seu novo disco "Sons da Paraíba", na última noite do Fenart. Também no sábado (12) subiu no palco principal do Espaço Cultural José Lins do Rego o cantor e compositor Tom Zé. Um dos fundadores do movimento Tropicalista, que revolucionou a música e a cultura brasileira no final da década de 1960, Tom Zé não deixou ninguém parado com suas letras marcantes e um batuque sempre inovador.
Nomes de peso estiveram presentes durante os nove dias de Festival. Ariano Suassuna, Nelson Motta, Lobão, Elba Ramalho, Orquestra Sinfônica da Paraíba (OSPB), Tom Zé, Cabruêra, Cordel do Fogo Encantado, Eddie, Clã Brasil, Beto Brito, Emboscada, além de muito cinema, amostra competitiva de vídeo, exposição fotográfica e de artes plásticas, música eletrônica, artesanato, palestras, conferências e uma cobertura áudio-visual inédita, realizada pelo pessoal da Zuada, dos alunos de Comunicação Social de Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Este XI Fenart deve parte do seu sucesso aos seus patrocinadores, como o Banco Real, Sebrae, Lojas Maia, e a Saelpa e Celb.

Nelson Mota
Uma Em sua conferência ele passa pelos festivais da década de 60, passando pelo Tropicalismo, pelas discotecas durante os anos 70, o movimento do Rock Nacional, em 80 e 90 e a famigerada invasão da "música sertaneja", com Fernando Collor de Mello, Nelson Mota citou passagens que presenciou. "Quando Collor e a cafona da Rosane Collor pousaram entre mais de 60 duplas sertanejas, percebi que meu lugar não era mais neste país.", criticou.
As palestras surgiram em 2000, quando Nelson Motta retornou ao Brasil - depois de morar nove anos em Nova Iorque - para lançar o livro Noites Tropicais (Objetiva, 461 páginas). Com o sucesso do livro, ele passou a ser convidado para proferir palestras sobre a história da MPB. Nesses cinco anos, já foram mais de cem palestras ministradas para mais de 25 mil ouvintes em eventos realizados em centros culturais, universidades, auditórios de empresas em vários estados do país e até no exterior.

OSPB e Elba
A Orquestra Sinfônica da Paraíba deu início ao XI Fenart. Executando três peças em alusão ao mundo mágico do circo - tema de homenagem do Festival Durante a apresentação, bailarinos da Companhia de Dança Estela Paula apresentaram uma coreografia que exaltava o universo circense. O segundo momento da Orquestra Sinfônica contou com a participação da cantora paraibana Elba Ramalho que recebeu no palco, um troféu das mãos do presidente da Funesc, Temístocles Cabral, que a intitulou Eterna Madrinha do Fenart - título conferido no primeiro Fenart do qual ela participou.
Elba retorna agora ao Festival agraciada pelo público que se emocionou com o repertório consagrado ressaltado pelos acordes da OSPB. Junto à Orquestra Sinfônica da Paraíba - que este ano completa 60 anos de fundação -, regida pelo maestro Duda, Elba Ramalho cantou muito xote, forró, baião e frevo, além de dar uma palhinha com uma belíssima apresentação de voz e violão. No repertório, constaram músicas de Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Geraldo Azevedo e Sivuca, entre outros ídolos nordestinos.. Um momento célebre: apresentação de Elba cantando ao lado de Cátia de França - juntas as cantoras interpretaram Kukukaia. Elba encerrou o concerto-show agradecendo a participação e o carinho do público.

Lobão
Na segunda noite do Fenart, Lobão subiu ao palco principal da Praça do Povo do  Espaço Cultural José Lins do Rego pouco depois da meia-noite. O show que Lobão apresentou faz parte de sua nova turnê para a divulgação do disco "Canções Dentro da Noite Escura", que chegou às bancas e lojas de CDs em junho passado, comemorando a 10ª edição da revista sobre o cenário da música independente no Brasil "Outracoisa", produzida por ele mesmo. No espetáculo, Lobão não se esqueceu dos fãs conquistados nos primeiros anos de carreira, na década de 1980, e cantou sucessos como "Mal Nenhum", "Vida Louca Vida", "Vida Bandida", "Blá Blá Blá... eu te amo" ("Rádio Blá") e "Corações Psicodélicos" (Roupa Nova).
Com produção de Carlos Trilha, Fernando Morello e do próprio Lobão, as canções do disco "Canções Dentro da Noite Escura" falam de uma noite no Leblon. Nas canções  estão presentes histórias de amor, drogas e mendigos que dividem as ruas com moradores e freqüentadores do bairro. De acordo com Lobão, o novo disco, que levou quatro anos para ficar pronto, é o que mais tem a "cara" dele.

Parceiros
No show deste sábado Lobão cantou três músicas do "Canções Dentro da Noite Escura" que remetem a antigos parceiros e amigos: Cazuza, em "Seda", numa letra inédita doada por Lucinha Araújo; Júlio Barroso, em dois poemas transformados em música ("Quente" e "Não Quero Seu Perdão"); e Cássia Eller, eterna musa de Lobão, em canção feita no dia da morte da cantora.
No disco, Lobão toca todas as guitarras e violões, além da bateria, com exceção das faixas que contam com participação de dois convidados significativos: Marcelo Costa, um dos mais respeitados bateristas do país e Pedro Garcia, ex-baterista do Planet Hemp e produtor do disco de Bnegão e os Seletores de Freqüência. Lobão foi acompanhado pelos músicos Daniel Martins (baixo), Pedro Mills (teclado), Fernando Monteiro (guitarra) e Robson Vinttage (bateria), que compõe a banda de apoio desta nova turnê.



Escrito por Correio das Artes às 09h07
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CONTINUAÇÃO

Tema
Evento já consagrado como um dos maiores do gênero do país, o Fenart tem proporcionado momentos de pura emoção ao prestar a sua homenagem a figuras ilustres da história artística do nosso Estado, como Zabé da Loca, Sivuca, Canhoto da Paraíba, Otacílio Batista, entre outras. Neste ano, toda a alegria lúdica, cores e magia do circo estavam presentes no Espaço Cultural José Lins do Rego em justa e bonita homenagem ao circo. Para alguns, falar em circo é lembrar de palhaços e suas brincadeiras; de animais adestrados e números de ilusionismo, com o requinte inerente aos mágicos; de acrobacias quase impossíveis e números fabulosos de equilíbrio... Um mundo de magia.
No Fenart, falar do circo é fazer alusão também ao artista que resiste ao tempo e se faz moderno em diferentes linguagens, resgatando o mais íntimo de seus sentimentos, expondo-se no palco da vida, muitas vezes sem palavras, apenas com gestos. Outras vezes, com todas as palavras e gestualidade ornamentadas por versos melódicos ou métricos, harmoniosos e exatos.
Noite de abertura apresenta caledoscópio cultural- Itinerante como o circo, o Fenart, que nasceu restrito a um único espaço, rompeu os muros que o cercavam e foi ao encontro do povo. De quatro a 12 de novembro, a cidade de João Pessoa foi literalmente tomada pela arte em diversos pontos e momentos. Começou numa noite de sexta-feira anunciando os nove dias da efervescência cultural que a Capital paraibana viveu.

Segurança
Uma delegacia especial foi montada na entrada do Espaço Cultural para dar apoio ao esquema de segurança planejado para o Festival. O posto contou com um delegado plantonista e agentes da Polícia Civil que atenderão poucos registros de pequenos furtos. De acordo com o Superintendente Regional da PC, Guilherme Delgado, policiais militares Deram apoio à equipe de seguranças particulares e também garantiram patrulhas rondando a região nos dias do evento.
O Corpo de Bombeiros montou uma base de operações com uma ambulância no local. Da mesma forma, o Samu esteve de prontidão 24 horas por dia para possíveis emergências no Espaço Cultural, podendo ser chamado através do telefone 192. Além disso, os Bombeiros orientaram uma série de diretrizes de segurança, como a instalação de extintores em pontos estratégicos do local do evento.
 
Fenart envolve a cidade
O Fenart mais uma vez volta conseguiu envolver a cidade. Entre as atividades programadas para acontecer durante o evento que são se limitaram aos muros do Espaço Cultural. Exemplos claros disso foram  a oficina "Lambe-Lambe", que lançaou um olhar pelas ruas verdejantes de João Pessoa. Seguindo com seu cunho educativo, outras oficinas foram realizadas no Teatro Santa Roza e no Departamento de Música da Universidade Federal da Paraíba (Demus/UFPB).          
No Espaço Cultural aconteceu o Seminário Cena Contemporânea, um grande fórum de debates onde as questões que envolvem a arte são apresentadas e discutidas, desde o processo criativo, a produção e o mercado, até o universo das políticas públicas para a área Cultural. Ao todo foram 18 palestras, destas oito dentro do Seminário Cena Contemporânea; mesas redondas na área de literatura e colóquios na área de artes plásticas.
O Fenart Rua foi outro forte apelo no velho molde circense de levar a arte a todas as paragens. Um grande encontro da cultura popular exatamente com quem a faz: o povo. Os organizadores do evento prepararam um arrastão com saída do Busto de Tamandaré em direção ao Largo da PBTur, na Praia de Tambaú, contando com a participação de vários grupos representantes da mais autêntica expressão cultural do povo paraibano, a exemplo do "Grupo de Percussão de Pedras de Fogo" (PB) e  "Grupo Tenente Lucena do Sesc' (PB).

Ambientação
Para receber o Fenart, o Espaço Cultural José Lins do Rego foi ambientado pelo artista Sereco, que transformou a Praça do Povo em um atrativo à parte fazendo alusão a arte que ilustra o cartaz de divulgação do festival, criado pelo artista plástico Shiko. Na praça do Povo ainda estava a Feira de Livros que este ano reuniu 36 standes nos quais aconteceram desde encontros com personalidades importantes do universo literário paraibano, lançamentos de livros a esquetes teatrais inspirados no mais autêntico sopro poético.
O artesanato foi outro grande atrativo. Organizado pelo Cendac que desenvolve o Projeto "A Paraíba em suas Mãos", a feira de Artesanato centrou o que há de melhor no artesanato paraibano que vem mostrando quantos talentos há no Estado. Os artesãos paraibanos alcançaram com o incentivo do projeto, um novo perfil capaz de agradar ao público em geral a profissionais da área de arquitetura e designer, entre outras, de todo o País .

(Correio das Artes, edição de 19,20 de novembro de 2005)



Escrito por Correio das Artes às 09h06
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POEMAS DE EDUARDO DIÓGENES

Da porta do poeta

Da porta do poeta
sofrem palavras
todas elas ou algumas,
mas,sofrem
junto ao poeta
que as inventa
mesmo sem portas.


O não do sim

de onde assisto aqui
ao movimento dos  autos na rua
a alma imóvel,
mas, não intacta
com as notas desafinadas
de sua harpa,
insiste, e assiste tonta
ao   borburinho de fora,
mas, por dentro sim
está seu tremor maior,
o mistério infindo da palavra
o poço mais recôndito
o não do sim.

E depois eu conto

que instante
a poesia
aqui esteve
sentada à mesa ?
tão rápida foi
sua passagem
que a tornou
mais paisagem
de letras e palavras
que outra qualquer
pintura
maior de alma.
 
quantos elmos
em metal,
a espada do verso
feriu,
antes dos Quixotes,
pois o verbo mente
mas, Cervantes e Quevedo
não se forjam
em bigorna
de ferro comum.
 
é dor maior
de alegrias incomuns
é tão nascer
como ser um,
tal o meu filho
olhar para mim
e saber ;
sem poesia
este aqui é um morto.
E o depois
eu conto.

Exercício Um

o que sei de mim
que o antes já não fora visto
se passado ao todo
nunca percebi
qual presente
esteve em tempo de verbo
nenhum.
 
tanto faça ali,
a frase se encaminha
inverte -
inverno longo da palavra
exercício um
o de escrever       
por exemplo

Porto poético

vez por outra imagino
ver por ostra
a outra pessoa
a que seria
a tal sereia
da praia ao longe
ouvida
nas canções (dos poetas )
tão esquecidas
no remontar desses dias.
 
ver por poucas ou muitas
ou linhas que não traduzem
quase nunca ou sempre
o rouco verso de farsa e alegria,
ter por outra a sensação
do que nunca caberia
aqui só, dentro
como rima sem avesso
sendo o fim sempre começo
e a noite todo o dia.
 
ter por nova a antiga lira
a primeira vida
a mais de todas,
aquela que desperta
do sono ancestral
a lingua mais severa
e a transforma em música
ritmo rima e quimera
 
ser de outra roupa
a não vestida em qualquer corpo
ler no outro
o seu mais novo verso
romper o ainda tão discreto
porto poético
e calar quando a palavra
é segredo. é secreta.
 
dizer o antes desdito
refazer o que se deve construído
parte a parte
se sequer sobrou
o há tanto tempo perdido
mover das ruínas
de sonhos e mil
Borges enlouquecidos,
a pedra
de palavra única.
 
o tambor do mundo rufa !
valha-me coração pequeno
caber tanta dor.


Música do silêncio

no silêncio há
muitas vezes
até
tão sonoras
harmonias
musicais.
 
escreva se seu Ser
poético
ainda cativa
e não despreza ritmos.

Eduardo Diógenes é poeta paraibano. É colaborador do Correio das Artes

(Correio das Artes, edição de 19,20 de novembro de 2005)



Escrito por Correio das Artes às 09h03
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LANÇAMENTOS

História Universal da angústia
W. j. Solha, Editora Bertrando Brasil, 2005. Ao narrar sua "História Universal da Angústia", Solha revisita de forma original as dramáticas trajetórias dos grandes personagens de nossa cultura. Através de sete narrativas longas, o autor recria à sua maneira - meio paulista, meio paraibana, totalmente brasileira, porém sem nunca perder o caráter universal - figuras históricas, mitológicas e literárias.

Monumentos e ambientes ecológicos da paraíba
Machado Bitencourt, Forma Editorial/Governo do Estado, 2005. Álbum que reúne a produção fotográfica de Machado Bitencourt. Em texto de apresentação, o jornalista William Costa lembra que das idas e vindas do repórter fotográfico Machado Bitencour pelo mundo afora nasceram muitas reportagens fartamente documentadas com imagens. "Capítulos importantes da história paraibana vieram à tona nos textos e fotografias assinados pelo incansável repórter".

Em queda livre
Márcia Maia, Edições Bagaço, 2005. Quarto livro da poeta pernambucana que vem firmando seu nome na poesia da região. André Ricardo Aguiar assina o prefácio e diz: "Márcia Maia ainda inspira aquele combinação entre ousadia e verdade, ritmo e elegância, resgate e mergulho".

(Correio das Artes, edição de 19,20 de novembro de 2005)



Escrito por Correio das Artes às 08h59
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ESTOU LENDO

A argumentação na Comunicação, (Edusc) de Philippe Breton. Além de conhecer as artimanhas do idioma, é preciso compreender as expectativas do interlocutor. A simbolgia entre o mundo exposto e a construção do real.  
Cristina Moura, é jornalista, mestranda em História Social das Relações Políticas (Ufes)

Sagarana, João Guimarães Rosa. Estou relendo o Sagarana, o extraordinário livro de contos de Guimarães Rosa, que, em 2006, fará 60 anos de publicado."
Rinaldo de Fernandes, é escritor, autor do livro de contos "O Perfume de Roberta", a ser lançado ainda este mês.

(Correio das Artes, edição de 19,20 de novembro de 2005)



Escrito por Correio das Artes às 08h59
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CAPA

Simplesmente Tom Zé

Artista que não comporta rótulos em sua música, compositor será uma das atrações do Fenart

Por Linaldo Guedes


 Que dizer de um artista que é quase unanimidade nas mais diversas tendências da cultura no Brasil e no mundo? Para Augusto de Campos, por exemplo, é um poeta, "um trovador - troubadour - medieval, de cantigas de escárnio e maldizer". Para Herbert Viana, o maior poeta vivo da MPB. "Um sujeito nuclear". Apenas dois depoimentos dos muitos que se manifestam entre entusiasmados e agradecidos ao cantor e compositor Tom Zé. O artista baiano é a grande atração musical do XI Festival Nacional de Artes (Fenart), evento promovido pelo Governo do Estado através da Fundação Espaço Cultural.
 O repertório do show que fará em João Pessoa será basicamente a opereta "Estudando o Pagode - Segregamulher e Amor", onde Tom Zé mostra como os homens fizeram um péssimo negócio tratando tão mal a mulher durante tanto tempo. "Entretanto, farei também alguns sucessos que todos pedem, como "Companheiro Bush", "Xique-Xique", "Augusta, Angélica  e Consolação", "Made in Brasil"", explica o artista.
 Aliás, o álbum "Estudando o Pagode" tem características próprias, como toda a obra de Tom Zé. Divido em três atos, ele é assim explicado pelo artista:
 "No primeiro ato, chamado "Mulheres de Apenas" (esse título faz uma citação à música "Mulheres de Atenas", de Augusto Boal e Chico Buarque) - no primeiro ato, os homens começam agredindo de forma violenta as mulheres, com refrões contundentes. Na segunda canção, chamada "Estúpido Rapaz", a mulher argumenta que o homem não pode arranjar uma companhia mais adequada para a sua vida neste planeta e que ela tem também várias coisas interessantes, como a graça, o encanto, a percepção cósmica, além de ser, conforme dizem os textos religiosos, o único caminho que o homem pode tomar para chegar ao divino. Na terceira canção, "Proposta de Amor", o homem a convida para uma forma de amor mais leal e humanitária.
Então, repetindo aquele jogo tão comum, a mulher canta uma canção chamada "Quero Pensar", dizendo que "não se dá um 'sim' assim à-toa".
O segundo ato,  depois de um apocalipse provocado pela comunicação de massas e pelos pagodeiros, que entram na peça se queixando de que também  são tão segregados quanto as mulheres, esse segundo ato chama-se "Latifundiários do Prazer". O argumento é que, depois de todo o esforço praticado em prol da liberdade sexual, os habitantes do planeta teriam uma vida muito enriquecida pela boa relação entre homens e mulheres. Mas logo no princípio do Gênesis da nova era, as mulheres descobrem que as leis estão encaminhando o novo mundo para a mesma estrutura do anterior. E aí se revoltam e reivindicam uma remodelação da constelação moral.
O terceiro ato chama-se "O Amor Ampliado ao País", e foi inspirado em "O Banquete" de Platão, quando Diotima de Mantinéia diz que, tendo o homem se habituado ao que é belo, no convívio íntimo do amor, quando ele pensa na sociedade como um todo, quer também ver o belo ampliado a toda a comunidade".
O disco vem arrancando elogios da crítica e está concorrendo ao Grammy Latino na categoria melhor álbum pop. Sobre concorrer ao Grammy, Tom Zé lembra que João Gilberto disse que isso já é o prêmio, porque mostra que a pessoa está viva, ou seja, envolvida naquilo que produz com exigência e força estética. "Soube que atualmente é um concurso que só dá prêmios a grandes gravadoras e a nossa Trama é uma pequena produtora independente, à vista das mega multinacionais". Este fato já dá a dimensão da importância do trabalho, mas não deixa de ser irônico estar concorrendo a melhor álbum pop, quando no Brasil Tom Zé é considerado mais cult do que pop. Para o artista, isso é apenas rótulo.  "Essa classificação de pop ou de world music, de cult, acaba sendo uma maneira de a imprensa estrangeira organizar e dividir o interesse das camadas da sociedade, quer dizer, de facilitar a indicação para os consumidores. O que  faz com que sejam escritas centenas de páginas sobre mim é justamente porque não conseguem me colocar de forma convincente em nenhuma dessas definições".
De fato. Tom Zé não comporta rótulos, nem mesmo de ex-tropicalista. À propósito, comentando a importância do movimento na música brasileira é seco, objetivo: "A Tropicália foi a peça de resistência que manteve a auto-estima do povo brasileiro durante a sombra de vinte anos de ditadura". Só? Não, claro. Provocado pela reportagem, resume como era o relacionamento dos integrantes do movimento da época. Diz que era bem simples: jovens procurando se expressar, inconformados com o tipo de estética que regia o procedimento da intelligentsia brasileira e com uma grande carga de nordestinidade que explodia por nossos olhos, ouvidos e bocas.
 Há quem diga que pós-Tropicália Tom Zé seguir uma carreira distante dos demais artífices do movimento. Tom Zé discorda. "Não é que eu tenha seguido uma carreira diferente: ao contrário, antes da Tropicália eu fazia o mesmo que faço hoje. Como não havia classificação para meu tipo de trabalho, durante algum tempo ele ficou debaixo do telhado da Tropicália. E quando esse teto desmoronou, eu vivi a experiência de que: "quem perde o telhado ganha as estrelas", como digo naquela canção chamada "Solidão", do disco "Estudando o Samba'." Desabafo de quem guarda mágoas? "Mágoa não guardo, porque quem perde tempo com isso não pode fazer nada. Porém, a verdade é que eu fui enterrado vivo na divisão do espólio do Tropicalismo", responde enfático.
 Recentemente, Tom Zé fez uma intervenção no Programa do Faustão, da Rede Globo, junto com a cantora Ana Carolina. Na década de 70, artistas da MPB se apresentavam com mais constância nos programas populares, tipo Chacrinha. Hoje, o mercado televisivo parece que se fechou de vez para a música de qualidade? Tom Zé concorda e diz que a televisão teve de recorrer a uma música bem mais popular, para poder conseguir audiência. "Aí na Paraíba eu conheço duas ou três bandas muito boas, como a "Cabruera", que fazem sucesso no exterior, e poderiam perfeitamente estar dando uma mensagem muito melhor na televisão. Mas o negócio da "máquina de fazer doido" é outro".
 Pode ser outro, mas Tom Zé continua na sua. E diz, sem arroubos ufanistas, que a música brasileira é a mais forte e consumida do mundo. "Não há festival na Europa, hoje em dia, que, para atrair o público, possa prescindir de mostrar pelo menos 50% de bandas brasileiras. Isso não é porque Deus é paraibano, mas sim porque a força de um folclore muito protéico acaba atiçando os jovens para a aventura da criação e da feitura do inimaginável".

Linaldo Guedes é jornalista e poeta. Autor do livro inédito "Intervalo Lírico", a ser lançado este ano



Escrito por Correio das Artes às 11h07
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Os arrastões de Tom Zé em sua lenta luta

Por Edson Cruz

É impressionante o livro autobiográfico de Tom Zé, Tropicalista Lenta Luta. Sua personalidade contamina todos os caracteres do livro. Caracteres em suas várias acepções.
Esperava algo caudaloso, não tão maçante como o Verdades Tropicais de Caetano, mas falastrão tanto quanto.
O diapasão, porém é outro. Estamos diante de um tímido com uma consciência exacerbada e pungente de seus processos existenciais e criativos. Um tímido que sabe da imprecisão e do poder que as palavras possuem.
A trajetória de Tom Zé revela-se acima dos preços e picuinhas cobrados em sua avessa militância no Tropicalismo, e se afirma com toda a sua dignidade.
Como ele mesmo diz, foi sepultado na divisão do espólio do Tropicalismo sendo desenterrado pelo canto do salmo de David. O Byrne. Levanta-se rindo e agradecido do túmulo, mas com sua dignidade intacta. A capa do livro é muito feliz como síntese deste processo.
Sua narrativa, embora recupere desde a infância em Irará até os Festivais heróicos, não é linear nem óbvia. Contorce-se em volteios estilísticos: Panis et Serpentes. Sua estória é contada usando imagens de tantas outras. As Mil e Uma Noites de Irará.
Aquelas noites, como sinos de Combray martelando de novo meus ouvidos, são mais um argumento para eu preferir atuar sobre o conhecimento e o mundo com o método dos analfabetos de Euclides da Cunha.
É extraordinário o que a nossa MPB fomentou e fomenta de cultura em seus melhores representantes. Como é possível que alguém saído do sertão ressequido possa reverberar, conscientemente, em sua fala e obra autores como Bach, Stravinsky, Proust, Conrad, Stockhausen, Guimarães Rosa, João Gilberto, Kafka, Schoenberg, Charles Ives, Max Planck, Koellreutter, Jaa Torrano, Arnault Daniel, Ravel, Shelley, Browning, etc. É um milagre. Milagres de Irará.
A primeira e segunda parte do livro, que conta à estória de sua lenta luta, é curta. Vai da página 13 a 77. Além da vivência em Irará, a Universidade da Bahia. A semeadura e a fertilização da idéias. A experiência num projeto quase utópico para os padrões brasileiros da época: um país miserável e analfabeto monta um curso de música e convida grandes mestres da Europa para dar aulas.
O flautista e professor Koellreutter vem dirigir o curso e chega como um Euclides da Cunha ao Sertão, descobrindo e compreendendo generosamente o sertanejo. Uma experiência maravilhosa e riquíssima pro menino que veio estudar em Salvador e passou em primeiro lugar no vestibular.
O rapaz estuda com afinco neste celeiro de experimentação que se tornou a Universidade da Bahia na época do lendário reitor Edgar Santos e todos agradecemos por isso. Suas músicas improváveis são sínteses de toda esta experiência teórico-prático-existencial.
A forma como conta, na parte II, como foi levado para uma esquina longe da Tonalidade e seu romance com a Harmonia Funcional é de uma brilhante felicidade. Um obstinato (me perdoem o neologismo) em luta com a proprietária das tensões. Não era música não, era sua própria vida que estava sendo traçada.
O livro é acrescido de textos de Tom Zé feitos para a imprensa e para ocasiões especiais. São textos curtos e divertidos que vão desde Jorge Amado, passando por João Gilberto, Torquato Neto, até ao presidente Lula.
O livro também traz todas as letras do compositor, sua discografia completa, biografia musical e uma entrevista muito saborosa feita pelo editor e crítico de música Arthur Nestrovski e pelo compositor e professor de Lingüística Luiz Tatit.
A entrevista é a cereja no bolo. Tom Zé, que é um contador de estórias maravilhoso, se põe à vontade diante de interlocutores tão sensíveis a sua obra.
As observações agudas de Tatit sobre como Tom recria a tropicália em outras bases, com sua necessidade de superar 'deficiências atávicas', são esclarecedoras.
Quando nasceu, um anjo torto disse: vai Zé! Ser gauche na vida. Mas por favor, em algum momento ressuscite e dê o tom.
Tom Zé é um forte, antes de tudo. Um sobrevivente comprometido com o futuro. O passado já era. E como diz a canção: Farewell, farewell, para o Irará irei.

Edson Cruz é poeta, músico e editor do site Cronópios



Escrito por Correio das Artes às 11h06
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ENTREVISTA

Raimundo Carrero: "Não existe inspiração nem talento, mas trabalho, muito trabalho"

por Astier Basílio

O escritor pernambucano Raimundo Carrero além de ser um dos mais representativos escritores do Nordeste na atualidade. Já recebeu os principais prêmios conferidos a autores de ficção no país, como por exemplo, o Jabuti pelo livro de contos "As Sombrias Ruínas da Alma" (1999) e o Machado de Assis e APCA pela romance "Somos Pedras que se Consomem" (1995). Seu último trabalho na área de literatura foi o romance "Ao Redor do Escorpião Uma Tarântula?" (Iluminuras). O escritor será uma das grandes atrações do Fenart este ano. Raimundo Carrero ministrará uma oficina de criação literária que tem sido sucesso nas principais bienais do livro do país, a exemplo da Flip, em Paraty, onde esteve este ano. Do resultado de 15 anos de oficina ministrado em Recife, Carrero publica o livro "Os Segredos da Ficção". Nesta entrevista, o autor fala sobre o processo de criação, os métodos e exercícios necessários ao aspirante, além de saudar a nova geração de escritores e afirma que  os blogs, zines, e-mails, vieram para salvar a literatura em pleno reinado da imagem. "Os jovens estão escrevendo e bem. Não há nenhum perigo. Pelo contrário, eles alimentam o texto em todos os momentos. Criam linguagens novas? Qual é o problema? Todas as gerações criaram linguagens. Fico muito feliz quando vejo os jovens criando sua própria linguagem"
 

A Oficina que o senhor oferece tem obtido bastante sucesso, pois, já foi ministrada em várias bienais e encontros literários. A quais fatores o sr.credita esse interesse?

Acho que devido à seriedade e ao método do meu trabalho. Afinal, estou completando trinta anos de literatura e tenho uma bagagem de escritor, com 14 livros publicados. Além, é claro, do meu trabalho nas oficinas que ministro há 15 anos. E agora, com a publicação do meu livro "Os Segredos da Ficção", que tenta organizar o trabalho criador, a curiosidade é muito grande. Discutimos a teoria e a prática da escrita. Sem contar que a escola brasileira não oferece muito campo para a criatividade. E todos sentem falta disso. A minha Oficina, no Recife, funciona o ano inteiro e são seis turmas. São aulas à tarde e à noite.

Qual o perfil das pessoas que participam das suas Oficinas?

O universo de interessados é muito diversificado. Vai de meninos de 15 anos a pessoas com mais de 70 anos. O que me agrada porque convivo com varas gerações ao mesmo tempo.

Como se dá a sua Oficina, em termos metodológicos?

Procuramos, em primeiro lugar, acabar com o mito da inspiração e do talento. Não existe inspiração nem talento, mas trabalho, muito trabalho. Deve-se escrever todos os dias, independente das dificuldades. Todos nós temos uma voz narrativa e devemos trabalhar com ela, até para escrever bilhetes. Depois segue-se o Impulso, a Intuição e a Técnica. Nos dois primeiros momentos qualquer pessoa pode trabalhar, mas na técnica é preciso estudo. Assim começamos os nossos trabalhos. Fazemos exercícios, discutimos criação de personagens, desenvolvimento das cenas e dos diálogos, montagem da história. Enfim, um trabalho lento e curioso. E que sempre oferece bons resultados. Estudamos também o emprego criador, e não apenas gramatical, dos artigos, dos pronomes, dos tempos verbais, conjunções adversativas e aditivas.

Qualquer pessoa que tenha disciplina pode ser escritor? O que é fundamental para quem deseja escrever ficção?

Escrever e ler; ler e escrever; escrever e ler. Inevitável. Quem quer ser escritor, tem que ser um leitor obstinado. E ler como um criador. Tentando compreender cada passo, assim como o músico lê uma partitura: nota por nota, compasso por compasso, movimento por movimento. Entendendo o tempo verbal, o foco narrativo, as frases, os parágrafos, os diálogos, as vírgulas, os pontos. E mais tarde se exercitando. Criando histórias, personagens e cena. Dessa forma, qualquer pessoa, desde que muito interessada, pode ser escritor, sim. Disciplina, muita disciplina.



Escrito por Correio das Artes às 11h05
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CONTINUAÇÃO

O sr. recomenda alguns exercícios ou lições para escrever ficção?

Sempre peço que escrevam textos em casa, mas sem essa exigência de lições. Deixo que fiquem à vontade. Durante os debates, em sala de aula, aí sim, procuro discutir os problemas ficcionais. Mas sempre alertando: uma coisa é escrever bem, outra coisa é escrever ficção. O que muitas vezes parece confuso ou ruim num texto de prosa - artigo, conferência, ensaio - pode resolver muito bem um problema da ficção. O texto de ficção deve, entre outras coisas, responder à pulsação do personagem. Por isso, uma cena tem três movimentos: a) Pulsação do personagem; b) Pulsação da cena; e c) Pulsação do leitor. É preciso ter muito cuidado. Muita paciência.

O que o jovem escritor deve evitar e fazer após dominar os meandros da criação literária?

Tudo pode e nada pode, essa é a regra. Depende de quem faz e como faz. O jovem escritor deve evitar a preguiça. Escrever, escrever e escrever. Ler os grandes, os consagrados. Conhecer a intimidade dos seus textos. Mais uma vez: estudar cena por cena. E, na verdade, ninguém nunca consegue dominar completamente os segredos da ficção. Eles se revelam e se mostram a cada passo, mas não inteiramente. Até porque cada escritor tem a sua própria técnica - a questão é ir descobrindo aos poucos, estudando os próprios textos. Descobrir o que está escrevendo. Nunca esqueçam: estudem os próprios textos. Vejam o que eles lhe oferecem. E apliquem as técnicas consagradas às suas técnicas. Aí estará surgindo um novo escritor. Isso é básico.
 
O sr. acredita que os blogs da internet facilitam ou dificultam o processo de aprendizagem do escritor, que hoje em dia se inciam na escrita através desse meio?

 Os blogs, zines, e-mails, vieram para salvar a literatura em pleno reinado da imagem. Os jovens estão escrevendo e bem. Não há nenhum perigo. Pelo contrário, eles alimentam o texto em todos os momentos. Criam linguagens novas? Qual é o problema? Todas as gerações criaram linguagens. Fico muito feliz quando vejo os jovens criando sua própria linguagem. Agora mesmo um grupo que se conheceu nas minhas oficinas, no Recife, criou um zine - Vacatussa, que está fazendo o maior sucesso. Só posso ficar alegre. Se servi para alguma coisa, eles estão escrevendo. Nada melhor. Os jovens estão certos. Outro dia, estava lendo um ensaio de Henry James sobre Flaubert e ele alertava, contristado: "Mesmo numa época em que se publica como nunca". Isso no começo do século XX. Hoje ele teria arrepio. Não tem problema. Os meninos escrevem bem. E é o que basta. Na linguagem deles. Pronto.          

Qual a avaliação que o sr. Faz da nova geração de escritores?

Gosto muito. É muito diversificada, é verdade, mas continuamos produzindo muito bem. É impossível apontar nomes, mas Marcelino Freire, pelo menos, é uma referência. E Miguel Sanches Neto, no Paraná. André Laurentino, no Rio de Janeiro. E muitos outros nomes, ainda.

O sr. lançará algum livro na Fenart? Está trabalhando em algum romance na ataualidade?

Desta vez fico devendo um novo livro para lançamento. Ms estou, sim, escrevendo um novo romance e devo lançá-lo na Paraíba. Sem dúvida.

(Correio das Artes, edição 5,6 de novembro de 2005)



Escrito por Correio das Artes às 11h03
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ENSAIO

Pensando a poesia brasileira: esboço de futuro ensaio

Por Claudio Daniel

A poesia concreta provocou um abalo sísmico em nossa tradição lírico-discursiva, que apresentava avançados sinais de mofo. Ela abriu novos caminhos para a comunicação poética, substituindo a sintaxe normativa e a lógica linear por outras possibilidades de grafia e leitura: um poema concreto pode ser lido na horizontal, na vertical, na diagonal, com os elementos visuais, as cores e o espaço em branco integrados ao som e ao sentido das palavras, dando uma nova potência ao verbo. Essa mobilidade desde logo se chocou com os limites do objeto livro, exigindo outros suportes para sua veiculação (como o holograma, o móbile, o compact disc). Pois bem: ao explodir o verso, as estruturas e formatos tradicionais de nossa herança literária, o concretismo colocou a poesia brasileira em crise. "O que fazer depois disto?" é a pergunta que muitos fizeram após a leitura de poemas como Tudo está dito, de Augusto de Campos (para não citarmos uma longa lista que poderia incluir outros exemplos de radicalidade inventiva, como o â mago do ô mega, de Haroldo de Campos, ZEN, de Pedro Xisto, o Formigueiro, de Ferreira Gullar, ou Mayá, de Décio Pignatari). Como avançar a partir daí? Com certeza, não havia a possibilidade de aprofundamento dos processos inaugurados pelos concretos nas décadas seguintes (anos 60-70), pela escassez de meios tecnológicos. A capacidade imaginativa dos poetas ficou restrita pela ausência de novos suportes, que surgiriam apenas nos anos 80-90, com o computador e outras mídias eletrônicas. Não sendo possível dar o passo adiante, a crise se traduziu no retorno às formas tradicionais, aceitas e canonizadas pela academia.
Nos anos 70, assistimos ao retorno a uma dicção coloquial-cotidiana, derivada do Modernismo dos anos 30, com ênfase no poema-piada, na paródia e no poema-crônica-de-jornal, enfocando temas geracionais ou relacionados ao contexto político. Autores como Francisco Alvim, Cacaso e outros (reunidos por Heloísa Buarque de Hollanda na antologia 26 Poetas Hoje) reciclaram procedimentos já exauridos por nossos modernistas, sem acréscimo de informação nova. Basta fazermos uma comparação: colocarmos, lado a lado, um poema de Manuel Bandeira (de Estrela da Manhã, p. ex., de 1936), e outro de Francisco Alvim (de Elefante, publicado em 2000). A comparação talvez seja cruel, pois Bandeira, quando usou os recursos do humor e da fala coloquial (a partir da antipoesia de Jules Laforgue), fez algo inusitado, naquela época, em nossa tradição, tão acostumada à solenidade parnasiana; repetir os mesmos procedimentos setenta anos depois, porém, longe de ser uma atitude iconoclasta, revela antes uma postura resignada e conformista, de quem prefere seguir o caminho mais fácil: não responder ao enigma proposto pela esfinge, virar as costas e retornar a uma paisagem conhecida, mas de  imediata aceitação. O uso da ironia, da fala coloquial e das referências à cultura de massa foi empregado de modo mais consistente por Sebastião Uchoa Leite (que estreou em livro nos anos 60), herdeiro da arquitetura cabralina e sempre atento à construção do poema como estrutura, onde as palavras funcionam pela sua materialidade, e não apenas pela vontade lírica (embora o poeta fosse capaz de traduzir, na forma rigorosa, o seu mundo interior, tal como fez nos poemas mais intensos de seu último livro, A Regra Secreta, abordando a experiência de internação numa UTI). É possível verificarmos essa densidade em algumas obras de Armando Freitas Filho, como o Duplo Cego, nas peças mais elaboradas de Ana Cristina César e sobretudo em Torquato Neto, o "anjo louco" que soube unir construtivismo e informalidade pop. A falsa antinomia entre lirismo e investigação formal, apresentada como argumento contra a suposta "frieza" das vanguardas, parece-nos hoje mera desculpa para justificar poéticas frágeis, incapazes de traduzir a subjetividade em peças de alto impacto estético.



Escrito por Correio das Artes às 10h50
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CONTINUAÇÃO

Convém ressaltar que a vertente coloquial-cotidiana não foi a única praticada nos anos 70, apesar da ficção publicitária construída em torno da "geração mimeógrafo". Precisamos destacar uma outra tendência, formada por autores que se deixaram influenciar por algumas contribuições do concretismo, mas também pela música popular, histórias em quadrinhos, contracultura, zen-budismo e mitologia beat. Autores como Paulo Leminski, Régis Bonvicino, Alice Ruiz, Duda Machado e Antonio Risério receberam a difícil tarefa de "dar por encerrado o ciclo histórico" da vanguarda recente e avançar em outras direções, para a tão necessária renovação de águas de nossa poesia. É possível reconhecer, nesses poetas, o uso da gíria, a temática urbana, o humor, a síntese, o gosto pelo trocadilho, pelos jogos de linguagem e pela espacialização, recursos que ficam evidentes em livros como Polonaises, de Leminski, Zil, de Duda Machado, ou Navalhanaliga, de Alice Ruiz (a poesia de Risério, publicada esparsamente em revistas, seria reunida em livro apenas na década de 90, com Fetiche e Brasibraseiro, este último escrito em parceria com Frederico Barbosa). Apesar das evidentes qualidades desses autores, certamente os melhores poetas do período, eles pouco avançaram, em termos formais, em relação à "poesia-pílula" de Oswald de Andrade e ao próprio concretismo. Suas criações mais originais e consistentes talvez tenham ocorrido na canção popular (via Tropicália: p. ex., Torquato Neto, Wally Salomão) e na prosa inventiva (Catatau, Metaformose e Agora é que são elas, de Leminski, que deve ser destacado também pela obra tradutória e ensaística, ocupando o lugar de figura central de sua geração, quase um mito).
Uma outra tendência iniciada no final dos anos 70 e que evoluiu até os dias de hoje é a da poesia visual, representada por poetas como Arnaldo Antunes, João Bandeira, Lenora de Barros, André Vallias e Elson Fróes. Este caminho criativo retomou processos da vanguarda dos anos 50 e se aproximou das artes plásticas e dos meios tecnológicos, como o computador e as mídias eletrônicas. Um autor que merece ser destacado nesse grupo é o mineiro Sebastião Nunes, autor da Antologia Mamaluca, onde empregou a fotografia e o cartum, o antianúncio e a paródia tipográfica em colagens no estilo ready made de Marcel Duchamp. O poeta utilizou ilustrações de tratados científicos e catálogos de produtos para laboratórios, criando os mais diversos inutensílios, como a seringa para injetar talento poético ou as luvas de borracha para manusear poemas sujos. O que diferencia Sebastião Nunes de seus pares é justamente o humor e o timbre erótico, que só encontram paralelos em Glauco Mattoso, que também incursionou na poesia visual, nos anos 70, quando editava o Jornal Dobrábil. Outro nome que poderia ser lembrado aqui, agora no campo da prosa experimental, é Valêncio Xavier, autor do romance O Mez da Grippe, construído a partir de recortes de jornal da época da I Guerra Mundial e da epidemia de gripe espanhola. Longe de fazer um documentário ou ficção de cunho histórico, o autor elaborou uma antinarrativa paródica, sem personagens ou enredo, onde a ênfase está no português arcaico dos artigos e na linguagem visual dos anúncios, que compõem uma selva de signos.
A influência dos ícones da cultura de massa é visível sobretudo na poesia de Arnaldo Antunes, que mescla o repertório culto à linguagem do out-door, da música pop, do videoclip e do slogan publicitário. Em seus livros impressos, como Tudos e 2 ou + Corpos no Mesmo Espaço, ele utiliza técnicas de diagramação, diferentes fontes, cores e corpos de letras, fotomontagens e desenhos infantis, combinados de acordo com o sentido temático e construtivo de cada composição. Um de seus trabalhos mais consistentes é a trilogia Nome, que integra livro, fita de vídeo e compact disc, obra pioneira na exploração dos suportes digitais. Dentro dessa linha, é preciso destacar o CD Rom que acompanha o livro Não, de Augusto de Campos, que une o som, a imagem e o movimento como elementos estruturais; o sentido é desenvolvido pelo fluxo de signos na tela, numa dançante poética de metamorfoses. Augusto e Arnaldo iniciaram um novo gênero que já não podemos chamar de poesia visual, mas digital ou eletrônica, que promete boas surpresas para o futuro. Curiosamente, ao contrário do que ocorria no século passado, hoje há mais recursos disponíveis para a criação poética do que capacidade imaginativa por parte dos autores. As ferramentas oferecidas pela mídia eletrônica ainda não foram bem assimiladas, possivelmente por motivos geracionais: os poetas conhecem a tradição livresca, mas ignoram quase tudo sobre multimídia, e os técnicos em informática desconhecem por completo a poesia. É possível supor que, dentro de uma ou duas décadas, as novas gerações possam unir o conhecimento dos livros com o manejo tecnológico, tendo condições ideais para desenvolverem poemas interativos, aprofundando as propostas das vanguardas históricas.

Claudio Daniel, poeta, tradutor e ensaísta, publicou, entre outros títulos, os livros A Sombra do Leopardo (poesia, 2001), Romanceiro de Dona Virgo (contos, 2004), Jardim de Camaleões, A Poesia Neobarroca na América Latina (2004) e  Figuras Metálicas (poesia, 2005).

(Correio das Artes, edição 5,6 de novembro de 2005)



Escrito por Correio das Artes às 10h49
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CINEMA

A última revolução em Paris

Por João Batista de Brito

Um jovem americano chega a Paris na primavera de 1968. A revolução estudantil está para acontecer e ele não sabe. Ainda não, mas saberá brevemente, pois, cinéfilo de carteirinha, já participa de uma manifestação de rua em favor do grande Henri Langlois, demitido pelo governo da Cinemateca de Paris,
É nessa ocasião que Matthew (Michael Pitt) conhece esses dois irmãos franceses, Isabelle (Eva Green) e Theo (Louis Garrell), tão cinéfilos quanto ele, e que o convidam a deixar o hotel onde está hospedado e ir residir "chez eux". Filhos de um poeta famoso e de uma inglesa sofisticada, Isa e Theo levam uma vida de refinamento e extravagâncias onde os ingredientes mais fortes são cinema e erotismo.
Quando os "velhos" viajam, o trio fica à vontade para suas curtições a três. Não demora muito, por exemplo, para Matthew ser introduzido a um jogo em que alguém faz um gesto que imita uma cena de um filme, e, se o testado não identificar, será obrigado a "pagar a prenda", esta quase sempre implicando sexo.
 Tanto em termos cinéfilos quanto eróticos, as relações do trio vão se estreitando e as cenas de rua de Os sonhadores (The dreamers, de Bernardo Bertolucci, 2003) vão logo cedo dando lugar ao cenário fechado, quase claustrofóbico da casa, de tal modo que ninguém vislumbra, lá fora, o que estaria acontecendo, a revolução estudantil tomando corpo, e quando, no final, ela aparece na tela, já é como fato consumado.
Talvez por isso mesmo, quando na última cena, a violenta passeata desfila na porta e Isa e Theo aderem aos revoltosos, o espectador não compreenda muito bem essa súbita tomada de consciência de jovens que, politicamente falando, mais pareciam - para usar um termo da época -- alienados.
Quem parece ficar isento dessa incongruência psicológica é Matthew, o narrador da estória, que ainda tenta argumentar com os dois amigos contra a revolução, do mesmo modo que, em várias ocasiões precedentes, embora fisicamente envolvido, também argumentara contra o comportamento sexualmente ambíguo de Isa e Theo, que não levaria a nada, ou então (para o espectador que a testemunha) à tentativa de suicídio de Isa.
Aliás, a essa altura, seria o caso de nos indagarmos sobre o título do filme, Os sonhadores, o mesmo no original, The dreamers. Qual é o sonho indiciado? A cinefilia? O liberalismo que beira a pornografia? Ou o gesto final de aderir à revolução estudantil? Bem, a cinefilia é comum aos três, o liberalismo a dois, e a adesão revolucionária não tem sustentação no perfil dos que aderem...
A propósito da cinefilia, os personagens são fascinantes, discutindo o assunto obsessivamente, ou pior, de modo meio perverso, como se nada mais interessasse na vida, a não ser repetir a corrida Louvre afora de Bande à part (Godard, 1964), ou decidir quem é melhor, se Keaton ou Chaplin. E isso, ajudados pela instância narrativa que, logo que um filme é referido no diálogo, cuida de mostrar suas imagens, geralmente os grandes clássicos do passado, alguns exemplos ao acaso sendo: Luzes da cidade (Chaplin, 1931), Monstros (Tod Browning, 1932), Scarface, Howard Hawks, 1932), Rainha Cristina (Rouben Mamoulien, 1933), O Picolino (Mark Sendrick, 1935) Sabes o que quero (Frank Tashlin, 1956) Paixões que alucinam (Samuel Fuller, 1963) Mouchette (Robert Bresson, 1967)... Ao ser indagada sobre sua origem, Isa inventa que nasceu em 1959 e que suas primeiras palavras teriam sido "New York Herald Tribune", e então, o espectador pode ver a cena de Acossado em que Jean Seberg, vendendo o jornal nas ruas de Paris, grita exatamente estas palavras.
 Quando filmava O último tango em Paris, em 1972, Bertolucci queria que, nas cenas de sexo, Marlon Brando e Maria Schneider permitissem que suas respectivas genitálias aparecem na tela, mas Brando (que é quem conta o fato) se recusou, alegando que, nesse caso, os personagens passariam a ser as próprias genitálias. Em Os sonhadores os atores não se incomodaram com isso, e a explicitação faz parte dos desempenhos. Se ela foi montada a partir do trabalho de doublês, isso não conta para o espectador quando o olho da câmera passeia por sobre o corpo de Isa e revela tudo o que há a revelar.
Para quem acompanha a carreira de Bertolucci Os sonhadores não apresenta novidade. Pelo contrário, acho que antes de ver o filme é possível adivinhá-lo. Eu mesmo, que dele só tinha informação do tema, passei por essa experiência, me indagando, antes de locá-lo, como seria um filme de Bertolucci sobre a revolta estudantil parisiense de 1968. Os sonhadores - juro! -- não fez mais do que comprovar o que supus.

(Correio das Artes, edição 5,6 de novembro de 2005)



Escrito por Correio das Artes às 10h47
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TEATRO

Entre o teatro e o cinema

Fernando Teixeira fala da peça Mort'e Famme e do filme que terá sua participação

Por Calina Bispo

Fernando Teixeira é hoje um dos diretores de teatro mais reconhecido da Paraíba. Com uma obra extensa, onde se contam pelo menos 38 espetáculos montados sob sua direção e que o levou a ser convidado pela Universidade Federal da Paraíba para integrar o corpo docente do Curso de Artes, por Notório Saber, sem nunca ter freqüentado qualquer curso superior, o diretor está concluindo o ano de 2005 com dois projetos consolidados e reconhecidos pelo público.
 O espetáculo Olga veio primeiro e tomou boa parte do tempo do diretor. Ao fim desta temporada, Fernando tirou férias de uma semana para se dedicar a Mort'e Famme, que estará apresentando na 11ª edição do Festival Nacional de Artes (FENART), o projeto Ensaio no dia 5, sábado, /ás 18h, na Escola de Dança do espaço Cultural.
Como o próprio Fernando Teixeira afirma nesta entrevista, Mort' e Famme é uma peça que enfoca o mais alto grau da fome, da miséria humana. Aqui, Fernando também compartilha sua ansiedade em trabalhar dentro do cinema, revelando planos para um longa-metragem pernambucano, onde será dirigido pelo polêmico Cláudio Assis e assume o papel principal da história.
 Diferentemente de Olga, onde o mote é o amor guerrilheiro entre a judia e o brasileiro Luiz Carlos Prestes, numa adaptação do texto de Joacil Pereira de Brito, em Mort'e Famme Fernando Teixeira revela um pouco de sua personalidade enquanto ser humano que vive constantemente no limiar da realidade e da ficção. Com uma montagem que propões ultrapassar os limites padrões de uma dramaturgia, a peça estreou em João Pessoa para apresentar um espetáculo que mistura a commedia dell'arte de Dário FO a textos do próprio Fernando Teixeira e do Marcus William. 
 Diante desse entrelaçamento de textos e da possível influência que a commedia dell'arte poderia vir a apresentar na montagem do espetáculo, o diretor esclarece: "Lendo um livro do Dário FO, Manual Mínimo do Ator, eu comecei a ter um certo interesse não de fazer commedia dell'arte, porque commedia dell'arte, apesar de pra gente parecer uma coisa muito simples, não é, é uma coisa complicada de levar o ator até aquele nível dos personagens fixos da commedia, como o Arlequim, Ransulo, Doutor e etc. Aí o que me ocorreu foi o seguinte: criar roteiros como a commedia dell'arte fazia e em cima desses roteiros, a gente trabalhar improviso como a commedia dell'arte fazia, só que com elementos, com a nossa cultura, com os nossos pontos culturais. E no fim a gente ia dá uma mesclada para não parecer que o Arlequim era Matheus, nem que Matheus era Arlequim, coisa nenhuma. Aí nós começamos a pensar em outro tipo de personagem, mas dentro desse contexto".
 O contexto que tanto buscaram os atores do Mort'e Famme está baseado na tragédia humana, no desespero por comida e por esperanças. "Escrevi o roteiro e peguei dois roteiros do Dario Fo, que é "Dois Demônios e Uma Santa" e "A Fome de Zanny", e eu escrevi o outro, que era "A Desgraça de Uma Família" e o segundo roteiro, já que são quatro roteiros, de Marcus William, juiz de direito aqui da Paraíba, que escreve no contraponto.Um cronista maravilhoso. Aí eu peguei essa crônica dele, que era 'A Obesidade Natalina', que era sobre aquela maldita frase do IBGE, que falava que o problema do Brasil não era a fome, mas a obesidade. E ele escreve um texto interessante que está lá na peça", explica Fernando Teixeira.
 Os desafios pessoais de Fernando Teixeira também se encontram presentes em seu último trabalho, pois o quase invisível limiar entre realidade e ficção está sempre confundindo o público, revelando uma necessidade íntima de Fernando Teixeira em conseguir ver claramente essa linha que separa a vida real da ficcionada.
 "Uma coisa interessante que dizia respeito a mim, que era o seguinte: eu tive uma época, até 1990, que fiz uma coisa que eu não tinha a menor consciência que eu fazia durante todos os anos da minha vida. Só vim descobrir isso a partir dos anos 90, porque eu fui fazer análise. Eu misturei demais o teatro com a minha vida. Então, em todas as minhas situações reais eu dava um cunho literário, ou melhor, eu ficcionava em cima do meu real. Eu quase piro com isso.  Vamos dizer assim, vou falar da coisa do ciúme que é uma coisa mais grave, você assiste uma novela, uma mulher aparentemente bem direita, que aí saí e trai o marido. Pronto, isso era o suficiente para eu criar uma dramatização ou uma ficção a respeito da minha relação com a mulher que estivesse naquela época. Aí eu misturava e daqui a pouco eu não sabia, que loucura e daqui a pouco eu estava dentro de histórias que não tinham nada a ver e eu não sabia nem como sair. E isso foi uma coisa muito cáustica pra mim, eu quase que piro. Porque eu não sabia o meu nível do real e o nível da ficção.  Casei quatro vezes. Exatamente usando esse tipo de relação. E aí, eu queria fazer isso na peça. Inclusive eu fiz isso na peça. Eles começam contando uma ficção e de repente eles passam pra vida e de repente passam pela ficção e passam pra vida novamente e ali fica de um jeito que até a platéia fica querendo saber onde é ficção, onde é vida real. Essa era a idéia realmente que a gente concebe", conclui.



Escrito por Correio das Artes às 10h46
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CONTINUAÇÃO

Mesmo tendo atingido um bom público com suas duas últimas montagens, Olga e Mort'e Famme, Fernando Teixeira não deixa de questionar a popularização do teatro na Paraíba, relembrando a necessidade de uma educação de base fundamentada na cultura nacional e popular. "O problema do teatro na Paraíba é que a gente está com uma dificuldade muito grande de público. Mas isso é uma coisa que só se resolve com educação. Você não resolve isso com mídia, você não resolve isso com grandes campanhas publicitárias".
 Apesar de revelar novos talentos, para Fernando Teixeira, o teatro comunitário também não consegue atingir realmente o público a que destina o teatro paraibano. "Por ser novidade, as pessoas levam até a comunidade. As pessoas vão, até por ser de graça. Mas isso não resolve. O teatro de carreira, o teatro de bilheteria nós não podemos dizer a mesma coisa. Sabe por que?  É deseducação, pois a grande preocupação do brasileiro é sobreviver, É correr atrás. É passar por cima de qualquer coisa. Quer dizer, não há uma educação por esses hábitos de ir ao teatro, ir ao cinema de qualidade", comenta.
 Através do Fundo de Incentivo a Cultura muitas montagens de teatro estão sendo financiadas, abrindo assim um espaço ainda carente de produções profissionais, mas que já revela a qualidade do teatro paraibano. "Se não existissem os incentivos como o FIC, o teatro seria paupérrimo. A sorte do teatro é termos esses incentivos. Nós não temos condição nenhuma de botar a mão no bolso e gastar 400 reais achando que a bilheteria vai cobrir. Gastar uma mídia de televisão, que a bilheteria não cobre!".
Depois da experiência em montar dois grandes espetáculos em menos de 1 ano, Fernando Teixeira já apresenta seus novos planos, que seguem a direção do cinema nacional.  "O cinema é uma coisa que eu voltei bem e estou até fazendo um filme agora. É um filme que o título está ainda em discussão. É um filme do Recife com o Cláudio Assis", divulga. Sobre a possibilidade de trabalhar com o polêmico e criativo diretor de Amarelo Manga, Fernando se diverte e já adianta alguns detalhes da produção, que está prevista para começar as gravações logo no começo de 2006. "Ele que vai ser o diretor, polêmico, pelo que eu vi o texto assim é uma coisa muito louca também", observa.
Diferentemente de Amarelo Manga, onde toda a urbanidade da cidade do Recife é apresentada de forma agressiva e escatológica, segundo Fernando Teixeira, o diretor pernambucano entrará pelo universo rural de Pernambuco, para esta nova produção. "É uma coisa meio uma partida de cana, dentro de uma plantação de cana. E é um longa bem longa viu, pelo calhamaço do roteiro que eu recebi será mesmo um grande longa. Mas eu não tive com ele ainda. Já estive lá fazendo testes com todas as pessoas da equipe e meu papel será o principal do filme".
Diante da empolgação de poder desenvolver esse trabalho no cinema nacional, Fernando Teixeira não deixa de observar seus desencontros com o público e com as telas do cinema nacional e paraibano. "O cinema é uma coisa gostosissíma de fazer, muito interessante também. Eu fiz Eu, Tu, Eles e tiraram a seqüência que eu estava. Era uma seqüência grande. Depois fiz Cinema, Aspirinas e Urubus, que vai passar aqui no Fenart, e já fiquei sabendo que também tiraram a minha seqüência. Aí fiz o Por 30 Dinheiros, longa paraibano que também está no Fenart, que eu sou o segundo papel masculino no filme e o filme não acontece, está na gaveta de Vânia", afirma.
Em relação a ausência de exibição e de apoio na distribuição de Por 30 Dinheiros, segundo longa-metragem de ficção da Paraíba, Fernando Teixeira observa. "Eu acho que é um filme bastante interessante. Se por 30 Dinheiros tivesse estreado na Alemanha ou na França, ele seria um filme cult,  mas no Brasil, e principalmente na Paraíba, onde o pessoal é muito "crítico", é uma crítica muita pesada, pois ou é uma obra prima ou não vale nada", afirma.
"Por 30 Dinheiros, eu acho e é uma coisa que sempre defendi, É um filme que ele conta a miséria do cinema paraibano e as pessoas não entendem isso. Como ele é bastante miserável, então o figurino é miserável, o filme é miserável, a montagem é miserável, as coisas todas são muito difíceis, como é o cinema paraibano. O cinema do Brasil é uma coisa muito frágil ainda. Assim de repente tem uma coisa maravilhosa, mas passa muito tempo para ter uma segunda coisa maravilhosa. É um cinema completamente sufocado pelo cinema norte-americano, completamente tolhido. A gente não vê filmes de outros países. Então esse filme paraibano, Por 30 Dinheiros, é um filme que trata dessa pobreza e dessa miséria a partir do aspecto geral. Então você tem que ver o filme como um filme feito nessas condições. Um filme que era para ser feito com 2 milhões, foi feito com 250 mil!" desabafa Fernando Teixeira.

Calina bispo é repórter de cultura do jornal a união

(Correio das Artes, edição 5,6 de novembro de 2005)



Escrito por Correio das Artes às 10h44
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ARTES PLÁSTICAS

Federal ou nacional, qual o certo?

Por Diógenes Chaves

Certa vez o crítico de arte Walmir Ayala, já falecido, disse que o Brasil precisava fomentar as coisas das artes plásticas em formato bienal, num ano se estabelecia um grande mapeamento e análise da produção nacional e suas conseqüências diretas com a formação, mercado e políticas públicas, no outro ano se faria uma amostragem disso tudo, como uma avaliação, com resultados tipo produção editorial e curadorias sobre a questão histórica e de pesquisa na área. Tudo bem. Só que, para isso tudo acontecer, teríamos de ter, efetivamente, uma ação federal e em todas as instâncias da cadeia produtiva: instituições públicas e privadas, artistas, mercado de arte, colecionadores, fabricantes e fornecedores de materiais, universidades, órgãos governamentais, etc. Além do mais, a centralização das ações a partir de uma instância oficial, por exemplo, a Fundação Nacional de Arte, conhecida como Funarte, com sede no Rio de Janeiro e em outras capitais como São Paulo e Brasília. Noutra época, a Funarte já foi o nosso Ministério da Cultura. Quando da mudança da capital federal para Brasília, seria impossível transferir as instituições culturais, seus funcionários e seus monumentos arquitetônicos. Permaneceu no Rio de Janeiro todo o conglomerado de equipamentos como o Teatro Municipal, a Biblioteca Nacional, o Museu Nacional de Belas Artes, o Palácio Gustavo Capanema (sede da Funarte e marco da arquitetura de Le Corbusier que, para seu projeto, convidou os jovens Niemeyer e Lúcio Costa), entre outros. Enquanto saída óbvia para esta situação tudo é muito compreensível, mas, no entanto, o poder financeiro e político vigente se afastou das coisas da cultura. Definitivamente. Mas, a Funarte continuou ostentando o título simbólico de Ministério da Cultura e com poderes e direitos para implementar uma política cultural que abrangesse toda a federação. Mas, dada às dificuldades naturais que todos conhecessem, as principais ações públicas chegavam apenas a atingir as regiões economicamente abastadas. Ou seja, todo o investimento não passava de Belo Horizonte, São Paulo, Rio e Brasília. As fichas de inscrição para salões de arte chegavam na Paraíba e Amapá, por exemplo, com atraso de meses quando as inscrições já haviam se encerrado. Era uma política para atender os interesses de grupos políticos e econômicos, exceto algumas poucas ações.
Mesmo com esta situação vigente, é possível vislumbrar algumas atitudes vencedoras, por exemplo, como o Projeto Pixinguinha, de música onde uma caravana de bons artistas saem do Rio de Janeiro para viajar todo o País e, em cada localidade, encontrar o artista local e dividir o palco. Só aí já vemos nascer toda a possibilidade de troca de experiências entre os artistas envolvidos. Com a vantagem do ingresso barato, já subsidiado pela parceria entre a Funarte e os órgãos locais, havia sintonia perfeita entre entretenimento e discussão sobre formação, mercado, pesquisa, experimentação, produção, direitos e deveres... Com a criação de um Ministério da Cultura em Brasília, após a ditadura, a Funarte perdeu seu charme e função. Instalou-se uma crise onde até copo descartável faltava nas belas e espaçosas salas do antigo prédio do Ministério da Educação e Saúde, lugar onde trabalhou personalidades como Carlos Drummond de Andrade e o nosso José Simeão Leal, nos anos 1940. Até hoje não se resolveu muito sobre questões fundamentais, por exemplo, os funcionários da Funarte. Vivem sem um plano de carreira e salários dignos. Sem isso, tão básico, imaginem, como tocar uma política nacional? 
Ainda de acordo com o pensamento de Walmir Ayala, este modelo de ação bienal seria o ideal, pensando num projeto macro, por vir a dar cobertura sobre toda a produção brasileira contemporânea com ênfase para o seu reconhecimento nacional, especificamente, nesta área artística. Com o resultado obtido nesta ação bienal seria possível, para todas as instâncias acima já citadas, atuar efetivamente e com a responsabilidade de se saber onde e como investir, mudar, priorizar, fomentar, apoiar...

Mas, como na vida as coisas vão e vem, de repente, não mais que de repente, estão de volta à Funarte pessoas que pensam a administração cultural de forma inteligente e retomam o projeto Pixinguinha e criam um similar na área de artes plásticas. O Centro de Artes Visuais da Funarte cria o programa Rede Nacional de Artes Visuais com o objetivo de rearticular os pólos de produção artística nacional através da circulação de módulos formados por artistas (locais e visitantes), críticos de arte, professores, comunicadores e técnicos, que percorrem as capitais e os grandes centros urbanos, realizando oficinas de criação, palestras e debates. Seguindo as diretrizes do Ministério da Cultura, responsável direto pelas ações da Funarte, de ampliar e democratizar o acesso às artes, o projeto manterá as parcerias regionais com várias instituições culturais. Busca-se, assim, aprofundar relacionamentos institucionais que possibilitem a real valorização do artista visual, dando-lhe subsídios para o exercício da profissão. Embora privilegie o artista em suas diversas manifestações, a Rede Nacional de Artes Visuais também atinge o público em geral, ao promover atividades gratuitas e sem quaisquer pré-requisitos para as inscrições.
Ao longo de sua trajetória, em 2004, a Rede realizou um diagnóstico natural da arte brasileira contemporânea e uma documentação, em sistema digital, das imagens produzidas e vivenciadas nesse percurso. Foi criada uma série de produtos, dentre eles um CD-ROM sobre a cronologia da Arte Brasileira no Século XX, já distribuído para instituições públicas de todo o país, e uma página na Internet. Segundo Xico Chaves, responsável pelo setor na Funarte, essas mídias serão aperfeiçoadas este ano, com inserção de imagens, textos e desenvolvimento das linguagens estabelecidas.
Na Paraíba, mesmo sendo apenas um pequeno Estado da Federação, mas com vigorosa produção nas artes plásticas (Raul Córdula, Antonio Dias, Tomás Santa Rosa, Pedro Américo, Alexandre Filho, que o diga) houve um acontecimento inusitado: a parceria local foi estabelecida com uma instituição privada, a Usina Cultural Saelpa, onde acontecerão as atividades da Rede Nacional de Artes Visuais. E isto está servindo de exemplo para todo o País. Se, por um lado, isso foi causado pelo descaso de dirigentes oficiais que não perceberam a importância de se associar ao projeto da Funarte, por outro nos apresentou pessoas sensíveis com o fomento e desenvolvimento das ações de artes visuais em nosso Estado. Durante o período de 17 a 21 de outubro, aconteceu uma programação que inclui uma oficina com o artista visitante Daniel Feingold (egresso de um mestrado em Nova York e atual professor da Escola do Parque Lage, no Rio de Janeiro), uma palestra com o crítico de arte Rodrigo Moura (atual curador do Museu da Pampulha, em Belo Horizonte) e uma oficina com o artista local Raul Córdula (que melhor seria lhe dar o título de artista local universal). Sem a intervenção dos dirigentes da Saelpa e da Usina Cultural Saelpa, não teríamos o gosto de ver, por exemplo, na prática, não só o sonho de Walmir Ayala, mas de todos que acreditam na democracia, em um País justo com seus artistas, nas instituições funcionando. Federal ou nacional, isso não importa. 

(Correio das Artes, edição 5,6 de novembro de 2005)



Escrito por Correio das Artes às 10h42
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OPINIÃO

Eros na poesia

por Ascendino Leite

onaldo Cunha Lima, mais que um poeta, um pensador. Sob nossos olhares, atira-se no vermelho e  produz efeitos excitantes, como o perpassar do tempo e a encenação criadora que rodeia a poesia, nos seus ritmos mais freqüentes.
Aí o saber, a sua grandeza, antes e depois da vida, animada por suas impulsões mais nobres.
Atravessam roteiros insignes, através de símbolos definitivos, como em geral se desenvolvem na consciência da arte e das evidências estéticas. Percebi-as nestes admiráveis sonetos que enriquecem o livro ("Volúpia Sutil do Sutiã") o que mais apontou a certeza universal se apegando às sansões da imortalidade.
Isso procede de dons inatos: a consciência dos relevos, dos raciocínios ou da inteligência qualificada pelo saber. O curioso é que o poeta Ronaldo, apesar do rigor técnico e da sua aliança com o clássico, não se atrela ao eruditismo. Encanta, pela sóbria expressão de que tem chegado sempre ao cerne da mitologia poética.
Escrevi certa vez, n´algum dos meus panfletos intimistas, que, em geral, a inteligência de um verdadeiro homem de espírito, mais que um saco de angústias e amarguras, é uma bolsa de afeições e simpatias que procura conferir ao seu primeiro impulso criador.
Ora, só os excepcionais, ou os gênios, movidos por patologias obscuras, se inclinam à curtição do ominoso. Mas contrariedades de um tempo de dignidade moral e nem chega a ser vício.
É a hora em que propicia o direito de errar e repeti-lo, ainda que, com isso, pode implantar corretamente uma certeza.
É dessa falsa certeza que em geral se alimenta a posteridade.
Neste seu novo livro, Ronaldo, com a distinção delicada dos seus sonetos, reforça a impressão de que neste caso nos dá a certeza de que se ungiu na sacralidade duma revelação de Deus.
De repente, explicitamente, como um eu cósmico, desencarna-se com seus mitos, impondo sua gigantesca realidade.

Ascendino Leite é escritor paraibano

(Correio das Artes, edição 5,6 de novembro de 2005)



Escrito por Correio das Artes às 10h40
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RESENHA

Todas as vozes de um poeta

Por Ronaldo Cagiano

O poeta mineiro Ronaldo Werneck  fez um delicado encontro de contas com sua vida literária, que contabiliza trinta anos de intensa produção poética e outras atividades artísticas. Com a revisita a "Selva Selvaggia", obra publicada em 1976 , lança um novo olhar sobre eu trabalho, agora enriquecido por novos poemas e performances criativas.
A reedição desta obra, que funde texto e imagem, tem uma carga semântica particularíssima. O autor reuniu toda sua experiência com as linguagens, para fazer um balanço estético, utilizando de todos os recursos que a arte e a comunicação possibilitam, projetando suas vozes e experiências textuais e oníricas. A poética werneckiana, além de incorporar uma profunda relação metafórica com o cinema e o vídeo, assimila os recursos de dois universos aparentemente antagônicos, mas que sob sua pena se complementam simbioticamente - a tradição e a vanguarda - permitindo um diálogo entre gêneros, autores, tendências, escolas e visões.
Ronaldo Werneck pertence a uma geração que teve a felicidade de conviver com um mundo em que os padrões estéticos experimentaram profundo escalonamento de valores e uma inigualável efervescência. Um tempo em que as rupturas, as vanguardas, a experimentação,  o questionamento dos cânones, seja na literatura, no cinema, no teatro, na arquitetura, na música e nas artes plásticas, deflagraram um  fecundo ambiente de renovação da arte, propiciando, assim, uma arguta visão crítica de escritores e pensadores, o que, inegavelmente, favoreceu o arejamento da produção intelecutual e a renovação das linguagens. Sua poesia é caudatária desse clima e reflete toda uma inquietação, formal, política e pessoal.
Com "Selva Selvaggia" revisitada, RW oferece um painel bastante peculiar de sua heterodoxa oficina criativa, que não envelhece, senão assimila novos parâmetros, sobretudo do mundo tecnológico e da comunicação on line que possibilitam levar a arte de qualidade cada vez mais longe, diminuindo o fosso entre a civilização e a barbárie.
Nesse inventário afetivo, valorizado por uma visão conceitual sobre a poesia que realizou, como se pode colher da caudalosa fortuna crítica reunida, o autor contribui não só para a compreensão de sua proposta poética, mas também do momento histórico e dos processos literários em voga naquela época. Uma obra de inegável qualidade,  referencial e histórica, compatível com a importância cultural dos autores que fizeram e continuam fazendo de  Cataguases verdadeiro laboratório de idéias e movimentos culturais.

(Correio das Artes, edição 5,6 de novembro de 2005)



Escrito por Correio das Artes às 10h38
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LANÇAMENTOS

Esperado ouro
Marize Castro Una Editora, 2005. Saudada por nomes como Haroldo de Campos, Mário Hélio e R. Leontino Filho, Marize Castro chega ao quatro livro de poemas se consolidando como um dos grandes nomes da literatura do Rio Grande do Norte e do Nordeste de uma forma geral. Segundo Nelly Novaes Coelho, Marize é poeta em tom maior e tem uma linguagem oscilante entre prosa e poesia, que "nutre-se dos principais mitos e musas da literatura ocidental".

Natália
Jussara Salazar, Travessa dos Editores, 2005. Jussara é uma das grandes revelações da poesia brasileira nos últimos anos e vem despertando as atenções da crítica literária de todo o país. Em "Natália", sua nova obra, parte, segundo Victor Sosa, da tradição da linguagem e da tradição familiar para restituir e refazer o que foi desterrado: o Nome (Natália), a desaparição-desmembramento sacrificada nas aras da higiene do clã".

Primeiro as coisas morrem
Diego Vinha, Editora 7 Letras, 2005. Mais uma obra da Coleção Guizos, desta vez enfocando a poesia deste jovem poeta cearense que vem firmando seu nome na cena contemporânea. Segundo Fabiano Calixto, Diego Vinhas é poeta da novíssima geração brasileira. "Portador de uma consciência compositiva rara entre seus pares, agora nos brinda com este seu primeiro livro".

(Correio das Artes, edição 5,6 de novembro de 2005)



Escrito por Correio das Artes às 10h36
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ESTOU LENDO

Na toca dos Leões, (Planeta, 2005) de Fernando Morais. É a maior reportagem sobre a história da propaganda no Brasil, através da estratégia de vida da W/Brasil pela visão macro de Fernando Morais.   
Kilma Farias, é atriz e publicitária paraibana

Dias raros, (Planeta, 2005) de João Anzanello Carrascoza . Em seus dez contos, o leitor pode redescobrir o doce-amargo das sensações e dos sobressaltos que o amadurecimento enseja. Carracoza tem uma prosa sóbria e sofisticada, coalhada de metáforas absolutamente desconcertantes de tão belas.
Marcelo Moutinho, é escritor e jornalista carioca

(Correio das Artes, edição 5,6 de novembro de 2005)



Escrito por Correio das Artes às 10h35
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POEMAS DE DIEGO VINHAS

Incêndio

incomodava os cotovelos/ ternura pa
quidérmica/ a mandíbula/ e outras coi
sas cruas/ ali amontoadas/ algo mãe al
go Esparta/ (dizer vaga sobre a chuva)/
como um postal, olhava/ em passos
estrangeiros/ estalando gravetos
/
o incêndio da tarde/
outra paisagem


Sessão da tarde

ela
rompendo o pão
sem perícia

dedos,

tímido
batuque

à mesa -
17:30, rádio, pilha

pudesse
pequeneza
dizer,

ambos
lábios  -

calar-se
ilha

Extravio

para Rodrigo Marques

mora um rio
atrás da parede

e se vencer tijolo e pátina, vier ensinar à carne
a frase oblíquia das águas

e se trouxer sua sintaxe,
reescrever (se
músculos entre vírgulas, corpo-caminho,
afogar a palavra crânio) -me

e se não

e se preferir
 preservar suas curvas
de coisas mais tortas

e se sempre à margem
e se líquido e certo
e se for grande a hora
e se por resposta correr
atrás da parede
um rio demora.

Ainda, a casa

para Eduardo Jorge

_____, s/n

rugas
sinceras nas
pilastras-bengalas
desmaquiam
tijolos


Paralelo 3

agasalhando a taipa
, sombra maior que árvore

Diego Vinhas é poeta cearense. Os poemas acima são de "Primeiro as coisas morrem", seu primeiro livro

(Correio das Artes, edição 5,6 de novembro de 2005)



Escrito por Correio das Artes às 10h34
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RODAPÉ/PONTO DE VISTA CRÍTICO

"O COBRADOR",  DE RUBEM FONSECA

Por Rinaldo de Fernandes

Um personagem frustrado que faz do ato narrativo a melhor forma de se exercer e/ou de compor sua auto-estima - eis o conto "O Cobrador", de Rubem Fonseca. O protagonista narra - a questão principal parece ser mesmo, repita-se, de auto-estima - para chamar a atenção sobre si mesmo. Narra apagando aquelas ações que têm pouca importância em seu cotidiano e destacando os episódios que atestam sua violência e virilidade (chega a afirmar num dos poemas que escreve: "Eu sou o Homem-Pênis/ Eu sou o Cobrador"). Se a mídia costuma associar a violência a problemas com drogas, a "alterações na mente" do marginal, justificando assim a ação criminosa, no conto o protagonista age com absoluta consciência de seus atos. Não bebe nem fuma (os protagonistas de "Feliz ano novo", anterior a "O Cobrador", ainda fumam e bebem - portanto, de certo modo, "alteraram" a mente para praticar o assalto à mansão). Eu chamaria o cobrador de "herói lúcido". Os seus atos são praticados com cálculo. Ele elege na sociedade uma faixa de pessoas ("dentistas, comerciantes, advogados, industriais, funcionários, médicos, executivos") que, segundo sua ótica, estão lhe "devendo". Daí ele resolver não "pagar" mais nada, mas só "cobrar" de quem lhe deve. Intempestivo, intrigante, sente-se um "aleijado". Talvez a cena mais violenta da literatura brasileira (a de Nhô Augusto brigando de faca com Joãozinho Bem-Bem no final de "A hora e vez de Augusto Matraga", de Guimarães Rosa, é também muito forte) seja aquela em que o cobrador, invadindo um apartamento, estupra uma mulher: "Arranquei a camisola, a calcinha. Ela estava sem sutiã. Abri-lhe as pernas. Coloquei os meus joelhos sobre as suas coxas. Ela tinha uma pentelheira basta e negra. Ficou quieta, com olhos fechados. Entrar naquela floresta escura não foi fácil, a buceta era apertada e seca. Curvei-me, abri a vagina e cuspi lá dentro, grossas cusparadas". O leitor deve sair do conto intrigado com o ímpeto do personagem - mas a "insanidade" dele se justifica. É que o conto nos remete para o lado bárbaro/brutal da própria civilização.

(Correio das Artes, edição 5,6 de novembro de 2005)



Escrito por Correio das Artes às 10h31
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