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CORREIO DAS ARTES


CORREIO DAS ARTES/MAIO DE 2008

O ano em que foi proibido proibir

Por Linaldo Guedes

 
O que parecia um problema sem maiores conseqüências, acabou gerando um dos maiores movimentos sociais e políticos de todos os tempos. Dois meses antes do maio de 1968, em Paris, na França, na Universidade de Nanterre, a reitoria da instituição baixou norma proibindo que rapazes visitassem moças em seus dormitórios. De carona, um jovem estudante judeu-alemão, Daniel Cohn-Bendit, reuniu um grupo de cem colegas, e invadiu a secretaria da escola. Assustado com a represália, o reitor Pierre Grappin suspendeu as aulas chamou a polícia. O incidente, segundo informa a História, foi, de início, apenas um fato isolado. Porém, foi ali que nasceu a estrela de Bendit no meio estudantil, que se transformou em Dany le Rouge (Daniel o Vermelho, por causa da cor dos seus cabelos). Ele era bolsista do governo alemão, filho de pais judeus que emigraram para a França fugindo do Nazismo.
Dois meses depois, em maio, uma greve geral aconteceu na França. Rapidamente ela adquiriu significado e proporções revolucionárias, mas em seguida foi desencorajada pelo Partido Comunista Francês, de orientação Stalinista, e finalmente foi suprimida pelo governo, que acusou os Comunistas de tramarem contra a República. A rebelião, para alguns, foi o acontecimento revolucionário mais importante do século XX, por que não se deveu a uma camada restrita da população, como trabalhadores ou minorias, mas a uma insurreição popular que superou barreiras étnicas, culturais, de idade e de classe.
Começou como uma série de greves estudantis que irromperam em algumas universidades e escolas de ensino secundário em Paris, após confrontos com a administração e a polícia. À tentativa do governo de De Gaulle de esmagar essas greves com mais ações policiais no Quartier Latin levou a uma escalada do conflito que culminou numa greve geral de estudantes e em greves com ocupações de fábricas em toda a França, às quais aderiram dez milhões de trabalhadores, aproximadamente dois terços dos trabalhadores franceses. Os protestos chegaram ao ponto de levar de Gaulle a criar um quartel general de operações militares para lidar com a insurreição, dissolver a Assembléia Nacional e marcar eleições parlamentares para 23 de Junho de 1968.
De acordo com o historiador Alexandre Roche, tal contestação nascia do abandono dos ideais de liberalismo e comunismo, da revolução sexual, da democratização dos costumes, das modificações da Igreja e de uma abordagem existencial da vida. “A França de 1958 era uma sociedade do século 19, sobretudo no interior”, diz Roche. Segundo ele, de 1946 a 68, o movimento jovem foi sustentado e impelido por uma explosão demográfica pela qual a França não passava desde os tempos do Iluminismo: em 1964, a proporção de jovens que entravam na universidade deveria ser multiplicada por dez em relação a 1946.
A Rue d’Ulm, onde fica a Escola Normal Superior, exercia uma grande influência sobre a Universidade. Pensadores daquela instituição liam de Proudhon e Malthus, de Lênin a Taylor e achavam que esses autores seriam tão revolucionários quanto negligenciados. Junto a estes, os métodos de Foucault, Lacan, Barthes, Levi-Strauss e Sartre serviam para que eles criticassem o comodismo e a mistificação. Havia agitação no ar.
Para organizar o movimento, os estudantes precisavam de um líder. É quando surge Daniel Cohn-Bendit, que conclama a todos, e discursa: “A Sorbonne deve transformar-se numa nova Nanterre!”. No rescaldo do dia seguinte, as aulas são suspensas, a União dos Estudantes da França (Unef) e o Sindicato Nacional de Ensino Superior (Snesup) convocam greve por tempo indeterminado.
Seis de maio de 1968. Cresce a escalada da violência em Paris. Uma multidão sobe a Rue St. Jacques, disposta a retomar a Sorbonne ocupada por policiais. Rodolfo e Mimi não viveram para ver a cena: La Rouge, Alain Geismar (secretário do Snesup) e Jaques Sauvageot (vice-presidente da Unef) lideram mais uma baderna no Quartier Latin. As primeiras barricadas aparecem. Um poderoso efetivo da tropa de choque impede-lhes a passagem. A batalha começa. Marcelo Xavier conta que de um lado, rapazes e moças jogam nos policiais paralelepípedos arrancados das ruas. Estes respondem com granadas de gás lacrimogêneo. A vanguarda dos estudantes é formada por rapagões, a cabeça protegida por capacetes de moto. As moças repõem a munição, com paralelepípedos e pedras. Durante a batalha, que durou quase duas horas, 350 policiais foram feridos, a maioria com fraturas. Os estudantes se aperfeiçoam: protegem os olhos com óculos de mergulhadores e bicarbonato de sódio, como antídoto contra o gás. Rádios portáteis transmitem-lhes ordens da liderança. É o prenúncio das barricadas que deixariam Paris em chamas nas noites de 10 e 24 de maio.
Hoje, Cohn-Bendit defende a tese de que, como todos, foi pego de surpresa pelos acontecimentos e entende que a revolução é um fantasma das sociedades. Quanto à batalha campal pelas ruas de Paris, ele acredita que elas são “falsas”: “elas não são nada comparadas com as revoltas de camponeses, ainda atuais”.
Difícil, até hoje, interpretar os acontecimentos daquele ano. O filósofo Jean-Paul Sartre, por exemplo, que esteve presente nos acontecimentos de maio de 1968 em Paris, confessou, dois anos depois, que “ainda estava pensando no que havia acontecido e que não tinha compreendido muito bem: não pude entender o que aqueles jovens queriam...então acompanhei como pude...fui conversar com eles na Sorbone, mas isso não queria dizer nada”.
E por que 1968 acabou se tornando um ano mítico? Para historiadores, porque foi o ponto de partida para uma série de transformações políticas, éticas, sexuais e comportamentais, que afetaram as sociedades da época de uma maneira irreversível. Seria o marco para os movimentos ecologistas, feministas, das organizações não-governamentais (ONGs) e dos defensores das minorias e dos direitos humanos. Frustrou muita gente também.

Vietnan e China
Desde 1965, a pretexto do incidente do Golfo de Tonquim (que provou-se falso), o presidente norte-americano Lyndon Johnson ordenara o sistemático bombardeio do Vietnã do Norte, bem como o desembarque, no Vietnã do Sul, de um reforço de mais de 300 mil soldados para evitar uma possível vitória dos vietcongs (guerrilheiros comunistas que combatiam o governo sul-vietnamita que era pró-americano). Os Estados Unidos atolavam-se na Guerra do Vietnã.
No dia 30 de janeiro, na celebração do Teth, o Ano Novo vietnamita, os vietcongs, num ataque relâmpago de surpresa, tomaram de assalto 38 cidades sul-vietnamitas, entre elas Hue e Saigon (onde chegaram a ocupar a embaixada dos EUA), provocando uma derrota tática nas forças armadas norte-americanas. Apesar de terem perdido 30 mil homens na operação os vietcongs provaram serem capazes de frustar as expectativas de uma vitória americana.
A partir de então a crescente oposição à guerra dentro dos Estados Unidos quase tornou-se numa aberta insurreição da juventude. A violência dos bombardeios sobre a população civil vietnamita, composta de aldeões paupérrimos, já havia provocado desconfiança em relação a justeza da intervenção no Sudeste da Ásia. Diariamente a televisão americana mostrava imagens dos combates e dos sofrimentos dos soldados e dos civis. Somou-se a isto a visível falta de perspectiva para solucionar o conflito. Era inaceitável que a maior potência do Mundo atacasse um pequeno país camponês do Terceiro Mundo.
O site zaz.com conta que a Ofensiva do Ano Teth teve enormes repercussões. O Davi vietcong fizera cambalear o Golias americano. Paralelamente à Guerra Vietnamita, na China Popular Mao Tse-tung desencadeara a partir de 1965 a Grande Revolução Cultural Proletária (Wuchanjieji Wenhua Dageming), convocando para grandes manifestações a juventude chinesa. Estudantes, filhos de funcionários, de trabalhadores e de camponeses, na idade dos 14 aos 18 anos, agrupados nas Guardas Vermelhas, tomaram conta das ruas das grandes cidades num protesto-monstro contra os Zou zi Pai, aqueles elementos do partido comunista que, acreditavam eles, tinham simpatias pelo capitalismo e pela burguesia e que se encontravam infiltrados nos aparatos do poder. Mao Tse-tung, em velada luta contra altos setores da hierarquia do Partido Comunista chinês, convocara os jovens para auxiliá-lo a recuperar a autoridade.
Além da indignação geral provocada pela Guerra Vietnamita e o fascínio pelas multidões juvenis da Revolução Cultural chinesa, também pesou na explosão de 1968 a morte de Che Guevara na Bolívia, ocorrida em outubro de 1967. Seu martírio pela causa revolucionária serviu para que muitos se inspirassem no seu sacrifício. Jovens de todas as partes, especialmente na Europa e na América Latina, tentando atender ao seu apelo para que se formassem em outros lugares do mundo, “dois, três Vienãs” lançaram-se na vida guerrilheira.

Praga
Em 5 de abril de 1968 o povo tcheco tomou-se de surpresa quando soube dos principais pontos do novo Programa de Ação do PC tchecoslovaco. Fora uma elaboração de um grupo de jovens intelectuais comunistas que ascenderam pela mão do novo secretário-geral Alexander Dubcek, indicado para a liderança em janeiro daquele ano. Dubcek um completo desconhecido decidira-se a fazer uma reforma profunda na estrutura política do pais. Imaginara desestalinizá-lo definitivamente, removendo os derradeiros vestígios do autoritarismo e do despotismo que ele considerava aberrações do sistema socialista.
Apesar da desestalinização ter-se iniciado no XXº Congresso do PCURSS, em 1956, a Tchecoslováquia ainda era governada por antigos dirigentes identificados com a ortodoxia. Ainda viviam sob a sombra do que Jean-Paul Sartre chamou de “o fantasma de Stalin”. Dubcek achou que era o momento de “dar uma face humana ao socialismo”.
Além de prometer uma federalização efetiva, assegurava uma revisão constitucional que garantisse os direitos civis e as liberdades do cidadão. Entre elas a liberdade de imprensa e a livre organização partidária, o que implicava no fim do monopólio do partido comunista. Todos os perseguidos pelo regime seriam reabilitados e reintegrados. Doravante a Assembléia Nacional multipartidária é quem controlaria o governo e não mais o partido comunista, que também seria reformado e democratizado. Uma onda de alegria inundou o país. Chamou-se o movimento, merecidamente, de “ A Primavera de Praga”.
Na Alemanha a conflagração estudantil deu-se a partir do atentado sofrido pelo líder estudantil Rudi Dutschke. Em Berlim, Frankfurt e demais cidades universitárias as marchas de protesto redundaram em grandes batalhas campais contra a policia. Na Itália, os estudantes rompidos com o Partido Comunista Italiano, a quem acusavam de conciliar com a burguesia, aderiram à violência revolucionária com a fundação das Brigadas Vermelhas (Brigate Rosse) que chegaram a seqüestrar e matar o primeiro-ministro Aldo Moro em 1978.
O mais violento acontecimento foi o massacre dos estudantes - 26 mortos, 300 feridos e mais de mil aprisionados - na praça de Tlatelolco na Cidade do México em outubro de 1968, por ordens de Luis Echeverria, ministro do presidente Dias Ordaz.

Contracultura
Outra forma de contestação foi assumida pelo movimento hippie. Eles vestiam-se de uma maneira chocante para o americano médio. Deixavam crescer barbas e cabelos, vestiam brim e trajes de algodão colorido, decoravam-se com colares, pulseiras, e profusões de anéis. Passaram a viver em bairros separados ou em comunidades rurais. Rejeitando a sociedade de consumo industrial viviam do artesanato e, no campo, da horta. Não mantinham as regras esperadas de comportamento, higiene, nem de acasalamento: “Paz e Amor”(Peace and Love) era o seu lema.
Desenvolveram um universo próprio, uma “vida alternativa”, que infelizmente, como conta o zaz.com, não resistiu ao convívio com as drogas. Iniciados na marijuana terminaram por mergulhar em drogas mais fortes como o LSD (ácido lisérgico) e outras chamadas psicodélicas. Seus ídolos literários foram o escritor alemão Herman Hesse, cujos livros concentravam-se em histórias orientais de iniciação e abandono à introspeção e à meditação nirvânica, e o poeta Dylan Thomas, um rompedor de regras. Entre os pensadores,  o psiquiatra Wilhelm Reich. A música eleita por eles foi o rock de constestação: Janis Joplin, Jim Morrison, Jimmy Hendrix, Bob Dylan, John Lenon e Joe Cocker.
Rejeitavam abertamente tudo o que pudesse ser identificado como vindo do “americano médio” porque acreditavam que a essência da agressão ao Vietnã encontrava-se no âmago da sociedade tecnocrática, competitiva, individualista e consumista. Propunham uma contracultura (couterculture). Não formaram um partido político nem desejavam disputar as eleições. Queriam impressionar pelo comportamento, mudar os costumes dos que os cercavam para mudar-lhes a mentalidade. O apogeu do movimento da contracultura ocorreu no Festival de Woodstock, nas proximidades de Nova Iorque, em agosto de 1969, quando 300 a 500 mil jovens reuniram-se para um encontro de massas para celebrar o rock e manifestar-se pela paz.
Já a ala moderada do Movimento Negro, por sua vez, perdeu, em 4 de abril de 1968, o seu maior expoente, o pastor Martin Luther King, assassinado em Memphis. Ele que fora contestado por seus métodos pacifistas pelas lideranças mais jovens e radicais, os “Panteras Negras”(Black panthers), inclinava-se contra a Guerra do Vietnã no momento em que foi baleado. King entendia que a luta dos povos do Terceiro Mundo assemelhava-se a dos negros americanos contra a discriminação e o preconceito. Sua morte provocou uma violenta onda de protestos acompanhada de incêndios nos maiores bairros negros em 125 cidades americanas.

E no Brasil?
Três meses antes de ocorrer o levante dos estudantes parisienses, no Rio de Janeiro em 28 de março de 1968, o secundarista carioca chamado Edson Luís foi morto numa operação policial de repressão a um protesto em frente ao restaurante universitário “Calabouço”. Deu-se uma comoção nacional. O enterro fez-se acompanhar por uma multidão de 50 mil pessoas, estando presentes inúmeros intelectuais e artistas.
A partir daquele momento o Brasil entraria nos dez meses mais tensos e convulsionados da sua história do após-guerra. A insatisfação da juventude universitária com o Regime Militar de 1964, recebeu adesão de escritores e gente do teatro e do cinema perseguidos pela censura. As principais capitais do país, principalmente o Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo, em pouco tempo se tornaram praça de guerra onde estudantes e policiais se enfrentavam quase que diariamente.Cada ação repressora mais excitava a juventude à oposição. Naquela altura apenas os estudantes enfrentavam o regime pois os lideres civis da Frente Ampla (Carlos Lacerda, Jucelino Kubischek e João Goulart, que estava exilado) haviam sido cassados.
Em 26 de junho daquele ano 100 mil pessoas - a Passeata dos Cem Mil - marcharam pelas ruas do Rio de Janeiro exigindo abrandamento da repressão, o fim da censura e a redemocratização do pais. A novidade foi a presença de religiosos, padres e freiras, que aderiram aos protestos. A juventude da época dividiu-se entre os “conscientes”, nos politizados que participavam das passeatas e dos protestos, e os “alienados”que não se inclinavam por ideologias ou pela política.
Em apoio ao regime surgiu o CCC (Comando de Caça aos Comunistas) de extrema-direita que se especializou em atacar peças de teatro e em espancar atores e músicos considerados subversivos.
Em outubro, ao organizar clandestinamente o 30º congresso da UNE (União Nacional dos Estudantes), o movimento estudantil praticamente se suicidou. Descobertos em Ibiuna no interior de São Paulo, 1200 foram presos. A liderança inteira, entre eles Vladimir Palmeira, caiu em mãos da policia numa só operação. Como coroamento do desastre, o regime militar, sob chefia do Gen. Costa e Silva, decretou, em 13 de dezembro, o AI-5 (Ato Institucional nº 5).
Fechou-se o Congresso, prenderam-se milhares de oposicionista e suprimiram-se as liberdades civis que ainda restavam. A partir de então muitos jovens aderiram a luta armada entrando para organizações clandestinas tais como a ALN (Ação de Libertação Nacional), a VAR-Palmares ou dezenas de outras restantes. Por volta de 1972 o regime militar esmagara todas elas, fazendo com que os sobreviventes se exilassem ou fossem condenados a longas penas de prisão.



Escrito por Correio das Artes às 09h02
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Fatos marcantes de 1968 no Brasil e no mundo

28 de março - O governo da África do Sul apresenta três leis que culminam no apartheid
4 de abril - É assassinado a tiros, aos 39 anos, o pastor negro Martin Luther King. No dia seguinte, ocorrem conflitos raciais em 125 cidades, e a morte de 46 pessoas em Washington.
5 de abril - É lançado, na Tchecoslováquia, o programa de reformas políticas que ficou conhecido como Primavera de Praga
10 de abril - Caetano Veloso participa da "Noite da Banana" no "Programa do Chacrinha" (Rede Globo)
17 de abril - 68 municípios são considerados área de segurança nacional. Com isso, ficaram suspensas, nessas cidades, as eleições municipais de novembro
28 de abril - Cerca de 60 mil manifestantes protestam, no Central Park, em Nova York, exigindo o fim da Guerra do Vietnã (1959-1975)
30 de abril - Estréia na Broadway o musical "Hair"
5 de junho - É assassinado, aos 42 anos, o senador e candidato à Presidência dos EUA Robert Kennedy
16 de junho - A polícia francesa retoma à Sorbonne, até então ocupada pelos estudantes
26 de junho - É realizada, no Rio de Janeiro, a "Passeata dos Cem Mil", reunindo principalmente estudantes, intelectuais, artistas, padres e mães, autorizada pelo governo federal.
18 de julho - Integrantes da peça "Roda Viva" são agredidos no teatro Ruth Escobar, em São Paulo. A ação foi atribuída a integrantes do CCC (Comando de Caça aos Comunistas)
12 de agosto - É lançado, com um show em São Paulo, o disco-manifesto "Tropicália ou Panis et Circensis", de Caetano Veloso e Gilberto Gil, com convidados
21 de agosto - A Tchecoslováquia é invadida por tropas do Pacto de Varsóvia, em represália à "Primavera de Praga"
24 de agosto - A França explode, no oceano Pacífico, a sua primeira bomba de hidrogênio
3 de setembro - O deputado federal Márcio Moreira Alves, do MDB (atual PMDB), discursa contra as Forças Armadas na Câmara dos Deputados, em Brasília
2 de outubro - Confronto entre estudantes da Universidade Mackenzie e da Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras da USP, em São Paulo, mata o estudante José Guimarães
10 de outubro - A Assembléia Nacional da França realiza reformas no sistema educacional do país
12 de outubro - Cerca de 1.200 estudantes são presos em Ibiúna (São Paulo), quando realizavam clandestinamente o 30º Congresso da UNE (União Nacional dos Estudantes)
5 de novembro - O republicano Richard Nixon (1969-1974) é eleito presidente dos EUA
21 de novembro - O presidente Costa e Silva aprova a lei de censura de obras de teatro e cinema. É criado também o Conselho Superior de Censura
22 de novembro - Chega às lojas, nos EUA, o "Álbum Branco" dos Beatles.
13 de dezembro - Entra em vigor o AI-5 (Ato Institucional nº 5), que suprime as liberdades democráticas no Brasil. Com o AI-5, o Congresso Nacional é colocado em recesso e vários parlamentares têm seus mandatos cassados



Escrito por Correio das Artes às 09h01
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Palavras de ordem em 1968

"O patrão precisa de ti, tu não precisas dele"
"Todo poder abusa. O poder absoluto abusa absolutamente"
"Abaixo o realismo socialista. Viva o surrealismo"
"O poder tinha as universidades, os estudantes tomaram-nas. O poder tinha as fábricas, os trabalhadores tomaram-nas. O poder tinha os meios de comunicação, os jornalistas tomaram-na. O poder tem o poder, tomem-no!"
"A política passa-se nas ruas"
"Trabalhador: tu tens 25 anos, mas o teu sindicato é do outro século"
"Juventude Marxista Pessimista"
"Revolução, eu te amo"
"A revolução deve ser feitas nos homens, antes de ser feita nas coisas"
"Um só fim de semana não-revolucionário é infinitamente mais sangrento que um mês de revolução permanente"
"Quanto mais amor faço, mais vontade tenho de fazer a revolução.
Quanto mais revolução faço, maior vontade tenho de fazer amor"
"Abaixo os jornalistas e todos os que os querem manipular"



Escrito por Correio das Artes às 09h00
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68 é AGORA

Por Paulo Tarso Medeiros

caríssimo Linaldo: conversei com jimi hendrix e torquato neto agora, angustiado com a pergunta: corremos o risco de cultivar efemérides e, por força da diluição destas comemorações, petrificá-las transformando o que era grito e canto vivos em peça de museu?
jimmi pegou sua fender branca, aceitou uma pedrinha purple de LSD (mais uma oferta da Rita Lee a ele), ligou-a, eletrificou o inferno todo, e ainda chamou Noel, Vinicius, Tom, Ray Charles,  incendiando os santos loucos que ali dionisam, e fez-se de 68 um novo concerto. 
estou aqui e agora em 1968, embora Cronos o deus que guarda o calendários dos dias enfadonhos e tristes indique 2008, Maio também. não importa.
2068. 1908. 1968. 2008.
o que pulsa?
uma recusa ao modo de vida capitalista, dada sua impossibilidade, por definição estrutural, de ser capaz de estimular igualdades sociais, riquezas espiritais, felicidades existenciais - sobretudo de acenar para a ampliação do exercício das liberdades pessoais, grupais, tribais, maquinarias quaisquer em estados puros de agenciamento.
para os descrentes que riem da relevância dos acontecimentos de 68, arremesso delicadamente um Gilles Deleuze: é má-fé confundir transformação de processos estruturais em níveis macrosociais com o devir existencial-estético-comportamental de sujeitos singulares, os devires revolucionários desencadeados a partir de rebeldias, anseios e experimentações instalados a partir das emanações afirmativas das potências de vida em Aion.
estou em 68, sou meiaoito meu caro: significa desde sempre recusar o consumo como sentido último da vida; implica impregnar-se, em estado de Aion, da atmosfera vívida que se pode ouvir nas criações de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Os Mutantes, do Jimi, dos Beatles, dos Rolling Stones, de Pink Floyd, Novos Baianos, Hermeto, Led Zeppelin, GRand Funk, Deep Purple, Smetak e Erasmo,  com o mesmo frescor, espanto e vibração de cronos 40, simultaneidade e coexistência de tempos e espaços.
implica em cautela, em hesitar em mumificar 68 como estátua histórica de algo que se sonhou e não vingou: mentira!
68 é movimento sempre em devir, em incontida metamorfose, em perenes estágios de mutações - a ponto de eu poder te garantir, com a sobriedade babaca do 2008 que essa carta flana aberta e louca emergindo de 1968!
daquui, eu , Hamlet e o bardo genial acenamos para você: o tempo, meu amigo, o tempo está fora dos gonzos, dos eixos!!!
também Janis, Rita, Raul, Gal fruta gogóia, Made in Brazil, Ten Years After, betânia-fernando pessoa & clarice, e Cacaso e Zé Miguel Wisnik e Luiz Orlandi, e Michel Foucault, e Barthes e Nietzsche e Deleuze, e o Che, e tantos outros estão aqui: Thimoty Leary, Jack Kerouac, Henri Miller, Bob Dylan, Santana, isto aqui tá uma maravilha, meu amigo:Woodstock é hoje!!!!
embora um grafite ali na parede de pedra-e-morte enuncie que "a felicidade é uma idéia ausente nas ciências humanas", estou aqui, estamos aqui cantanto e gritando com caetano: queremos é estetizar a vida! fazer da vida uma obra de arte!!!!!!!!
abraços, com muito afeto e algum adoçante,



Escrito por Correio das Artes às 08h59
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Da agitação ao primado das trevas

Por José Octávio de Arruda Melo

Assinalado por tensões sociais que desembocaram no Ato Institucional número cinco, de treze de dezembro, o ano de 1968 viu-se marcado, internacionalmente e nacionalmente, por importantes acontecimentos históricos que repercutiram na Paraíba.
Internacionalmente, 1968 registrou a acentuação da Guerra do Vietnam, por meio da qual os Estados Unidos tentavam, inutilmente, escorar o governo do Vietnam do Sul, com capital em Saigon, ante a crescente infiltração dos comunistas do vietcong.
Estes, em janeiro, desfecharam a oferensiva do Tet, que restringiu norte-americanos e sulvietnamitas a suas bases militares e algumas cidades. Em consonância com esses eventos do sudeste asiático, o primeiro semestre de 68 registrou, a partir de maio, em Paris, levantes estudantis que se estenderam a todo mundo, e inclusive a Paraíba.
Nesta, cidade como João Pessoa, Campina Grande, Cajazeiras, Itabaiana, Catolé do Rocha, Pombal, Mamanguape e Guarabira registraram manifestações em que, aliados ao chamado clero progressista, e segmentos culturais da classe média, os estudantes puseram a questionar, externamente, o imperialismo americano e, internamente, o sistema militar brasileiro, com aquele consorciado.
Dentro desse quadro, em que viatura federal chegou a ser incendiada em pleno Ponto de Cem Réis, da capital paraibana, as passeatas foram num crescendo, até encontrar pela frente a repressão das autoridades. Estas partiam da Guarnição Militar (gal. Venitius Notares), Polícia Federal (delegado Emílio Romano) e Secretaria de Segurança Pública, do tenebroso brigadeiro Firmino Ayres.
Essa dinâmica principiava a esgotar-se quando, em agosto, o deputado federal Márcio Moreira Alves, aproveitando o pequeno expediente da Câmara, pronunciou discurso, concitando as moças a não freqüentarem os jovens oficiais nos festejos da Semana da Pátria que se aproximava.
Como os ministros militares requeressem licença para processar o parlamentar, defendido pelas principais lideranças políticas, inclusive da Arena, partido do governo, o resto do ano consumiu-se nisso. De um lado, a linha dura do governo, liderada pelo ministro da Justiça Gama e Silva, Forças Armadas e comunidade de segurança, contra Imprensa, Congresso Nacional, OAB, Clero mais avançado e sociedade civil.
Apesar dos acenos de conciliação do presidente da República, Costa e Silva, o estamento militar não esperou pelo AI-5 para revigorar a repressão. Em João Pessoa, a heterodoxa Rádio Arapuan, que oferecia cobertura à mobilização anti-golpe, foi fechada em outubro. Quando sei diretor, jornalista Otinaldo Lourenço, procurou o arcebispo Dom José Maria Pires, que ali mantinha programa semanal, buscando modus vivendi, este respondeu: “Nós, os profetas, não podemos trair o povo. Mudar nosso discurso seria, a essa altura, trair os evangelhos”.
Ao lado de Dom Helder Câmara, no Recife, e Pedro Casaldáliga, bispo de Goiás, além de Dom Luciano Cândido de Almeida, secretário geral da CNBB, o arcebispo da Paraíba distinguia-se pelas restrições ao consulado militar.
Graças ao controle da situação pelo governador João Agripino e presidente da Assembléia Legislativa, Clóvis Bezerra, a área política não se tornou particularmente receptiva a essas manifestações. Na Casa de Epitácio Pessoa, a Arena 1, governista, totalizava dezenove deputados, e a homônima Arena-2, seis, e oposicionista MDB, catorze deputados.
Mesmo assim, as contestações sobrevieram. Na Câmara Municipal de João Pessoa, os vereadores Oswaldo Pessoa Jurema, Álvaro Magliano e Derivaldo Mendonça puseram-se a denunciar o arbítrio. Foi esse o caminho seguido na Assembléia pelo deputado emedebista Ronaldo Cunha Lima:
“(...) é preciso que se ressalte que não estamos aqui para defender a anarquia ou participar de qualquer desordem. Estamos neste instante a protestar contra a violência, contra a arbitrariedade do governo, que manda sua polícia para a rua, a fim de massacrar estudantes, e ainda deseja que estes estudantes, subservientes à sua vontade, não possam protestar, pelo menos em nome e na defesa da classe que representam”.
Ato contínuo, Cunha Lima licenciou-se para disputar a prefeitura de Campina Grande, onde formou chapa com o ex-prefeito Orlando Almeida. Osmar de Aquino e Figueiredo Agra candidataram-se pelo MDB-2 e Vital do Rego e Langstein de Almeida pelo MDB-3. O situacionismo também lançou três chapas: Severino Cabral-Raimundo Asfora, Plínio Lemos-Evaldo Gonçalves e Stênio Lopes-Amaury Vasconcelos.
Travada em clima de exaltação, a campanha eleitoral campinense elevou ainda mais a temperatura político-social. O ex-deputado Figueiredo Agra proclamou, evocando as Ligas Camponesas, que “as flores plantadas em Sapé floresceram no Vietnam”. Já o deputado federal Osmar de Aquino, também candidato, ressaltou, em assembléia estudantil, que “não tenho medo de bordados de generais”.
Graças ao artifício das sublegendas, Ronaldo Cunha Lima tornou-se o prefeito de Campina Grande. Embora derrotado m Cajazeiras, Pombal e Catolé do Rocha, como baluarte das esquerdas clerical e estudantil, o MDB saboreou representativos êxitos e Patos, com Olavo Nóbrega; Bayeux, com Lourival Caetano; Monteiro, com Arnaldo Lafayete; Guarabira, com Gustavo Amorim; Sapé, com José Feliciano; e Juazeirinho, com a família Marinheiro.
Regozijando-se, o deputado federal Humberto Lucena alardeou o controle oposicionista dos principais pólos eleitorais do Estado, mas seu colega Rui Carneiro, senador, advertiu que o restante do ano poderia ser perigoso na área federal.
Uma vez mais, Carneiro estava com a razão. Derrotado na votação da licença para processar Marcito, o governo federal respondeu com o AI-5. Oficializado o “terrorismo no Estado”, mediante diploma que suprimia o habeas-corpus, o reitor da UFPB, capitão médico Guilhardo Martins, veio a público apoiar a providência.
1968 terminou, desta forma, com o Brasil imerso nas trevas. Para Zuenir Ventura, no edificante “1968 – O ano que não terminou”, de várias edições, o poder jovem nem conseguiu derrubar o capitalismo nem o imperialismo americano. O que se conseguiu foi implementar a revolução existencial dos novos padrões sexuais, a partir daí vigentes.

José Octávio de Arruda Melo é historiador, autor de “História da Paraíba – Lutas e Resistência”.



Escrito por Correio das Artes às 08h59
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A música em 68: interface com o usuário

Por Amador Ribeiro Neto

Não foi só para o Zuenir Ventura que 1968 não acabou. Pra todos aqueles que viveram a inesquecível década de 60 este ano ficou encravado na nossa “memóriavivavida” como um conjunto de saberes e prazeres.
Vejo meus alunos de 20 e poucos anos falando da música desta época como uma coisa que lhes chega pelas mídias. Algo distante. Mas cheio de molho. Afinal, 68 era o tempo de uma brasa, mora! Na parada musical de 68 está Roberto Carlos com o rock de “Se você pensa”, também gravado por Gal Costa no estilo Janis Joplin. Gal ainda emplacava com aquela que considero a mais bela canção da MPB: “Baby”, de Caetano Veloso. Com Gal ainda havia a música tema do programa de televisão homônimo: “Divino Maravilhoso”. Foi neste programa que Caetano cantou “Anoiteceu”, de Assis Valente, empunhando um revólver contra sua fronte. Era dezembro. O Tropicalismo, lançado no ano anterior, dizia a que vinha: bagunçar o coreto e tripudiar com o bom-mocismo das músicas.
Outro sucesso do ano, na voz de Caetano era “Soy loco por ti América”, de Gil e Capinan. Até hoje tocando no rádio e na TV. O Tropicalismo marca presença com a plurinarcísica “Superbacana”, de Caetano, e “São São Paulo” de Tom Zé. Os Mutantes, que já surpreendiam o público com “Proibido proibir” emplacavam com duas novas paródias: “2001” e “D. Quixote”.
Mirian Makeba nos chegava diretamente da África com o seu balanço provocantemente ambíguo de “Pata pata”. Os Beatles sacodem os bailinhos com “Hey Jude”, primeiro lugar no Brasil e em vários países. Além de “Revolution” que prenunciou as mudanças de 68. Sem esquecer “Hello Goodbye”. 68 era também um ano-Beatles.
Ao lado do rock, o bom samba. O magistral suingueiro Wilson Simonal fez o país todo dançar ao som de “Sá Marina” e “Nem vem que não tem”. Sérgio Mendes estraçalhava com “The fool on the hill”. Clara Nunes deixava sua marca pra sempre na MPB com “Alvorada no morro”. Chico Buarque abandona a bandinha e estoura com “Carolina”, mais um samba que fica na memória do nosso povo. “Sabiá” obtém o primeiro lugar no Festival Internacional da Canção e racha o público que queria “Pra não dizer que não falei das flores”.
Clara Nunes tem outra. Com “Você passa e eu acho graça” leva o povo ao samba de roda. João da Baiana nos dá o imortal, bem humorado e clássico “Cabide de molambo”. A eterna Elis com “Lapinha”. Um nome surge dos festivais de samba: Martinho da Vila com “Casa de bamba”. O MPB4 com “Ela desatinou” cutucava com vara curta a ditadura militar. Era um samba muito cabeça – e os censores dançaram.
Como em toda e qualquer época, a caretice deixava sua marca. É o caso de Paul Mauriat com “Love is blue”. “Light my fire” de Jose Feliciano. “Tenho um amor melhor que o seu” de Antonio Marcos. “Última canção” de Paulo Sérgio – aquele que se apresentava com o sósia de Roberto Carlos. “Pra nunca mais chorar”, de Vanusa. “Do you want to dance” de Johnny Rivers. “Aranjuez mon amour” de Lafayette e sua orquestra. “Helena, Helena, Helena” de Taiguara. “A pobreza” de Leno. “O milionário” de Os Incríveis. “Quero lhe dizer cantando” de Agnaldo Rayol. “Eu daria a minha vida” pela chorosa Martinha. José Mendes antecipa a breguice do sertanejo de plástico com “Pára Pedro”. Gigliola Cinquetti alentava os corações kitsch com “Dio come ti amo”. Barbara Streisand estourava nossos tímpanos com “Free again”. Ou seja: havia brega pra todos os desgostos.
1968 é o ano do IV Festival da TV Record. O Tropicalismo, lançado no ano anterior, segue firme e forte, sem medo de temer a morte com “Divino maravilhoso”, de Caetano, interpretado por Tom Zé e Gal. O público ovaciona a canção. Mas o primeiro lugar seria de outra canção tropicalista e acidamente irônica: “São São Paulo” de Tom Zé. “Divino maravilhoso” fica em terceiro lugar. No segundo, “Memórias de Marta Saré” de Edu Lobo e Guarnieri. No quarto, a não menos corrosiva e totalmente pós-moderna, avant la lettre, “2001”, de Rita Lee e Tom Zé.
O festival de 68 consolida o Tropicalismo como o movimento cultural musical mais importante desde a Bossa Nova. A presença de Rogério Duprat e Damiano Cozzella, vindos da música erudita, aumentaram o gás e fizeram um “up grade” no repertório do público que, dali em diante, nunca mais seria o mesmo. Tanto é que anos depois o Manguebeat iria sacudir os rumos de nossa música popular. E está aí a Nação Zumbi comprovando isto. Para muitos a melhor banda do momento.
No mesmo ano o III Festival Internacional da Canção anunciava, sob estrondosas vaias, a belíssima “Sabiá”, de Chico Buarque e Tom Jobim. O segundo lugar vai para uma das mais caretas canções de todos os festivais, a medíocre, sofrível e insuportável  “Pra não dizer que não falei das flores”, de Vandré, o mesmo compositor de belas canções líricas. Mas aqui ele pegou pesado na linha do engajamento político e fez uma canção datada, que apenas a desavisada Simone viria a regravá-la, recentemente, com movimentos de marchas marciais. O terceiro lugar fica com aquela que é uma das músicas mais insuportavelmente tocadas até hoje: “Andança”, de Edmundo Souto, Danilo Caymmi e Paulinho Tapajós. A canção é bonita, não resta dúvida, mas a obsessão em tocá-la toda hora, em todo lugar a fez vítima de si própria.
68: nem o AI-5, no final do ano, tiraria a garra de nosso povo. Perseguido, vilipendiado, exilado, preso, torturado e morto os nomes da resistência musical e política não arrefeceram. Formas de burlar a censura – sempre burra, castradora e injustificável – apareciam aqui e ali. Numa peça teatral, num disco, num show, nas conversas dos bares, nos corredores das universidades focos de resistência dizem não ao não. A ditadura militar chegara. Mas não viera pra ficar. E assim se fez. O ano de 68 marcou a vida e a ação dos brasileiros. Que contra o vento, sem lenço, sem documento, souberam perseverar, resistir, combater. Ainda que falando de lado e olhando pro chão. Mas havia a certeza do dia raiar sem pedir licença.
Mais uma vez a nossa MPB, sem deixar de lado a interface estética, punha o dedo na ferida da opressão. “Apesar de você”, de 1970 e “Pelas tabelas”, de 1984, ambas de Chico Buarque, são dois momentos basilares de nossa canção engajada estético-politicamente. Outro dia viria e veio. Todo mundo na rua de blusa amarela.
A assertividade musical de 68, até pela negação, diz: esta canção é só pra dizer – e  diz. Não ao não. Proibido proibir.

Amador Ribeiro Neto é poeta e professor da UFPB. É colunista do Correio das Artes



Escrito por Correio das Artes às 08h58
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Cansei de 1968

Por Affonso Romano de Sant'Anna


Já não agüento mais tanta matéria sobre 1968, que alguns chamam de "ano que nunca acabou" , mas me dá ganas de dizer que é o "ano que nunca existiu" ou o " ano que a gente inventou".
Digo isto, porque eu estava lá, nesse não-lugar, que era igual ao que dizem, embora totalmente diferente. É que as datas históricas são todas inventadas, incrementadas. Todo feito histórico é um fato a posteriori, acontece depois. E 1968 começou a acontecer depois de 1968. A rigor, até paradoxalmente, começou a acontecer também antes, se é que alguma vez realmente aconteceu.
Por exemplo, é impossível pensar nessa data volátil sem pensar nos "Beatles", que surgiram no fim dos anos 50 e em 1964 já eram um escândalo internacional. Afinal foram eles e seus seguidores que descabelaram  o comportamento cotidiano,  enquanto Mary Quant e outras  expunham as coxas com  a mini-saia. É igualmente impossível pensar nisto sem lembrar dos " hippies", que receberam esse nome já em 1965, quando se apoderaram das ruas de São Francisco. Como testemunha histórica da imprecisa história,  lhes digo, "meninos eu vi", eu estava lá na Califórnia naqueles anos e via o imaginário acontecendo. Herbert  Marcuse  e Norman Brown propunham  uma fascinante revolução erotizada. Diziam: viva Narcido! Viva Dionísio! Viva Eros! Viva Orfeu! E os Estados Unidos eram um caldeirão de protestos: negros, índios, homossexuais, ecologistas, hippies, experiências com LSD e toda sorte de drogas, protestos contra o Vietnam, enfim, 68 já acontecia lá, antes de acontecer na caixa de ressonância que foi Paris.
Olho hoje revistas franceses resenhando livros sobre 68 com títulos contraditórios: Desde "Esquecer 68" do icônico Cohen Bendit que foi na França o ator principal, a outros como "Maio 68, uma contra-revolução bem sucedida", "Maio 68, a filosofia nas ruas", "É preciso liquidar 68?", "O romance de Maio 68", "O pensamento anti-68", "Maio de 68 contado aos que não o viveram", "Maio de 68 para uso de menores de 20  anos". E assim por diante. Entre dezenas de obras, há até um,"Dicionário de  maio 68" e um livro com "As frases de maio de 68". Quer dizer, 68 virou uma indústria, uma fonte de renda e de delírios.
Sendo jovem era impossível não se deixar seduzir por  frases como : " A imaginação no poder", "Seja realista, exija o impossível", "É proibido proibir". São frases utópicas, algumas arriscadas e de sentido duplo, pois pregar que é " proibido proibir" é    praticar, contraditoriamente, o autoritarismo.
Sem precisar lembrar que  situação nos Estados Unidos, França, Tchecoslováquia, México e Brasil era totalmente diversa, é penoso constatar com diversos ensaístas  que após o surto das passeatas, greves e guerrilhas, houve como reação, um recrudescimento da direita,  e o  slogan pregando o retorno à "lei e ordem" elegeria Nixon nos Estados Unidos.
1968 é a história de um fracasso. E o mais desnorteante é como a história se constrói através dos fracassos. Vejam Tiradentes: enforcado, esquartejado e sua revolução desmantelada. No entanto, posteriormente foi vitorioso. Vejam Cristo, acabou daquele jeito  na cruz e   nos últimos  dois mil anos tem sido um ícone poderoso.
Vocês se lembram de uma letra de Caetano, baseada num slogan alheio que dizia: "coloquei os meus fracassos na parada de sucesso"? Por isto é que uma de nossas maiores filósofas e também autora de romances - Clarice Lispector - iluminando os paradoxos da existência, dizia que a história de uma pessoa é a história de seu fracasso. 
Fracasso através do qual construímos nossa fracassada e vitoriosa trajetória.



Escrito por Correio das Artes às 08h58
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Cinema em 68

Por João Batista de Brito

Se considerarmos que no ano de 1968 estrearam, no mundo todo, cerca de 5.289 filmes, a idéia seria a de que não houve, em termos cinematográficos, nada de especial nessa data. Afinal de contas, esta era a média de filmes por ano no planeta, pelo menos a média da década...
E mesmo em termos qualitativos não parece haver uma distinção a fazer. Cinematograficamente falando, o ano de 68 só se distingue dos outros anos da década por um aspecto de alguma maneira irônico: marcava o fim dos grandes movimentos de cinema, eclodidos entre o final dos anos cinqüenta e o começo dos sessenta.
O mais badalado de todos, a Nouvelle Vague francesa, estava nos seus estertores em 1968. O que se viu nos cinemas parisienses quando os estudantes e os operários tomaram as ruas da cidade eram filmes, se importantes nas carreiras de seus autores, sem grande expressão cultural e com pouca relação com o momento histórico. Para citar apenas os (ex)nouvellevaguistas: de François Truffaut estreava “Beijos roubados” (“Baisers volés”) uma comédia leve sobre um jovem sem vocação para o trabalho e o amor; de Claude Chabrol “As corças” (“Les biches”), um drama homossexual passado em Saint-Tropez; de Resnais “Eu te amo, eu te amo” (“Je t´aime, je t´aime”), um science-fiction sobre regressão temporal. A bem da verdade, dentre os fundadores da Nouvelle Vague, somente Jean-Luc Godard dava – evidentemente, sem o saber - uma resposta à inquietação reinante com o seu “Weekend”, que mostrava um engarrafamento de tráfego quase tão grande quanto a revolução estudantil.
O Free Cinema inglês, outro movimento da década, parecia igualmente diluído em 68. Os seus mentores, como Richard Lester, Tony Richardson (de “A carga da brigada ligeira” em refilmagem) e Karel Reizs (de “Isadora”, sobre a vida de Duncan) tomavam outros rumos estilísticos, e nesse ano, um dos seus participantes, John Schlesinger se mudara para Hollywood onde estava rodando – é verdade - um dos filmes que viriam a definir o perfil da década: “Midnight cowboy” (“Perdidos na noite”). Sobre a revolta radical num colégio inglês, o filme mais próximo do momento histórico foi o “Se...”  (“If...”) de Lindsay Anderson, pela temática análoga, com certeza o mais relevante a ser citado a propósito de 1968. 
No Brasil, o Cinema Novo vivia as suas últimas experiências, logo sufocado pelo AI-5 de 13 de dezembro. O enfurecido Glauber Rocha tentava lançar “O dragão da maldade contra o santo guerreiro”; Paulo César Saraceni operava uma adaptação de Machado de Assis em “Capitu”, Roberto Santos filmava “O homem nu”, Gustavo Dahl mostra o seu “Bravo guerreiro, e Rogério Sganzerla, por outro caminho, se saía com o seu “underground” e ainda hoje tão pouco conhecido, “O bandido da luz vermelha”, porém, no mais, era o cinema comercial que o povo consumia, como o sucesso do ano “Roberto Carlos em ritmo de aventura”, de Roberto Farias.
Quem mantinha uma certa vitalidade era o cinema italiano, tão vigoroso nos primeiros anos da década, mesmo sem um nome que o definisse como movimento. Michelangelo Antonioni dera o que falar com o seu “Blow up” no ano anterior e, neste ano de 1968, estava preparando o seu “Zabriskie point”. Federico Fellini e Pier Paolo Pasolini estavam ocupadíssimos com os seus respectivos “Satyricon” e “Teorema”, que só estreariam em 69. E a Cinecittà continuava investindo nesse novo gênero, o western spaghetti de Sergio Leone, o qual, neste 68, lançou o elaborado e hoje clássico “Era uma vez no Oeste”.
Abalada pela televisão e, mais ainda, pelas mudanças comportamentais, Hollywood clássica já não era mais clássica havia muito tempo. Os grandes cineastas do passado, como John Ford, Frank Capra, Raoul Walsh, George Cukor, etc, estavam aposentados ou em vias de, e os que ainda atuavam não tinham mais o velho pique. Lançado no ano, “Funny girl” de William Wyler não significava grande coisa. Nem o “Eldorado” de Howard Hawks, nem o “Topázio” de Alfred Hitchcock, aliás, rodado na Inglaterra. “A noite dos generais” de Anatole Litvak era um filme de guerra interessante, mas só isso – aliás, com a curiosidade de que era o título em cartaz nos cinemas brasileiros na noite em que os generais deram o golpe do AI-5. Quem ainda inquietava era esse teimoso John Huston, neste ano com o seu perverso “Reflections in a golden eye”, onde Marlon Brando encarnava um militar que se descobria homossexual, filme que no Brasil teve um título estranhamente comprometedor: “O pecado de todos nós”.
Enquanto isso, fora dos estúdios, um independente John Cassavettes continuava dando o seu recado, neste ano com “Faces” (“Rostos”). Mas, claro, mesmo com todas as vicissitudes, Hollywood não entregava os pontos, e um certo sangue novo surgia no Arthur Penn de “Bonnie e Clyde”; no Mike Nichols de “A primeira noite de um homem”, e nos westerns sanguinários de Sam Peckimpah, que neste ano estava rodando o marcante “Meu ódio será tua herança”, para estrear no ano seguinte. Isto para não falar no acontecimento cinematográfico que foi o longo e delirante “2001 uma odisséia no espaço” de Stanley Kubrick, provavelmente o filme mais importante de 1968.
Se quisermos insistir nos termos qualitativos, penso que a coisa certa a dizer é que o ano de 1968 vai encontrar, no mundo, um cinema de autores isolados, gênios individuais, pensando o século, sim, mas, cada um de acordo com o seu imaginário mais privado. Nesse rol, perfilo os já citados Fellini, Glauber, Kubrick, Antonioni, Godard, e figuras como Bergman (“A hora do lobo” e “Vergonha”, dois filmes em 1968) e Buñuel, que em 67 nos dera “A bela da tarde”, e, em 69 daria “O estranho caminho de São Tiago”. No contexto cinematográfico, são desses cineastas que lembramos quando paramos para pensar no ano em questão, ou nos seus arredores, temporais e/ou espaciais. Nem todos os filmes destes cineastas tiveram a ver, diretamente, com os avassaladores acontecimentos de 1968, mas, em termos históricos, a eles se integraram e, hoje, deles por tabela fazem parte.

Em tempo: como o espaço é pequeno e os filmes são muitos, acrescento uma relação de 10 títulos de 1968 que, por uma razão ou por outra, tiveram considerável repercussão junto ao público:

As sandálias do pescador (Michael Anderson)
Barbarella (Rober Vadim)
Inferno no pacífico (John Boorman)
Meu nome é Coogan (Don Siegel)
O bebê de Rosemary (Roman Polanski)
O planeta dos macacos (Franklin Schaffner)
O submarino amarelo (George Duning)
Primavera para Hitler (Mel Brooks)
Romeu e Julieta (Franco Zeffirelli)
Um convidado bem trapalhão (Blake Edwards)



Escrito por Correio das Artes às 08h57
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Delírios Heróicos

Por Irapuan Sobral


“A terra é azul”
Yuri Gagarin

O heroísmo das conquistas começou a humanizar-se com a Segunda Guerra mundial e sublimou-se com a pegada do homem na lua, em 1969.
1968, um ano antes, o caldeirão de mitos fervia: estado, autoridades, famílias, pais e mães perderam a santidade, em estado de ebulição: moléculas que se volatilizavam no mundo infinito de partículas atômicas, que a bomba de Hiroshima anunciara com sua relatividade. Mas, antes que morressem todos os heróis, descobriu-se que a terra é azul e o que se via como céu era apenas um reflexo do eterno domingo terreno. Sobraram irmãos, numa relação de amor, em grau de cumplicidade.
Entretanto, heróis não morrem resignadamente: eles se batem antes de se entregar, até que ouçam, dos vilões, os planos da conquista. É saudável pensar que somente heróis abatem heróis, numa relação de substituição cômoda para que se ouçam as orações épicas dos vencedores no cemitério.
À falta de espaços vazios no universo das coisas e do pensamento convém exigir compreensão sobre o que é novo - ou conseqüência da derrocada do antigo. Porque, quando o novo é além do atual, por não se bastar em si, provoca o caos, útero de deuses, que geram homens.
1968 foi assim: o caos, que ainda remanesce à espera das idéias de Deus; é o niilismo das praças em contraposição à desconstrução até então observada nas revoluções. A juventude que surge como maioria e ocupa seu tempo espacial (ou seu espaço temporal) diverge do modo de fazer, mas não propõe, sequer como maioria, a sua forma. Eis o caos. A corte celestial que se estabelece vai se extinguindo entre lágrimas de eternidade; despe-se do infinito, porque a beleza da juventude está no seu limite e não na sua “para sempre” ousadia.
Como, pois, edificar com flores se elas se perdem no céu de diamantes?  O que podem fazer os restos das divindades extintas? Os tempos do fogo, do ferro, da pólvora e da cisão atômica, filhos de Chronos adotados por Zeus, se entregam a essas flores do jardim de Kairos?
Sobra a realidade - antes mutante nos ideais, na evolução dialética - agora registrada, guardada friamente nas palavras impressas, vista em películas imunes à interferência do atual, do nascente; não posta à morte e à ressuscitação permanentes. O que “anda[va] nas cabeças e nas bocas” limita-se, no seu afã do sempre, com esta realidade. O cogumelo atômico e a pegada de Neil Armstrong são túmulos eternos e estorvos para o dia. O heroísmo volátil ainda se bate querendo o status de epopéia - como a imitar os derrotados, esses fantasmas de todas as épocas - sem nunca se sentir vencedor de uma causa ou realizar uma conquista de poder, a negação do efêmero.
Os netos de 1968 não nasceram coloridos: padecem de sonhos e, paradoxalmente, de conquistas independentes. Vive-se agora uma nova geração (a de Aquarius?) prenhe de heroísmos temporários - fugazes - e de oportunismos que desprezam o nexo causal que faz história.
1968 é um ano sem fim, portanto sem conseqüências.

Irapuan Sobral é advogado



Escrito por Correio das Artes às 08h57
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“Quem sabe faz a hora...”

Por Calina Bispo

“Caminhando e cantando e seguindo a canção, somos todos iguais braços dados ou não”. Geraldo Vandré não quer mais que o Brasil o associe a esta música ou a qualquer outra lenda a seu respeito que remeta à ditadura brasileira ou a sua contribuição artística para o Brasil, como ele afirmou recentemente em entrevista ao jornalista Ricardo Anísio.
Mesmo assim Vandré desculpe esta reportagem, mas, realmente, quando começamos a resgatar a memória de 1968 na Paraíba, nos deparamos com “Pra não dizer que não falei das flores” como um dos momentos inesquecíveis não só da Paraíba, por ser você um paraibano, mas da cultura brasileira em geral.
Entre tantas testemunhas, intelectuais, artistas, jornalistas e formadores de opinião em geral, Caminhando e Cantando ainda é lembrada e celebrada por todos. Mas este é apenas mais um resgate do ano que marcou não só o Brasil, mas vários países do mundo, pois em 1968, assim como durante toda a década de 1960, o mundo passava por transformações radicais em conseqüência da tentativa de se manter valores que já não se sustentavam. Esse confronto provocou crises em todo o Brasil também.
No mundo afora, fatos como a Primavera de Praga, os protestos contra a Guerra do Vietnã e as palavras de ordem do Maio de Paris entravam para os livros de história geral. No Brasil, vivíamos à mercê de um processo político caótico e na Paraíba não podia ser diferente.
Para este resgate, convidamos o ator e diretor de teatro Fernando Teixeira, o pesquisador e historiador Arion Farias, o poeta Sérgio Castro Pinto e os jornalistas Marcos Tavares e Petrônio Souto a relatarem algumas memórias e assim relembrar momentos difíceis, históricos e esquecidos desse período do Brasil testemunhados por quem vivia na Paraíba. 
Toda a década de 60 é marcada por revoluções tecnológicas, sociais, econômicas e financeiras que levarão à inquietação a população de vários países no ano de 68 (há outros artigos nesta edição que investigam bem o contexto internacional).
A partir do depoimento de Arion Farias faremos uma pequena retrospectiva, sem pretensão de esgotar o contexto da época, de toda a década de 1960 na Paraíba, como forma de identificar e procurar compreender os anos que antecederão aquele marcado por tantas transformações.
“Na década de 60 a Paraíba se encontrava numa época da anistia de Juscelino Kubistchec; Mario Andreaza estava concluindo a BR-230 e João Agripino inaugurando residências no interior do Estado. O reitor Guilardo Martins Alves estava dando nova dimensão à UFPB; José Américo de Almeida completando 91 anos” observa o historiador.
Lazer na cidade das Acácias, segundo ele, era sinônimo, mesmo que já em decadência, de Festa das Neves, festas nos clubes, matinês de cinema, além de algumas novidades que começavam a surgir e transformar o comportamento e a vida sexual das pessoas (homens, claro, porque mulher “de família” nessa época ainda não podia ter compreensão e ação em relação a este assunto).         
“A Festa das Neves estava transformando-se numa nostalgia enquanto que os Clubes Cabo Branco, Astréa e Jangada continuavam lutando para não cair no declínio. Os cinemas Plaza e Rex realmente eram o ponto de encontro social, sendo as únicas diversões nos finais de semana. Uma novidade disto tudo é que começou a surgir os motéis que iam sendo inaugurados nas periferias da cidade. Outro ponto alto do entretenimento sexual é que as prostitutas continuavam em alta. Tínhamos os cabarés com dancing ao som de violino e piano com jogos de luz e cortinas esvoaçando em Ozana, Normelia, Ieda e tantas outras. Também começavam a aparecer os novos bares da cidade que ficariam famosos como o Boiadeiro, Bambu, Canadá e outros”.
Quando nos aproximamos de 68, começamos então a perceber também um momento importante para a mulher brasileira, que é a libertação feminina, provocada, inclusive pela nova dimensão urbana da cidade, como explica o historiador.
“As jovens adolescentes ainda com as ‘amarras’ familiares nos colégios de freiras, com a farda de blusa em mangas compridas, saias azuis marinhas plissadas compridas com 10 centímetros abaixo dos joelhos, e na saída das aulas as normalistas, subiam os coeis deixando as amostra o joelho e era um sucesso. Então, já sentíamos que as mulheres estavam se libertando, saindo de suas "camarinhas" para exercerem também os seus direitos de cidadania candidatando-se a cargos legislativos, como Diva Palito, Madalena, Creusa Pires e outras”.
Entre as expressões artísticas que se manifestavam contra a ditadura militar em 1968, o teatro foi uma das mais perseguidas, como observa o ator e diretor teatral Fernando Teixeira, que por aqui já movimentava a cena neste período. A censura chegava junto, não permitindo, inclusive, a divulgação na imprensa dos espetáculos que iriam estrear naquela época.
"Este foi o ano fatal para o teatro brasileiro. A censura apertava o seu cerco tirando cartaz dos espetáculos, cortando cenas inteiras; Liberdade, liberdade, por exemplo, teve 25 cortes em seu texto e era evidente, pelo que se lia nos jornais, que  os critérios de tolerância dos quartéis tinham chegado ao seu limite", relembra Fernando e acrescenta ainda que "na imprensa, aconteciam muitos cortes praticados pelas censura. Os jornais eram  sobrepostos por receitas de bolo, os grupos quase paramilitares, amedrontavam os artistas, intelectuais  e ou qualquer pessoa que por acaso não aprovassem suas idéias". 
Teixeira segue revisitando o passado e afirma que "o Comando de Caça aos Comunistas em um ato de fanáticos, entrava de supetão no teatro Ruth Escobar  em São Paulo,  onde estava em cartaz a peça, "Roda Viva", de Chico Buarque, espancando e maltratando vários membros do elenco e destruindo o cenário e o equipamento técnico. Em setembro, no Rio Grande do Sul, a mesma peça estava em cartaz, e voltaram a ser agredidos, e a censura acabando por proibir o espetáculo.    E ai, se inicia no Brasil o estado de exceção com prisões, tortura, exílio". 
Na Paraíba, como enfatiza o diretor, o cenário não era muito diferente da conjuntura nacional. Deste período, um fato em especial é recordado por Teixeira, que relembra como o Teatro Santa Roza foi palco de um curioso protesto da classe artística paraibana.
"Naquela época as agitações eram as mesmas que aconteciam no resto do País, embora, nos palcos não existisse uma contestação direcionada, mesmo assim, alguns representantes da classe teatral participavam dos movimentos estudantis como simpatizantes da causa, agiam, tomavam posições, algumas rebeldias corajosas como a de alguns atores que pularam uma parede no Teatro Santa Roza e entrara em um salão onde havia uma exposição de peças artesanais, que os americanos da Aliança para o Progresso coletaram no interior nordestino e aí, promoveram uma grande quebradeira e tornaram aquele acervo em pó. Dias depois, por causa do tal quebra-quebra, uma bandeira Americana foi queimada na frente do Santa Roza. Um heppning produzido pelos artistas plásticos da Paraíba  culminou com o banho de tinta preta em uma Americano que fotografava o evento", observa.
Um dos momentos mais importantes do teatro paraibano nos anos de 1960 relembra Fernando, foi a montagem do espetáculo Os Fuzis da Senhora Carrar de Bertolt Brecht e em 1968, aconteceria o maior golpe desferido pela Ditadura Militar, à nossa cena teatral com a extinção das Semanas do Teatro.
"A montagem do espetáculo teatral Os Fuzis da Senhora Carrar, com direção de Rubens Teixeira, numa produção  do teatro universitário da Paraiba,  exatamente em 1964 teve seu significado dado a importância que aquele texto representava, que era  a resistência de uma mãe numa luta insana para que seus filhos não fossem para a guerra. Evidente que o espetáculo teve vida curtíssima" e continua  afirmando que "em 1968 a maior perda que o teatro paraibano sofreu, foi com o final das Semanas de Teatro que vinham resistindo por sete anos".
Segundo o diretor, as Semanas de Teatro representavam o momento em que todos os grupos do teatro paraibano, que tinham espetáculos montados, vinham para João Pessoa mostrar seus trabalhos. "Ficavam todos hospedados nos salões de dança do Teatro Santa Roza vendo espetáculo infantil a tarde e adulto a noite. Porém, a ordem do golpe era desarticular", enfatiza.
Desta forma todas as pessoas que faziam teatro tiveram que mudar o  objetivo de suas produções, que antes se resumia às Semanas de Teatro onde a maioria apenas montava seus espetáculos para se apresentarem naquele evento e assim, vários grupos foram criados e vários espetáculos foram montados sobre os olhares da censura e na busca de uma platéia permanente.
"Nesse período eu, Jurandyr Moura e Carlos Aranha, criamos o Grupo de Teatro Bigorna, que teve como seu primeiro espetáculo A Navalha na Carne de Plínio Marcos. Apesar de toda a repulsa que a censura federal tinha ao texto,  eles não nos incomodaram", observa e acrescenta que foi neste mesmo período que Paulo Pontes retorna do Rio de Janeiro para escrever e montar o espetáculo Parai-bê-a-bá.
Onde hoje é o restaurante Cassino da Lagoa,  em 1968 ali foi um dos pólos de "concentração" juntamente com o bar Bambu, da classe artística e intelectual da Paraíba, que se reunia para entre protestos políticos, também discutir o movimento cinematográfico europeu – grande influência para a cinematografia brasileira daquele período.
"Naquele coreto da lagoa onde hoje é um restaurante, era o ponto de encontro das passeatas e discursos e no outro lado, o famoso bar e restaurante Bambu, local de encontro dos intelectuais e artistas, tornava-se o encontro da "intelligentsia", das novas orientações e das grandes discussões sobre os filmes e seus criadores revolucionários: franceses,  italianos e brasileiros".
Enquanto isso, no Departamento de Censura Federal reinava um censor aqui em João Pessoa que agia na mesma ordem da nacional, "cortando cenas quando lhe aprazia, proibindo espetáculos, censurando falas e cenas, e até mesmo sugerindo mudanças aqui e acolá. Na montagem de O Que Vai Fazer, Chamar a Polícia? Havia uma cena em que a personagem, durante uma cena terrível de tosse e hemoptise, rasgava a gravura do Cristo que havia em um quadro. O tal censor simplesmente proibiu o espetáculo, no entanto, conseguimos sua liberação diretamente em Brasília com a toda poderosa chefe da Censura Nacional Solange Hernandez", completa Teixeira.
Teixeira encerra suas lembranças com a seguinte afirmação: "Este relato é apenas uma fagulha daquele palheiro, onde mais abusos, prisões, interdições e iniciativas pessoais e isoladas aconteciam e o famoso braço da Lei só estava a serviço deles ".
Já o poeta Sérgio Castro Pinto nos fala sobre o movimento literário da época e registra o surgimento de um importante coletivo na capital paraibana. Segundo o poeta, começava a surgir na Paraíba o Grupo Sanhauá, o que revela também a inquietação artística e cultural neste período.
"Em 1968, João Pessoa era uma cidade que, de tão pequenina, 'cabia todinha num só olhar', daí, quem sabe, o sentimento grupal que grassava entre nós" observa. Eram grupos e mais grupos atuando em todos os sentidos, em todas as mãos e contramãos do teatro, das artes plásticas, da poesia, etc.
"Eu mesmo pertenci ao Grupo Sanhauá, cujos livros, publicados às nossas próprias expensas e essencialmente artesanais, eram uma espécie de protesto contra aqueles que publicavam nas editoras oficiais, a exemplo das gráficas do jornal A União e da Universidade Federal da Paraíba. Com isso, pretendíamos demarcar o nosso espaço marginal diante da política oficial e oficiosa do governo do estado, vista por nós como prolongamento da ditadura militar instaurada no país desde 1964".
Mais uma vez o Bar e Churrascaria Bambu aparece como grande centro de encontro e reflexão do segmento artístico da cidade. "Como já disse noutras oportunidades, o Bambu era o núcleo de convergência e de divergências da geração 60, sobre a qual, me utilizando do rótulo do Rum Montilla, escrevi o seguinte poema: a carta-branca do montilla/ não era de alforria.// o papagaio era calado./ o cuba-libre nos prendia.// e em barris de carvalho/ o tempo envilecia".
Castro Pinto continua seu relato afirmando que não há saudades desse período, mesmo que o ano de 1968 marcasse também a concepção de seu livro "A Ilha na Ostra", só lançado em 1970 e que acabou se transformando na "marca registrada" do Grupo Sanhauá.
"Há quem tenha saudades dos anos 60, eu não, pois sempre fui um desaclimatado em todos os tempos e lugares. O certo, porém, é que em 'algum lugar do passado', mais exatamente em maio de 1968, eu estava concebendo, ainda no plano nebuloso das idéias, os poemas de A Ilha na Ostra, lançado em 1970, e que foi o canto de cisne do Grupo Sanhauá. A partir de então, o grupo se dissolveu e cada um dos seus integrantes cumpriu a sua trajetória, alguns abandonando a poesia, outros sendo abandonados por ela", conclui.
Ainda passeando pelas letras, na Paraíba, o escritor José Américo de Almeida seguia publicando suas obras, e exatamente em 68 lança O Ano do Nego. Enquanto isso, as experimentações poéticas continuavam provocando os amantes da literatura, como relembra o jornalista Marcos Tavares, que também reforça a importância da poesia marginal em João Pessoa, durante esse período.
“Existiam os concretistas, os Praxis, mas sempre se mantinha um movimento acima de rótulos com uma poesia de boa qualidade, como Cabral, Drumonnd, Ferreira Gullar apenas para falar nos poetas federais. Municipalmente começava-se a chamada poesia marginal, impressa em mimeógrafos, com capas feitas até de papel de embrulhar carne que aqui na Paraíba teve sua expressão maior no Grupo Sanhauá, mas que também teve belos exemplos em Minas. São Paulo e Rio”.
Tavares observa também que o cruzamento entre diferentes expressões artísticas tinha como principal influência uma geração de músicos que marcou a história da música brasileira. “A poesia invadiu a música ou vice-versa, pois era o tempo de Caetano, Gil, Chico Buarque, Vandré, Edu Lobo e outros poetas que faziam do disco seu livro e que alcançaram momentos de rara beleza. Vivia-se intensamente, com um medo produtivo, com a urgência de uma geração que havia sido rapinada nas suas melhores aspirações e com muita incerteza no futuro, pois a mão negra da ditadura não deixava vislumbrar nenhuma abertura”.
E mais uma vez, voltamos a Vandré, pois, como afirmamos no início dessa reportagem, é quase impossível falar da cultural brasileira em 1968, sem lembrarmos das flores, como assim fala Tavares.
“Paris pega fogo, em New York cânones eram rompidos, os russos iam ao espaço e aqui a gente fala de flores só para não ficar calado. Foi um tempo em que nascemos e morremos. Morremos em nossa inocência juvenil de mudar o mundo e nascemos em nossa esperança de que o mundo não nos mudasse totalmente”, conclui.  Em 68, o jornalista Petrônio Souto era apenas um jovem, que em meio ao caos da política nacional, vivia entre versos e tecnologias que começam a aparecer em João Pessoa. Também neste período o movimento estudantil era responsável por provocar a juventude, como escreve a seguir.
“Para certo rapaz de 19 anos, cabelos compridos, sempre de calça Lee, camiseta e sandália japonesa, meio fora de esquadro para os padrões burgueses da família, o contato com a "inteligência artificial", a influência da tecnologia na evolução da espécie e aqueles astronautas travando uma luta mortal contra o computador HAL-9000, me abriram os olhos para o que ainda viria pela frente”, observa e continua: “aquela erupção vulcânica planetária, aquele terremoto universal- teve uma única matriz - Os primeiros ensaios da telemática, espécie de dínamo da tecnologia da informação, no ambiente paranóico da Guerra Fria. Opinião de simples figurante de superprodução da Metro, aqui na pequenina e remota Paraíba: Nitroglicerina pura”.
68 passou e muita coisa mudou nestes 40 anos. As flores são de plástico, a mulher é contemporânea e o homem já começou a aceitar isso. Pelo Brasil a ditadura só existe nos livros de história e nos de Zuenir Ventura e de Frei Beto, nas músicas de Chico, Gil e Vandré e nos inúmeros filmes e séries e algo mais que não nos permite esquecer que naquela época, sob a pressão do braço forte de um regime político agressor e repressor, uma ideologia de vida parecia ser mais viva do que os vivos de hoje.



Escrito por Correio das Artes às 08h56
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Maio 1968 e as artes plásticas

Por Almandrade
 

A década de 1960 é marcada pela velocidade das vanguardas artísticas, que tem Nova Yorque como capital cultural do século XX. Dentre as manifestações  artísticas como Minimalismo,  Op Arte, Arte Cinética, Novo Realismo e Tropicália, a Pop Arte surgida na Inglaterra, mas apropriada e difundida pelos norte americanos foi a vanguarda mais decisiva da década. Sem programa preestabelecido, sem manifesto, utilizando-se do repertório do cotidiano do consumo e da cultura de massa, foi rapidamente transformada em tendência internacional. Isso mostrou o poder cultural dos americanos.
Maio de 1968 foi a explosão do espetáculo e o encerramento de uma década turbulenta, de muitas mudanças, da tomada de consciência dos desastres do século XX: a violência, a guerra, os campos de concentração, a bomba atômica. O progresso tecnológico sem levar em consideração os direitos humanos, enfim o desenvolvimento à serviço da destruição. O imperialismo e a ditadura da sociedade de consumo. Jean Luc Godard, em 1967 realiza A Chinesa, um filme político sem desprezar a experiência estética, onde um grupo de estudantes parisienses revoltados com o imperialismo brinca de fazer a revolução. Uma antecipação da organização dos estudantes, com muitas dúvidas e incertezas, em maio do ano seguinte.
O desafio aos policias e os protestos dos estudantes nas ruas de Paris foi um marco que desencadeou movimentos de contestação, em vários Países, revoltas e guerrilhas urbanas. Estudantes, artistas e intelectuais ocupam as ruas, fazem passeatas. A contra cultura, a revolução cultural. Os artistas plásticos abandonam os museus, as galerias, saem da solidão dos ateliês e se misturam na multidão. É a poética do gesto, da ação, da coletividade, a utopia da arte / vida como participação do espectador na realização da obra de arte. No Brasil a Tropicália de Hélio Oiticica, foi uma das manifestações mais polêmicas, ao lado de Terra em Transe filme experimental barroco de Glauber Rocha e a peça O Rei da Vela de Oswald de Andrade, dirigida por José Celso Martinez.
Na arte, é o momento da transição da vanguarda para a contemporaneidade. O atestado de óbito da Modernidade. Os procedimentos da arte passaram dos polêmicos questionamentos dos suportes tradicionais para o fim do suporte como elemento essencial da obra de arte. É o momento da arte conceitual que dominou na década seguinte. Uma arte mais fria, cerebral, menos engajada, voltada para interrogar sua própria natureza. Uma manifestação que aconteceu em vários Países, quase ao mesmo tempo, inclusive no Brasil.
É a década dos Happenings, surgidos com a Pop arte, uma espécie de teatro instantâneo, uma mistura de artes visuais, música e dança, que convida o espectador a participar da obra ou da ação, uma forma de tirar-lo da passividade fazendo-o reagir à provocação do artista e do cotidiano político social. Para Jean Jacques Lebel, autor de vários happenings em Paris: “Nosso primeiro objetivo é transformar em poesia a linguagem que a sociedade de exploração reduziu ao comércio e ao absurdo.” Artistas rebeldes, engajados, inconformados com a comercialização e exploração da arte e contra as outras formas de opressão da sociedade. No Brasil, os Happenings realizados em espaços públicos das trocas coletivas, foram uma forma utilizada pelos artistas de vanguarda para chamar a tenção da população do que estava acontecendo nas prisões. Manifestações muitas vezes interditadas pela polícia.
Os agitados anos de 1960 transformaram a imagem das cidades. Em 68, aparecem as primeiras manifestações de grafites nos muros de Paris, uma nova forma de intervenção urbana. Nas palavras do teórico francês Jean Baudrillard: “...um novo tipo de intervenção na cidade, não mais como lugar do poder econômico e político, mas sim como espaço / tempo do poder terrorista dos mídia, dos signos e da cultura dominante.” Grafítis anônimos paralelo aos happenings dos artistas. Uma geração de artistas e críticos toma consciência sobre o estado em que se encontra a civilização a sociedade e os regimes políticos e se colocam diante de uma abordagem mais crítica e de certa forma subversiva. O artista assume o papel de revolucionário e faz de sua arte um instrumento à disposição da revolução social. Fazer arte era fazer política. Ação e estética faziam parte das intenções do artista.
Verifica-se no cenário internacional das artes plásticas, já no começo da década de 1960 o abandono das linguagens abstratas, geométrica e gestual, e retorno da figura, ou melhor, uma apropriação da figura como fez a Pop Arte com as imagens divulgadas pelos mídia transformando-as em naturezas mortas da sociedade de consumo. No fenômeno da nova figuração o que interessa é o significado da imagem e não uma forma representativa. Uma imagem mais alusiva, grotesca e provocativa. A estética do mau gosto desafiando uma sociedade do bom gosto, industrial e politicamente “correta”.
A obra do artista plástico carioca Rubens Gerchman, representa bem esse momento na arte brasileira. Muitas das propostas artísticas da vanguarda brasileira que se desenvolveram entre 1964 e 68 estavam comprometidas em dar respostas ao golpe militar. A nova linguagem figurativa dialogava de forma mais direta com a realidade político social. Em paralelo a uma arte de denúncias, bastante difundida pelos militantes políticos, surgiram outras manifestações de arte coletiva abertas à participação do espectador como as propostas de Hélio Oiticica e os Domingos da Criação organizados por Frederíco Morais. Em 1968 no Salão de Brasília, o Porco Empalhado de Nelson Leirner, artista paulista integrante do Grupo Rex, não era apenas o questionamento da instituição arte, interrogava as outras instituições da sociedade, naquele contexto político.
A experiência francesa foi palco onde os ideais e as paixões acumuladas explodiram e deu início a uma revolução que mudou a história do século XX. A guerrilha se espalhou pela América Latina, reivindicações de todas as partes e de todos os tipos, liberdade sexual, racial. Nos EUA, os estudantes revoltados com a cruel possibilidade de morrer na guerra do Vietnã, protestaram. No Brasil estudantes em passeata enfrentam a repressão militar, em abril de 1968, a polícia mata o estudante secundarista Edson Luiz no Rio de Janeiro e em dezembro o golpe mortal do governo militar, o Ato Institucional Nº. 5. O auge da repressão. Ninguém mais se sentia seguro. A arte foi proibida na rua, exposições fechadas, como a Bienal Nacional em Salvador e artistas presos ou vivendo na clandestinidade ou no exílio. Fecharam-se as cortinas e o espetáculo passou a ser encenado na obscuridade.

Almandrade é artista plástico, poeta e arquiteto



Escrito por Correio das Artes às 08h55
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A PÁTRIA

Tanussi Cardoso

barriga e tensão.
exílio e porão.
diabo e prisão.
a Pátria:
silêncio. solidão.



Escrito por Correio das Artes às 08h54
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tempo 

Flávio Machado

os jornais recolhidos
                empilhados na calçada
                da João Ribeiro
 
meu avô em cochichos abreviados
o ar grave dos segredos
do meu canto
        a curiosidade dos sete anos

os homens fardados
recolhendo as pilhas abatidas 
páginas em branco
dias amarelos
    céus de chumbo

o que diziam?
o que queriam?

presidente morto
presidente imposto

        os dias sem aula
        os passeios pela estação abandonada
        os campos tomados
        a estrada destruída

as lembranças inventadas
impenetráveis previsões zodiacais
acima de tudo
apesar de todos
amanhã será muito melhor
      
            os dias de maracanã
            míticas partidas
            as praias limpas da Ilha do governador
            as férias em Campo Grande
            entre filósofos e peter pan

                                heróis apagados
                                gibis queimados
                                quadrinhos eróticos

os dias de neblina e chuva
o luto pela morte da bisavó
a herança das cartas de alforria
arroz colorido no hotel de Valença
a procura pelas brechas do tempo
por algo que não se perdeu
o tempo impostor de destinos

agora a mão vacila nas ondulações da estrada
não permitindo o poema em linha reta.



Escrito por Correio das Artes às 08h54
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MÃO-DE OBRA

Tanussi Cardoso

o poeta é preso
e sua poesia queimada
e seus dentes quebrados
e sua língua cortada
pelo bem do país.

(os outros poetas
bebem cerveja
e promovem debates
sobre os rumos da Poesia.)



Escrito por Correio das Artes às 08h53
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geração 60

Sérgio de Castro Pinto

a carta branca do montilla
não era de alforria.

o papagaio era calado.

o cuba-livre nos prendia.

e em barris de carvalho
o tempo envilecia.



Escrito por Correio das Artes às 08h52
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Dias de Peter Pan

Rodrigo de Souza Leão

Eu brincava de soldados de chumbo

enquanto outros soldados reais brincavam

com o povo. A gente jogava ovo e eles

cuspiam balas de suas metracas. A matraca

tinha que ficar calada. Não se podia dizer

nada. E invadiram o apartamento de Everaldo

dizendo que era um aparelho. O mundo não

era vermelho, mas nosso sangue era. Não me

lembro se era primavera. Não me lembro de

nada. Lembro que vovó berra. Que ninguém

ali vestia azul e sua sorte mudara. Meu pai

me contou que a coitada da Nara cantava

muito bem e tinha um sorriso preciso. Algum

primo meu teve que se esconder. O que era o

viver? Era um inferno elegante. As nuvens

viviam cinzas. As tropas por todo o lado

procurando culpados. Alguns torturados.

Outros vivendo com o medo. Todos podiam

ser o segredo. E alguns cagoetavam e um

sumia pra nunca mais. Outro dia não era

outro. Vivíamos a exceção. Vivíamos o

mesmo dia. Um dia que não termina na cuca.

Que vive até hoje na minha terra do nunca.



Escrito por Correio das Artes às 08h52
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O ano que continua...

Por Gustavo Dourado

Em maio de 68:
Eu estava na Bahia...
Morava em Irecê:
Iniciava em poesia...
Ouvia rádio à  noite:
E estudava de dia...
 
Era  ligado em Repente:
Gostava de cantoria...
Acompanhava no rádio:
Os ecos da rebeldia...
Ainda era menino:
De pouca coisa sabia...
 
Parentes estudavam fora:
São Paulo, Rio de Janeiro...
Ouvia-se muitas histórias:
Sobre o fim do mundo inteiro...
Besta-Fera...Anti-Cristo:
E um dragão aventureiro...
 
O nosso povo dizia:
Que o mundo ia acabar...
Mulheres de  mini-saia:
Começavam a se mostrar...
Homens cresciam o cabelo:
Ficavam sem barbear...
 
Foi um ano muito louco:
E o povo preocupado...
Ditadura...AI-5:
Tempo Militarizado...
Generais de 5 estrelas:
Comandavam o Estado...
 
 
1968:
Foi um marco na história...
Falava-se em Socialismo:
Mudança de trajetória...
Aquarius...Libertação:
A nova era de glória...
 
Aprendi a enxergar:
As vozes da ideologia...
Um movimento rebelde:
Mudou nosso dia-a-dia...
Tropicalismo em voga:
Festivais...Filosofia...
 
Ouvi Chico...Caetano:
Gil, Bethânia e Gal...
“Pra dizer que não falei das flores”:
Era  o grito geral....
Canto, cinema, poesia:
Com  um toque surreal...
 
Rádio de Havana...Moscou:
Os discursos de Fidel...
Botafogo-campeão:
A leitura do cordel...
Poesia à flor da pele:
Encantador  menestrel...
 
Falva-se de Jean-Paul Sartre:
De existencialismo...
Simone de Beauvoir:
Teoria e criticismo...
Glauber e Cinema Novo:
Anti  o Imperialismo...
 
Marx era  obrigatório:
Dialética, leninismo...
Começo da Ecologia:
Livros sobre trotskismo...
Movimento Estudantil:
Comuna e Anarquismo...
 
Foi um ano magistral:
De luta, arte, energia
Movimento planetário:
Leitura e rebeldia
É ano que continua:
Vivo em nossa fantasia...



Escrito por Correio das Artes às 08h51
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O que é que fica do ano que não acabou

Por Astier Basílio

Estamos há 40 anos de 1968. Em São Paulo, os dois maiores encenadores do país, José Celso Martinez Correa e Antunes Filho, mergulham no universo de Nelson Rodrigues. Um, Antunes, está em cartaz com a peça "Senhora dos Afogados", o outro, anuncia montagem desta mesma peça, para o próximo semestre.
Nelson Rodrigues é anterior à geração dos anos 1960. É um dos dramaturgos mais montados no país. Escrevendo sobre este período, sobre 1968, pergunto: o que é ficou do "Ano que Que Não Acabou"? Se o teatro tem a capacidade de refletir a época em que foi feito, mas, ao mesmo tempo, a obra de arte consegue transcender o período em que foi feito e com o qual dialoga.
Quem se salvou, quem foi além?
Hoje em dia assistimos à permanência de autores dos anos 1950, como Jorge Andrade, com peças como "Vereda da Salvação" (montada aqui na Paraíba), "Moratória" (montada em São Paulo), Dias Gomes, com "O Bem Amado" (montada no Rio) e "Pagador de Promessas", além de Ariano Suassuna, autor de obras primas como "Auto da Compadecida", "A Pena e A Lei" e "A Farsa da Boa Preguiça".
A geração dos anos 1960 não teve como ter um pleno desenvolvimento. Os seguidos golpes da censura impediram um desenvolvimento pleno. Dá-se esse desconto. Mas, nesse contexto conturbado tivemos bons autores que ainda hoje freqüentam o palco. Oduvaldo Viana Filho teve, ano passado, sua peça "Rasga Coração" montada por Dudu Sandroni, no Rio de Janeiro. O paraibano Paulo Pontes é um sucesso apenas com "Gota D'Água", escrita em parceria com Chico Buarque. Aguarda-se, para breve, montagem de Paulo Betti da divertida  "Um Edifício Chamado 200".
E por falar em 1968, Paulo Pontes tinha montado aqui na Paraíba, em uma de suas muitas voltas a João Pessoa, no ano anterior, a peça "Paraibeabá".
Augusto Boal, dramaturgo, encenador e teórico-fundador do Teatro do Oprimido tem suas idéias – mais do que suas peças – divulgadas em todo mundo. Quem ainda mantém um sabor de atualidade é Chico Buarque com seus musicais, "A Ópera do Malandro", por exemplo, que sempre é montada.
Se Nelson Rodrigues vem se consolidando como nosso grande poeta do teatro, merecendo constantes leituras, revisitações e até se constituindo um porto seguro para muita companhia Brasil a fora, por outro lado (quem faz a constatação é o diretor do Satyros, Rodolfo Garcia Vasquez, que montou "Vestido de Noiva" recentemente)  a nova dramaturgia brasileira é muito mais influenciada por outro dramaturgo, Plínio Marcos, esse sim, o grande nome da geração que sofreu com a censura e que cerrou fileiras contra a ditatura em 1968.
Tive a oportunidade de perguntar isso a Bárbara Heliodora, quando ela esteve por aqui no Fenart, por quê a influência de Plínio Marcos era maior que a de Nelson? Ela me respondeu: "o teatro é o retrato do tempo e infelizmente o tempo de hoje está muito mais próximo do universo criado por Plínio Marcos do que do mundo criado por Nelson Rodrigues".
Curiosamente, Nelson Rodrigues era execrado pela classe teatral, naquele tempo. Mesmo tido e havido como reacionário e unha e carne com os militares, Nelson também sofreu com a censura no período militar. Em 1967 vem a cartaz, depois de muita luta, "Álbum de Família" e, nesse mesmo tempo, seu romance "Casamento" havia sido recolhido das livrarias. Ruy Castro, na biografia de Nelson, "Anjo Pornográfico", conta que o único autor da época que se dizia fã da "Flor de Obsessão" era, ora veja, Plínio Marcos. E foi justamente esse jovem dramaturgo que em 1968 era laureado com o prêmio Jabuti de melhor livro teatral por "Navalha na Carne".
Em 1968, em João Pessoa, era fundado o grupo Bigorna, de Fernando Teixeira. E montado, justamente, com a montagem de "Navalha na Carne".
Porém, falar de um tempo, nunca é discorrer a partir de um recorte objetivo, apartando futuro e passado. Se, falando ainda do "Ano Que Não Acabou", apontando pro futuro tínhamos a célebre montagem do "Rei da Vela", peça de Oswald de Andrade, dirigida por Zé Celso Martinez Corrêa, com o Teatro Oficina, em 1967, nesse mesmo ano, é muito simbólico que o dramaturgo Joracy Camargo, autor do estrondoso sucesso à época "Deus Lhe Pague", estrelado por Procópio Ferreira, tomava posse na Academia Brasileira de Letras.
1968 fica como uma página escrita com os riscos vermelhos dos censores, manchando o palco como instrumento de luta e resistência.

Astier Basílio é poeta, jornalista e co-autor da peça "Ariano", montada pelo Cia Epigenia, do Rio de Janeiro.



Escrito por Correio das Artes às 08h49
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OS FRENÉTICOS DIAS DE DANÇA

Marcos Tavares

1
Era uma manhã fria e brumosa
- ou seria uma chuva torrencial?-
Quando o módulo Águia da Apolo
Partindo de Cabo Canaveral
Aterrissou na Lua.

Aterrissou?
Alunissou?
Mestre Aurélio seu dicionário furou.
Um novo vernáculo
Um surpreendente espetáculo de tecnologia.

2
Enquanto isso em Biafra
Muito crioulo comia bosta
Fazendo cara de quem gosta,
E descobrindo que a crosta lunar
Não é de queijo.

Enfim, uma base de sossego
Em meio a um mundo conturbado
Reacendendo a guerra fria
Dos botequins do dia-a dia

3
 Foi um tempo de bossas muito novas
Artes concretas
Cores quase abstratas.
Um tempo que duvida de quem cria,
De quem vê, e não sabia ser aquilo
Uma natureza morta
Um samba de uma nota só
Uma novela muito vaga que se inicia.

Ou um cinema novo que se cria.
4
Falava-se numa ditadura antiga
Ainda com medo das porradas.
As costas mal saradas
Encaravam nossa democracia
Com a alegria das crianças enjeitadas.

Getúlio era apenas uma memória
Sorridente
Num retrato emoldurado.
Nada mais me foi dito
Nem perguntado.
Essa lição de repressão
Eu mesmo aprenderia
Para não contar, também um dia
A meu filho.

Parece um estribilho
No longo poema da história:
Liberdade, palmatória,
Liberdade, palmatória

5
Em 26 de julho nasceu
Meu último irmão,
Mas o mundo voltava a atenção
Para uma pequena ilha do Caribe
Onde Fidel mostrou que Cuba Livre
Não se prepara só com coca e limão.
 A escola já não era tão risonha
E se assistia uma enfadonha aula
De história natural
Esquecendo que a história atual
Era quem determinava o biótipo.

6
Quatro rapazes de Liverpool
Quatro cavaleiros de
Um novo apocalipse
Importavam teorias e cabelos.
Navegamos n um submarino, amarelos
De medo e de vergonha.

Maconha era coisa de marginal
Garoto fino tomava café com Melhoral;
Hippie era um desasseado
Vivendo da caridade alheia
Cuja única solução era a cadeia.

7
Enfim veio a intenção de mudar.
Primeiro a capital para Brasília,
Depois separar Dirceu de Marília,
Mostrar as virilhas no Arpoador
E descobrir que o amor é a coisa mais triste
Quando se desfaz.

          
A história é recente demais para ser revista.
Por mais que insista na análise crítica
Uma velha foto do passado
Derruba toda teoria.
A chanchada era uma coisa legal!
A gente era feliz e não sabia.



Escrito por Correio das Artes às 08h49
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1968 – Efeito Colateral

Por Eliseu Mariotti

A década de 1960 é considerada por alguns filósofos e historiadores como a mais revolucionária da política internacional. Em vários continentes e em diversos países eclodiram movimentos reivindicatórios e libertários que questionavam o poder, a cultura e a economia. Nos Estados Unidos, os negros, sob a liderança de Martin Luther King, exigiam o fim da sociedade discricionária e reivindicavam direitos civis restritos à população branca. Martin Luther King foi assassinado em abril de 1968, mas sua mensagem conquistou corações e mentes e mudou a história e as relações de poder na América. Mas o Brasil andava na contra-mão. Era simplesmente ame-o ou deixe-o.
... e o tempo passou. Apenas parece que muita coisa não mudou, apenas a memória ficou embaçada .Naqueles tempos , ainda não muito distantes,do qual ainda se sente o cheiro no ar, época onde o povo não podia eleger seus governantes e em que nada era divulgado nem mesmo uma música, livro, se antes não passasse pelo crivo da censura e se recebesse o aprovado Não se tinha direito o direito de ir e vir livremente a voz de que protestava era silenciada...
Ainda é possível sentir que existe nos recantos dos palácios de governos, em assembléias legislativas e no senado, ou no judiciário, pessoas saudosas querendo relembrar aqueles tempos. Há algo podre no ar.
E o mal cheiro sem dúvida exala dos homens que serviram a esse regime cruel e que agora por não terem sido responsabilizado pelo desaparecimento e morte de centenas de pessoas, posam de bons cidadãos e até são eleito pelo povo que sequer conhece a historia desse período
Pois é as saudades não são minhas, que tinha quatro anos de idade em 68, nem a de quem sofreu os horrores daquele período , e conhece a história.
Qual revolução que nada.
Tudo historinhas contadas para boi dormir escritas ou mandadas escrever pelos mesmos senhores da repressão que estavam no poder e que sufocaram a verdadeira revolução que estava sendo gestadas pelos brasileiros verdadeiramente comprometidos com esse país..
Por isso já é possível perceber que eles nunca se foram. Sou filho da ditadura, nasci em setembro de 1964, 5 meses depois do golpe.
Em 1968, meu pai trabalhava no Jornal do Brasil, seu nome? Waldemar Mariotti, brasileiro, filho de italianos, origem simples, trabalhador e honesto como a maioria esmagadora dos brasileiros.
Naquele anos, da inocência dos meus quatros iria acontecer um evento em que só tive a noção exata de sua gravidade, quase 10 anos depois;
Seu Waldemar era um homem pacato como todo o mineiro do interior, de moral conservadora como todo o mineiro do interior, políticamente conservador como a mairoira dos mineiros do interior.
Mas ele foi preso. Preso? Como assim? Preso, preso mesmo, de ficar um semana enjaulado e quase nunca mais sair, pelo menos vivo.
O homem era um ingênuo, e comprou um carro, um chevrolet 62, daqueles pretos , lindões, que a gente vê em filme de mafioso da época. Um belo dia ele passa por uma blitz em São Paulo, feita pelo II Exército, é abordado e descobre que o documentos de seu carro eram totalmente falsos.
Eram tempos difíceis, não havia informatização, Detran naquela época só liberava informações sobre documentos muitos dias depois.
Foi Preso. Mas ainda ia ficar pior. No início ele foi levado para o Deic na Brigadeiro Tobias como um simples ladrão de veículo. Isso já era bem ruim, mas quando o homem chega algemado, puxado pelo cangote dentro do Deic, o policiais vão averiguar a placa do carro, e descobrem que esse carro tinha pertencido a um aparelho.
Pra quem não sabe, aparelho não era nada mecânico e nem eletrônico não, aparelho significava por definição um célula terrorista das esquerdas.
Aí, meu irmão, como diz o Chico, a coisa aqui tá Preta! Meu pai ,um pacato homem rural, conservador ao extremo em sua visão de mundo, era olhado por aqueles caras, verdadeirosa trogloditas, com se fosse o próprio coisa ruim.
Chiqueirinho com ele! A gente vai mostrar pra ele como se trata terrorista aqui! Seu Waldemar começou a ficar sem chão e percebeu que o caldo havia engrossado e começou a pedir pelo amor de Deus, avisem minha mulher, chamem um advogado, eu não sou bandido, sou um homem de família, honesto trabalhador.
Mas não adiantou. Pelo menos minha mãe, aquela santa, mandaram avisar. Logo que soube, despachou-se par o Deic, do jeito que estava, lenço na cabeça e tal, só não levou a vassoura que estava na mão, porque ao saber do ocorrido, levou um susto tão grande que largou tudo pelo chão.
Chegando lá, ela ficou sabendo que o marido dela, pai do seus filhos, além de ladrão de carro, ainda estava envolvido com esse comunistas cachorros! Mas seu moço, eu garanto, meu marido não é dessas coisas não.
Não teve jeito, seu Waldemar não ia sair dali tão cedo. Passou um dia, passou dois dias, era interrogatório e ainda apanhava dos presos que queriam o dinheiro dele. Seu Waldemar percebeu que seus algozes já não eram os mesmos que o prenderam.
Entre os investigadores do Deic, era seu doutor pra lá, seu doutor pra cá, tem lugar pra mim lá no Doi-Codi? E os homes mandaram liberar o pau-de arara. Pau-de Arara era um instrumento de tortura muito usado pelos orgãs de repressão em que um homem ficava todo curvado e preso entre as madeiras que pressionavam a medida que se apertava.
Terceiro dia, seis horas de pau-de arara e assim progressivamente. Você não vai falar não, animal? Quem são seu parceiros, onde é o local de reunião? Para o seu Waldemar essas perguntas não tinham respostas. Voltava para a Cela e cacete rolava em cima dele, agora pelos presos bandidos. Porque naquela época se misturava tudo que é preso. Aliás foi assim que nasceu o Comando Vermelho, mas isso já é outra história.
Minha mãe na angústia, já sem esperanças ainda tentava ver de que lado vinha a ajuda. O que me impressiona muito, em momentos difíceis é que as vezes a solução está a nossa frente e não há enxergamos. Foi o caso de minha amada progenitora.
De repente, ela lembrou. Um cunhado , meu tio Ivan, era Inspetor-chefe no Deic! Mama mia! Como esquecer uma coisa dessas numa hora dessas? Mas esqueceu, e por alguma inspiração divina lembrou-se e aí, meu irmão, aparece aquela famosa luz no fim do túnel, ou do calabouço em que meu pai estava jogado.
Mesmo assim meu tio demorou ainda dois dias para tira-lo de lá, quando saiu saiu machucado fiscamente e no seu orgulho de homem simples e honesto, depois de uma semana, ficou uma sombra na sua alma.
Nada tinha a ver com guerrilhas, políticas ou bandidagem. Mas sofreu os efeitos colaterais de se viver num época como a dos anos 60, particularmente, no de 68, ano do AI-5, ano em que as trevas definitivamente abriu seu manto sobre a nação brasileira.
Meu brasil brasileiro, terra de encantos mil. A nação do samba e futebol em que não acontecem guerras. Muitos esquecem a propósito de falar das milhares de crianças jovens que morreram no porões e calabouços da ditadura, de seres humnaos como meu pai, que num breve momento foi levado por uma alvalanche de acontecimentos e quase não escapa, muitos não escaparam.
O Brasil ainda tem essa lembrança e recebeu uma herança maldita. Que herança? Ora a dos assassinatos de jovens e crianças nas periferias, que aqui matam mais do que em qualquer guerra, as crianças prostituídas, das analfabetas ,dos sem lar ,dos que vivem dos lixões como ratos e com os ratos. Aqui a guerra é não declarada
O hoje ainda tem muito em comum com o passado. É bem verdade que os militares não estão no poder e que não se sabe de práticas de tortura, porém, pelos saudosos, tenta-se implantar o que foi tentado naquela época.
Por exemplo: presidente do Clube de Aeronáutica, tenente-brigadeiro da reserva Ivan Frota, ataca duramente o governo. O delírio golpista do Sr Ivan Frota, elogiando 64, dizendo que os votantes em Lula são acostumados a corrupção, portanto corruptos. Sinaliza todo o respeito que a ditadura militar teve pelo povo brasileiro.
Não sabe ele, ou não quer recordar, que muitas das mazelas, dos políticos corruptos e da falência do sistema, são frutos dos governos militares nascidos em 64. Agravadso com os Atos Institucionais de 68.
Escreve ele na nota: "Que a comemoração de mais um aniversário do vitorioso momento de 64 possa servir de alerta a aqueles que ainda têm esperança de implantar, no Brasil, um retrógrado regime bolchevista. Que não tentem isso novamente, porque o povo e as Forças Armadas, mais uma vez, irão às últimas conseqüências para evitar que tal aventura tenha sucesso".
Regime Bolchevista? Coisa velha, caquética e ultrapassada.
É melhor o esqueleto voltar para o seu lugar, que é o armário...
Para que nunca mais, em algum momento da história, em algum lugar deste país, pessoas simples e honestas como meu pai e sua família, não tenham de ser ultrajados e violados em sua dignidade de cidadãos brasileiros, os quais foram os que realmente contribuiram para o crescimento deste país,
Que Deus esteja conosco

Eliseu Mariotti é Publicitário, Comunicador e reservista da Força Aérea Brasileira



Escrito por Correio das Artes às 08h48
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Só ficou a pílula e Nelson Rodrigues

Em texto para a revista Época (que republicamos abaixo), o escritor Zuenir Ventura, autor de 1968 - O ano que não terminou”, faz um balanço do legado de um ano único. Confira

O que terminou
Transar sem camisinha – Os anos 60 haviam tornado o secular preservativo de borracha um inútil anacronismo. Graças às pílulas anticoncepcionais, aquela geração inaugurou o prazer sexual sem a ameaça da gravidez indesejada. Nos anos 80 a aids acabou com a farra, trazendo de volta o uso obrigatório da incômoda camisa-de-vênus. Em matéria de anticonceptivo masculino, a ciência ainda não descobriu nada que fosse mais eficaz que a popular camisinha. Segundo o psicanalista Contardo Calligaris, o sexo protegido destruiu a revolução sexual. “Para um adolescente de 20 anos, transar significa ter uma ereção, colocar a camisinha, não poder retirar antes e tirar com cuidado para evitar que o preservativo fique dentro. Para alguém que tem 50 anos, transar é transar um pouquinho, parar, recomeçar, recolocar, enfiar, se beijar, se chupar.”
Os filmes de Godard – Fora os freqüentadores de festivais e cineclubes, quem entraria hoje numa fila para assistir a um filme de Jean-Luc Godard? No entanto, ele foi um dos principais personagens do cinema em 68, pelo que criava nas telas e pelo que aprontava fora delas (parou o Festival de Cannes, dependurando-se na cortina do palco). O seu filme A Chinesa, lançado um ano antes, “foi, como maio de 68, uma revolução na linguagem”, escreveu a crítica Ivana Bentes, que acrescentou: “Um acontecimento-signo que indicava a potência do cinema como pensamento e intervenção, uma outra forma de fazer política”. Ele continua um cult para os cineastas, mas terminou como moda para o público em geral.
Marcuse era mais popular que Marx e Mao. Hoje quase ninguém sabe quem foi
As idéias de Mao, Marx e Marcuse – Se caísse num vestibular hoje, quase ninguém acertaria uma questão sobre o que pensavam os “3 Ms” que fizeram a cabeça dos jovens de 68 – mesmo sem tê-los lido. Dos três, o mais popular foi o professor universitário Herbert Marcuse, de 70 anos, que o New York Times chamou de “o mais importante filósofo vivo”. Dos três, atualmente, o menos procurado no Google é Marcuse, com 1,15 milhão de acessos. O campeão é Marx, com 33,2 milhões. Mao tem 6,2 milhões. Nenhum se compara a outro agitador, recordista com 179 milhões de citações, embora tenha morrido com apenas 33 anos: Jesus.

O que não terminou
Nélson Rodrigues – Resistiu tanto e tão consensualmente que corre o risco de sucumbir ao que decretou em 68: “Toda unanimidade é burra”. Amado e odiado, é agora só admirado. Continua sendo o frasista mais citado do país, até porque, como ele mesmo disse, “o brasileiro mata e morre por uma frase”. Felizmente, quem não terminou foi o Nélson Rodrigues subversivo em arte e não o reacionário em política.
Pílula anticoncepcional – Desenvolvida em 1957, licenciada em 1960, chegou aos campi das universidades em 68. Hoje pode ser comprada sem receita médica e é distribuída gratuitamente por muitos governos. A ela, mais do que às idéias, se deve a revolução sexual da época. No Congresso da UNE em Ibiúna, a polícia exibiu para a imprensa as pílulas apreendidas, a exemplo do que faz agora com os comprimidos de ecstasy recolhidos em festas raves. Apesar de condenadas pela Igreja Católica, que as considera um pecado, quando não um crime, são um dos medicamentos mais vendidos no mundo.



Escrito por Correio das Artes às 08h47
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NAQUELE MAIO DE 68

por Dôra Limeira

No ano do golpe militar, deixei a casa dos meus pais e fui morar com o maestro Pedro Santos que,desde então, se tornou meu companheiro até o dia em que a vida e a morte assim permitiram.

Em maio de 68, estava grávida da minha filha caçula, cinco meses de gravidez, a barriga já proeminente. Minha última gravidez. Ensinava História em Santa Rita, no colégio estadual. Depois de ver colegas de trabalho presos, outros demitidos pela ditadura, tentei resistir à repressão encenando com os meus alunos pequenas peças que falavam sobre liberdade. Por exemplo, escrevi um texto chamado O Auto da Inconfidência, onde por incrível que pareça, Felipe dos Santos, o precursor da Inconfidência, foi o personagem mais forte. Em torno dele, se passaram as cenas com maior carga dramática. O Romanceiro da Inconfidência de Cecília Meireles me serviu de inspiração para elaboração do texto. Tentei envolver o maior número possível de alunos nessa montagem. Lembro que o final do “espetáculo” foi um tanto quanto apoteótico. Todo o elenco e os figurantes em palco, com violão, cavaquinho, pandeiro, caixa, surdo. A um leve aceno que fiz com a mão, os alunos dispararam cantando Joaquim José / da Silva Xavier / morreu a 21 de abril / pela independência do Brasil / foi traído / e não traiu jamais / a Inconfidência de Minas Gerais. Depois, escrevi outros textos, montei outras encenações, sempre tentando envolver o maior número possível de alunos.

Eram tempos difíceis, de atropelos políticos, financeiros, existenciais. Meu companheiro Pedro Santos também era professor do Estado, dava aulas em Sapé, aulas de Música. Antes, em 1964, tinha perdido o emprego pró-labore no Lyceu Paraibano juntamente com outros professores considerados subversivos.

Em maio de 68, a televisão tentava anestesiar a população brasileira com slogans ufanistas, apelos hipócritas, enquanto nos porões da repressão espancava-se, coagia-se, matava-se.

Em maio de 68, eu era jovem, trinta anos, tinha bastante energia, trabalhava muito, não somente dando aulas. Além da carga horária em sala de aula, assumi um compromisso comigo mesma de atuar junto aos alunos para que eles percebessem que estavam sob o jugo de uma ditadura ilógica. Eles precisavam perceber que era preciso cultivar a liberdade dentro dos estreitos limites que nos impunham, sob pena de sucumbirmos ao peso da mediocridade, da opressão.

Em maio de 68, eu tinha quatro crianças pequenas e uma menina na barriga. Foram tempos de muitas privações materiais, dificuldades sem conta. Carregando meus sintomas de gravidez, meus tédios e meus antojos, eu enjoava, vomitava dentro do ônibus a caminho do colégio onde dava aulas. Tinha a pele do rosto manchada de “pano preto”. Dizia-se que aquilo era próprio da gravidez. Alias, desde 1964, que eu tinha pano preto a me afear o rosto. Foi no ano de 1964 que engravidei pela primeira vez. Desde então, não parei de engravidar, ano após ano, até o dia em que nasceu minha filha caçula.

Em maio de 68, não tínhamos carro, nem telefone nem casa própria. De despejo em despejo, nossas coisas foram parar na casa da vizinha da frente. Ela acolheu nossa geladeira, nosso fogão, nossas coisas enfim. Era outro despejo, era a CEF me dando dois ou três dias para que eu desocupasse o imóvel, em nome da pátria, da propriedade e da família. A troçalhada ficou na casa da vizinha e eu com as crianças e Pedro Santos nos alojamos na casa da minha mãe.

Enquanto fui obrigada, no colégio, a dar aulas de Educação Moral e Cívica e de Organização Social e Política do Brasil – OSPB, minha vida era desorganizada, tudo quanto era de prestação estava em atraso, sarampo e catapora atacavam os meninos. Até sarna tivemos. Eu madrugava para apanhar fichas de médicos para as crianças no IPEP. Em maio de 68, Pedro dava aulas também fora do Estado, a convite de universidades. Tentava assim equilibrar nosso orçamento.

Nunca fui presa, não fui torturada, não perdi meu emprego, visto que não pertencia a qualquer organização clandestina. E foi bom que tenha sido assim. Felizmente que me deixaram livre para circular e eu pude fazer, na surdina, um trabalho de conscientização junto a meus alunos, sem deixar rastro explicito.

Hoje, em 2008, temos um outro maio. Mês das flores e de Nossa Senhora, mês das noivas, mês de Nara minha filha caçula, mês de Dilma Roussef que soltou seu grito, seu desabafo histórico numa célebre sessão da Câmara Federal: “Eu me orgulho de ter mentido para os torturadores, porque sabia que assim estaria salvando vidas de companheiros. Eu não tenho e nem tinha compromisso com a ditadura. Por isso menti com muita honra”. Brava mulher.

Hoje, neste maio de 2008, vejo a meninada nas ruas de novo. Querem mais liberdade, querem fumar maconha, querem comprar seu baseado no boteco da esquina em vez de comprar ao traficante. Querem a irreverência contra a mediocridade. As mulheres querem ser as donas de seus próprios corpos, sem hipocrisia.

Quarenta anos se passaram desde aquele maio de 68. Meus cabelos estão brancos, as rugas se acentuaram, minha aparência perdeu a forma, mas a memória está acesa. Antes do meu último suspiro, com toda a minha lucidez, quero dizer que valeu a pena.

(Este texto é dedicado às minhas filhas Dea, Raquel, Ruth, Nara e à memória do meu filho Aruanda)



Escrito por Correio das Artes às 08h46
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O que você estava fazendo em maio de 1968?

O Correio das Artes enviou, via e-mail, uma enquête para escritores, leitores, jornalistas, artistas e intelectuais de todo o país com duas perguntas básicas: O que você estava fazendo em maio de 1968 e qual importância dos acontecimentos daquele ano para a sua formação política, cultural, ideológica e afins? Recebemos respostas de todos os recantos do Brasil (e até do exterior), com depoimentos sinceros, alguns emocionados e outros em forma de desabafo. Confira a seguir os depoimentos:


Clotilde Tavares
(escritora)
Às duas horas da manhã do dia 1º de maio de 1968 eu estava no Hospital Pedro I, em Campina Grande, dando à luz o meu primeiro filho, Rômulo Tavares. Tinha 20 anos de idade, era casada, e vivia completamente à margem do mundo lá fora, aprisionada num casamento que, por isso mesmo, durou pouco.
O curioso é que, nascido em dia tão emblemático, o meu filho, na maior parte do tempo, é um homem calmo, tranqüilo, um músico talentoso e um publicitário muito criativo. Mas quando se enfronha em alguma causa, vira um visionário, igualzinho a Cohn-Bendit.
O movimento me ensinou - mesmo algum tempo depois - as palavras de ordem famosas como "É proibido proibir" e "É preciso ser realista e desejar o impossível". Liberdade, autonomia, transformação, essa onda veio me pegando aos poucos, junto com o movimento hippie e com Woodstock, em 1969. Aí, eu já estava livre do casamento, e renascia para a liberdade que tenho e defendo até hoje.

Leila Míccolis
(escritora)
Eu estava no final do meu bacharelado de Direito, no Rio, Faculdade de Direito (ex-Nacional, que abrigava o famigerado CACO). Todos os dias as salas de aula eram invadidas pela DOPS, com confrontos de maior ou menor (?) gravidade com os policiais armados. O clima era de completo terror, inclusive com professores perseguidos, e tanques de guerra na frente da Universidade (atual UFRJ), apontados para o prédio.
O paralelismo contrastante me marcou violentamente: na França, a rebelião estudantil era aliada de outros setores sociais (inclusive o sindicato de ensino), e fazia parte de uma revolução que, embora cultural, era mais ampla (até mesmo pelo prazer), mostrando a insatisfação de quase todos os segmentos sociais com relação ao sistema político vigente. Aqui, a revolução - muito diferente - era militar, nada tinha de popular, e esmagou os principais intelectuais e estudantes do país, que ou foram mortos ou tiveram que exilar-se inclusive na França. Ou seja: enquanto na Europa os estudantes, como parte do povo, lutavam por perspectivas positivas, por melhorias, por ampliação de seus direitos constitucionais, aqui, em visão pessimista, mesmo antes de me formar em advocacia, já sentia em mim o grande vazio nacional, totalmente decepcionada com uma profissão esvaziada de sentido, que pouco ou nada valia diante das leis de exceções, da censura e das violações dos direitos humanos.

Tanussi Cardoso
(poeta)
Em maio de 1968, contava com 22 anos. Não chegava a ser um rapaz alienado, por que minha formação cultural (poesia, romances, música, gibis...) me trazia um pouco de informação básica. Naquele ano, ingressava, por concurso, no Tribunal de Justiça do meu Estado, começava a ganhar minhas primeiras granas, meus hormônios pululavam e meu negócio mesmo era...trepar. Com o primeiro ordenado, saí da casa dos meus pais no subúrbio carioca, e fui morar com um amigo em Botafogo, Zona Sul do Rio, numa quitinete mal-falada. Se não estava deslumbrado, estava feliz com minha liberdade conquistada. Nesse mesmo ano, passei no vestibular para Jornalismo na PUC/RJ, e comecei a publicar meus primeiros poemas em jornais alternativos e revistas marginais. Fazia shows de poesia e música, conhecia novos amigos e vivia a vida sem saber muito bem do que se passava ao meu redor.
Mas aos poucos as notícias da real situação do Brasil foram chegando, através dos amigos da Faculdade, principalmente. Vieram as passeatas, duas prisões sem conseqüências (nada que eu pudesse receber indenizações milionárias futuras e pensões vitalícias), notícias de amigos torturados nas cadeias, alguns que, soube depois, eram delatores, outros com seqüelas por torturas...
A conscientização veio na porrada.
Eu, que me via um homem dividido em dois, me tornava, no ano de 68, um homem uno, unido para sempre aos aspectos maiores que um ser humano possa ter: saía de uma liberdade voltada para o meu umbigo, para lutar por uma liberdade maior - a de todos os homens. Mesmo sem entender direito, objetivamente, o que se passava, sentia que um mundo melhor poderia se formar através das idéias de liberdade total, igualdade para todos e um trabalho vinculado à melhoria da Humanidade. Sem perder a ternura. Nem perder a poesia de se reconhecer no meio do mundo, na Voz de todos.

Ronaldo Correia de Brito
(escritor)
Em maio de 68 eu era um aolescente de 16 anos, que saíra do Crato para Fortaleza, no Ceará, com o objetivo único de prepar-me para o vestibular de medicina. Da janela do ônibus, no caminho para o cursinho, avistei muitas vezes as manifestações de estudantes em frente à Reitoria, protestos, enfrentamentos, prisões. Mas tudo passava ao largo dos meus sonhos de ser médico. Eu cantava "caminhando contra o vento", de Caetano Veloso, mas buscava o oposto da canção, um diploma.
No Recife, em 1969 e nos anos seguintes de faculdade de medicina, acontecem mudanças radicais na minha vida: o encontro com o Teatro Popular do Nordeste, com o cinema de arte, com as lutas estudantis e com a literatura que me chegava, apesar da repressão política da ditadura. Eram anos de inquietação e procura, de ideais e sonhos. Muitos sonhos em meio à sombra. 

Neide Medeiros Santos
(educadora)
Em 1968, eu estava me preparando para fazer o vestibular de Letras, na antiga FURNE, em Campina Grande.
Em 1969, entrei no Curso de Letras e comecei a ler Graciliano Ramos e Drummond: Vidas Secas, São Bernardo, Memórias do Cárcere e Rosa do Povo.
Com o Mestre Graça, aprendi que ninguém deve ser preso ou castigado por ideologia. As leituras dos poemas de Drummond me levaram a sentir que “era noite” e que só restava esperar pela “clara manhã”.

Paulo Sérgio Cerveira
(jornalista)
Em maio de 68 era um estudante de último ano de Economia na antiga Universidade do Brasil, hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro.
A Faculdade ficava no prédio da antiga Reitoria da Universidade, na Praia Vermelha quase em frente ao Iate Clube do Rio de Janeiro (quanta ironia), onde funcionava o teatro de arena da Universidade, palco de muitos comícios e reuniões marcantes.
Eu era coordenador do setor de Matemática, Estatística e Econometria do CEPE - Centro de Estudos e Pesquisas Econômicas do Centro Acadêmico presidido pelo Aarão Reis e depois Franklin Martins. O CEPE era chefiado por uma bela garota, a Vera. Lembra-se daquela moça que está numa cadeira de rodas na fotografia diante do avião antes da partida para Cuba? Trocados pelo embaixador americano?
Pois é, depois o viado do Gabeira, que não passava de um bicão escreve besteira em seu livro exibindo-se....
Vera era uma menina fantástica, bela e inteligente.
Minha turma tinha muito reacionário.....Mas tinha o camarada Tinoco. Tinha uns caidos do trem também, que só eram comunistas porque eram pobres e tinham raiva dos ricos...
Enquanto eu fazia um seminário na Câmara Americana de Comércio o comunista colega, ao meu lado, deixava de ser preso no Congresso de Ibiuna onde deveria estar.
Vida engraçada...
Franklin Martins se criou na Globo (quando os milicos apertavam Dr. Roberto Marinho, ele dizia: "Cuidem dos seus comunistas porque dos meus cuido eu...") e tornou-se Ministro do Lula... C'est la vie mon cheri ami...

Sérgio Lucena
(artista plástico)
Maio de sessenta e oito, marco da historia contemporânea, por essa época eu vivi aquilo que traria para mim todos os significados que hoje constituem a base da minha consciência. Experienciei algo que, para mim, permanece como parâmetro de conteúdo e valor. Subir a grande e solitária Pedra que existe na região onde outrora vivi períodos da minha infância.  Esta Pedra de aproximadamente 300 metros de altura eleva-se solitária em meio a uma vasta planície. Ela é uma constante presença num raio de pelo menos 30 kilometros de caatinga no sertão da Paraíba. Porque falar desta Pedra? Simplesmente por ela não me sair da cabeça nem do sentimento.
A Pedra exercia e exerce sobre mim um fascínio. Sua altiva inteireza, sólida, firme, serena, impassível, emana um poder e uma propriedade definitiva. Foi o meu avô quem me apresentou à Pedra. A pedra e o meu avô se equivaliam. 
Lá de cima, se contempla um horizonte de 360 graus, longínquo, a perder de vista... Lá eu era o centro do universo. O prazer que, estando lá, eu sentia, fez com que eu me aventurasse por muitas vezes a subir a pedra só. Vi a tarde cair, a chuva ao longe, o sol em brasa a causar miragens, e tinha o vento, tão forte, tão poderoso. De lá do cume era eu quem regia o universo.
Tudo isto já remonta à pelo menos quarenta anos, entretanto, neste exato momento, tudo o que disponho para apoiar os meus pés é a Pedra. Foi-se o meu avô, passaram-se os dias, os sonhos também, passaram as pessoas, as ideologias, coisas acabaram-se, mas não a pedra. Sim, foi uma época marcante aquela, me formou. Eu Sou a Pedra.

Moacyr Scliar
(escritor)
Em maio de 1968 eu, jovem médico lutando pela vida, estava terminando de reunir os contos para o livro que de fato daria o impulso inicial à minha trajetória literária, "O Carnaval dos Animais" (Ed.Movimento, Porto Alegre). São histórias fantasiosas, muito influenciadas pelo realismo mágico então em voga, e que, falando de animais ferozes e devoradores, na realidade aludia à ditadura presente não só no Brasil, mas em vários países da América Latina.
A rebeldia de maio dava alento à nossa própria rebeldia, ainda que naquele ano a ditadura acabasse mostrando sua força com o Ato Institucional. Mas, ao mesmo tempo, para quem era da esquerda "tradicional" ficava claro que aquela rebeldia tinha muito pouco a ver com a luta de classes no sentido marxista. Ou seja: 1968 foi um ano sofrido...

Flávio Machado
(poeta)
Em 1968 estava na escola Viriato Correa, e no dia da passeata do cem mil não houve aula, eu fiquei muito contente com essa história, era tempos de brincadeiras e cochichos dos meus pais e avós, lembro dos jornais censurados na banco de jornal em que meu avô trabalhava, lembro nitidamente das conversas sobre revistas sendo recolhidas pelo órgão de repressão, eu aprendi a ler naquela banca e de certa forma era um subversivo, sobre essa época escrevi o poema: tempo, que acaba de ficar em terceiro lugar no concurso de poesia promovido pela Universidade Federal de São João del Rey.

Bráulio Tavares
(escritor)
Em maio de 1968 eu estava vivendo maio de 1968 com força.  Ouvia sem parar o Sgt. Pepper’s dos Beatles, os primeiros LPs de Caetano Veloso e dos Mutantes, além de discos recém-lançados de Sidney Miller e Baden Powell.  O Cine Distração, nas manhãs de sábado do Capitólio, exibia para uma platéia lotada de gente filmes como O Processo de Orson Welles e Oito e Meio de Fellini.  Juntamente com Jakson e Marcos Agra, eu pegava o ônibus até Recife para ver Blow-Up de Antonioni ou Alphaville de Godard no Cinema de Arte Coliseu, em Casa Amarela.  As agitações políticas do movimento estudantil me fascinavam sem me entusiasmar, mas pelo menos me induziram a deixar de lado por alguns instantes Kafka e Aldous Huxley, e dedicar algumas horas por dia a ler os jornais, para saber por que diabo Paris estava em chamas.  Uma coisa interessante dessa época era que ninguém fazia livros, mostras, exibições ou festivais cujo tema fosse “1928” ou “1948”.  O país inteiro não estava, como hoje, relembrando datas ou tentando resgatar uma chama perdida no passado.  A melhor maneira de entender o que foi 1968 é viver 2008.  Com força. 



Escrito por Correio das Artes às 08h40
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Ronaldo Costa Fernandes
(escritor)
Em maio de 68, eu estava no segundo grau no colégio André Maurois, no Riio de Janeiro. Uma escola pública que aceitava a minissaia e os alunos podiam usar cabelo grande e fumar nos corredores. Pode parecer bobagem, mas na época era uma grande transformação. O momento era de forte agitação. Eu participava do movimento estudantil de forma mais "intelectual". Lia os primeiros livros sobre Marcuse, Reich, Bukarin e outros que não entendia muito mas me encantavam como Lacan. Minha cabeça era uma verdadeira mixórdia. Ao mesmo tempo, havia um divisão entre o tropicalismo, que seria um movimento anáquico-de-esquerda e Chico Buarque, que representava uma esquerda mais séria. Eram a ponta do iceberg, porque debaixo disso estava as discussões sobre uma esquerda mais libertária, a luta armada, e o conservadorismo de esquerda, o Partidão, Prestes e a não-violência. Eu tinha um processo no Dops porque eu publicara um jornalzinho estudantil que falava sobre Sousândrade, Jimi Hendrix e o movimento comunitário hippie. Como o jornal falava intencionalmente de comunidade, comunitário e comunismo, lá fui eu para a Praça XV, num edifício cinza que depois pertenceu ao Museu da Imagem e do Som e fui inquerido várias vezes para confessar onde fizera o jornal, a qual facção política de esquerda eu pertencia. Não me lembro com muita nostalgia daquele tempo.

Quelyno Souza
(poeta)
Na época estava com um ano e nove meses de idade, e morava no municipio de Guarabira; creio que de fato só tomei conta do ocorrido em 1984, quando estudava na escola estadual Prof. Úrsula Lianza.
O restaurante Calabouço, situado no Rio de Janeiro, era financiado em parte pelo governo, fornecia alimentação barata aos estudantes, o local era visto pelas autoridades como um foco de agitação.No dia 28 de março os estudantes haviam programado uma passeata. A policia militar não deixou a passeata sair, dai surgiu a manifestão, e o estudante paranaense Édson Luis, acabou sendo morto. Muitas passeatas, manifestações aconteceram em todo o Brasil.
Os fatos ocorridos em 1968 mexem com o pais até hoje, volta e meio se falam na ditadura. Gosto de ouvir os peseguidos e hoje amados Chico Buarque, Caetano Veloso, Geraldo Vandré; gosto dos traços de Jaguar, Ziraldo; da interpretação de Marilia Pêra, Marieta Severo, Gianfranceso Guarnieri e tantos outros.

Perilo Holanda de Lucena
(engenheiro civil)
Aos dezesseis anos, aquela época de 1968,  recebíamos noticias como informaçoes. Quaisquer fatos jornalísticos publicados eram vistos como reacionários ou subversivos. A comunidade intelectual do país taxava os reacionários como "burros" e os subversivos como "inteligentes". As colunas dos jornais transformavam versos tolos, quadrinhas de pouco valor em "palavras de ordem" que emocionavam a população. Nesse ambiente, permeando, alheios a idealismos políticos, movimentos culturais REAIS eram taxados de subversivos, pelos reacionários e  de inteligentes pela elite cultural do Brasil.
Naquele cenário, imaginem, a massa secundarista transformando badernistas em líderes políticos e o Regime Militar transformando líderes em "fichados", banidos, lesa-pátrias e mártires.
Era o maniqueísmo político na mais perversa essência. A Guerra Fria determinava que a Democracia não podia ser buscada, teria que ser oferecida pelo Regime, em doses homeopáticas, obedecendo aos ditames dos EEUA para republiquetas da América Latina.
Nós tínhamos medo de reclamar até de juiz de pelada de futebol, pois ele poderia denunciar que os peladeiros eram comunistas e estes terminariam enquadrados na lei de segurança nacional.

Vitória Lima
(poeta)
O ano de 1968 inaugurou muitas novas perspectivas para mim:
Logo em janeiro casei e mudei para João Pessoa, cidade que já contemplava lá do alto da Serra da Borborema com muito carinho.
Era uma noite de lua cheia e acho que por isso mesmo minha vida tenha sofrido tantas mudanças e fases...
Com a mudança para JP, veio também a tranferência para a FAFI, ali bem em frente ao Porteiro do Inferno.
Fiz novas amizades, algumas delas guardo até hoje, e conheci alguns dos luminares da cultura paraibana, como Vitginius da Gama e Melo e Juarez da Gama Batista.
Conheci também a poesia de Sérgio de Castro Pinto e de outros da Geração Sanhauá.
Também dei muita carreira, fugindo da polícia, que não dava mole para estudante naqueles anos.
Fui a muitas passeatas, comícios e manifestações estudantis.
E também dava aulas de inglês no Yázigi, que era na Lagoa, por trás do Cassino. Naquele longínquo tempo o restaurante universitário ficava onde hoje é o Cassino.
Aos sábados, ia dançar no Jantar Dançante do Cabo Branco.

Sonia Brusky 
(artista plástica)
Estava preparando a minha estréia em artes plásticas. Uma exposição individual que aconteceu em novembro de 68, com desenhos dramáticos , de mulheres torturadas numa alusão à ditadura. Antes disto, em maio do mesmo ano, participei de uma exposição coletiva, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, com três desenhos do mesmo teor. Participei de passeatas e todos os movimentos contra a ditadura do ano de 1968, e dos anos seguintes. Com dezessete anos, já era uma lutadora. Tudo está registrado em jornais da época.

Amador Ribeiro Neto
(poeta)
Em maio de 68 eu estava em Caconde, interior de S. Paulo, lendo o Pasquim. Apenas 3 exemplares chegavam à minha cidade. E era sempre comprado pelos mesmos 3 leitores: dois amigos e eu. Hoje vejo como o Pasquim foi importante para as escolhas culturais e políticas que eu viria a fazer. Na verdade, uma delas eu já fazia ao ler este semanário de humor, política e arte. Caconde era – e continua sendo – uma cidadezinha drummondiana com seus quase 20 mil habitantes. A igreja católica, que ocupa uma área de 75% do jardim principal da cidade, continua ditando as normas e os comportamentos dos cacondenses. Poder me rebelar contra isto aos 14 anos foi uma conquista que apenas quando me mudei pra S. Paulo, capital, pude dar conta de quão importante me fora. Na USP engajei-me com os grupos literários e com grupos políticos. Influenciado pelo Pasquim, nutria simpatia pelo Partido Comunista – embora me recusasse a participar de suas reuniões. E influenciado pelo Pasquim eu não somente nutria simpatia pela Anarquia como participava regularmente de suas reuniões regadas a política, artes, sexo e algum fuminho.
Em maio de 68 eu estava em Caconde. Aliás, somente em maio eu estava em Caconde. Quando a ditadura apertou seu cerco e começou a caçar meu pai – então vereador e presidente do sindicato dos trabalhadores rurais e simpatizante do Partido Comunista – ,  e quando ele foi cassado da vereança, tivemos de mudar de Caconde. Foi aí que meu pai me perguntou o que eu fizera com os livros de esquerda que eu tinha. E principalmente com aquele compacto do Vandré. Disse-lhe que eu os tinha escondido num buraco da parede do porão da casa de meu avô e xará, atrás de sacas de café em coco vindos do nosso sítio. Meu pai temeu pela segurança de meu avô, mas ponderou que nada mais podia ser feito. E nos  mudamos de cidade. Na nova cidade eu conversava na praça pública com amigos, por volta das onze da noite, quando um caminhão que tinha a carroceria coberta por uma lona parou em frente à casa de um professor meu. Os soldados bateram, entraram e levaram meu professor de pijama e algemado. Meus amigos e eu tivemos, naquele momento, a dimensão exata das barbáries impostas pela ditadura militar.
No colégio as aulas de filosofia e sociologia enfocavam as liberdades individuais e sociais. Pouco podíamos fazer, naquele momento, contra a ditadura. Mas a vivência daqueles dias de maio e do ano de 68 viriam formar aquilo que meus amigos e eu somos hoje: defensores renitentes das diferenças e das multiplicidades, tanto das minorias como das maiorias. Meus dois amigos – Mário Sérgio e Tadeu – somos, hoje, muito do que aprendemos com o Pasquim. E com uma professora, esposa de um juiz de direito em trânsito pela cidade. Foi ela quem nos alertou para a necessidade de sairmos de Caconde o quanto antes. E viver uma vida diferente da daqui. Porque daqui a 10 ou 20 anos, ela nos dizia, vocês voltarão para cá e constatarão que os problemas das pessoas de Caconde são os mesmos, não importa quanto tempo tenha se passado.
Hoje Caconde é um poema do “Barrocidade” e de “Imagens e poemas”. Tenho pela cidade um carinho grande porque, se ela quis me ensinar a ser moralista, conservador, escoteiro, ela também me deu uma leitura criteriosa, calma e sempre discutida do Pasquim. Em Caconde o tempo não passa – e isto possibilitou a mim e aos meus 2 amigos, uma cumplicidade que nem o tempo nem a distância geográfica nos tirou.

Cunha de Leiradella
(escritor)
Na época, dirigia um grupo de teatro no Rio de Janeiro: o Teatro de Equipe do Estado da Guanabara.
Eu tinha chegado ao Brasil em 1958, com 24 anos, e o Tudo é possível! que ecoou nas ruas de Paris, deu-me mais do que razão para continuar acreditando que valia a pena lutar pelo único bem que faz do ser humano um ser universal: a liberdade.

Rinaldo de Fernandes
(escritor)
Em maio de 68 estava brincando na praça Gonçalves Dias, em São Luís, admirado com os vitrais verde-azuis da Igreja dos Remédios e com o pôr do sol sobre a baía do Bacanga.
As datas, do ponto de vista histórico, são símbolos de mudanças que já vêm se tecendo no tempo. Eu tive intensa participação política como estudante nos anos 80, integrante da esquerda. O nosso imaginário, naquela época, era em boa parte calcado nas transformações ocorridas no Maio de 68. A nossa rebeldia contra a ditadura, que já ia sem fôlego, vinha em boa medida desses movimentos da juventude dos anos 60. Não sou saudosista dos anos 60 porque não os vivi. Aliás, as pessoas que viveram os anos 60 hoje são, não raro, politicamente muito conservadoras, infelizmente. Escondem-se por trás dessa confusão atual do que seja esquerda e direita. Mesmo que neste momento não consigamos decifrar o que seja um indivíduo de direita ou de esquerda, dá ainda para saber quem é conservador (quem defende o status quo) e quem é progressista nas idéias. Estamos numa certa onda conservadora, numa certa retração: na arte, na imprensa (o jornalismo talvez seja, em certos segmentos, a principal expressão do conservadorismo atual), na política, na educação, na família, que está ainda mais religiosa e aproveitada por religiosos. Estamos precisando de outro Maio de 68.



Escrito por Correio das Artes às 08h39
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Rosângela Vieira Rocha
(jornalista-escritora)
No dia primeiro de janeiro de 1968 eu cheguei a Brasília, para morar com minha irmã mais velha, que tinha acabado de se mudar. Em Inhapim, minha cidade natal, no interior de Minas, não havia segundo grau. De família pobre, para estudar eu tive de sair da casa de meus pais e não podia perder a oportunidade que minha irmã e meu cunhado me propiciaram. Logo fiz o exame de seleção (considerado, na época, um vestibular), para o CIEM - Centro Integrado do Ensino Médio, um colégio maravilhoso que existia na época, experiência pioneira da Universidade de Brasília, UnB. Lá estudaram várias pessoas que posteriormente se tornaram figuras públicas. O nível era excelente e a vivência nesse colégio modificou completamente a minha vida. Tínhamos aulas em horário integral, ouvíamos música medieval e renascentista, estudávamos Filosofia, enfim, foi um lugar onde aprendi a pensar e onde desenvolvi o meu gosto pela literatura. Líamos Cecília Meireles, Fernando Pessoa, José Lins do Rego, Graciliano Ramos, entre outros. Mas não decorávamos nada, líamos para aprender a gostar de ler. O CIEM visava a formar o homem comum, o verdadeiro cidadão e, para isso, tivemos grandes mestres, que eram professores da UnB. Mais do que fazer com que o aluno conhecesse novos conteúdos, o objetivo do colégio era prepará-lo para interferir na realidade que o cercava. Lá discutíamos filmes, o que era um deslumbramento para uma jovem criada numa cidadezinha perdida do interior de Minas. Até hoje me lembro que, após assistirmos a "2001, uma odisséia no espaço", todas as aulas foram suspensas para debatermos o filme. Essa discussão foi tão vigorosa que poderia citar, com detalhes, o que foi dito na ocasião. Do CIEM acompanhei o movimento hippie, aprendi a gostar de Maria Bethania, soube da aldeia de Arcozelo, onde foi apresentada a peça "O Rei da Vela". Foi um ano absolutamente significativo para a minha compreensão do mundo. Especialmente porque tinha colegas e professores com os quais podia discutir meus espantos, minhas descobertas e minhas dúvidas. Infelizmente, como não podia deixar de ser, o colégio teve vida breve. Quando a UnB foi invadida pelas forças da repressão, o CIEM acabou extinto. Já não interessava ao Poder Público um colégio que pretendia formar o cidadão comum. Mas tenho certeza de que, dentro de mim e de outras pessoas, o CIEM continua vivo.

W. J. Solha
(escritor)
Em maio de 68 eu estava participando, em Pombal - onde era subgerente da agência do Banco do Brasil -  dos ensaios de minha peça "O Vermelho e o Branco", feita em cima da morte do estudante Édson Luís, ocorrida em 28 de março, no Rio, assassinato que gerou o movimento que acabou recebendo violenta reação da ditadura com o famoso AI-5, por conta do qual esse meu texto foi proibido pela censura, "por ferir a dignidade da Pátria e ser capaz de sublevar os ânimos da juventude". Ainda me lembro do esporro do Altimar Pimentel, depois da parrticipação do espetáculo - dirigido por Ariosvaldo Coqueijo (que contracenava comigo) - no festival nacional ocorrido no Santa Roza: "Como é que você me traz um panfleto desse para o meu teatro?" 
 Dois colegas do BB foram removidos para Pombal "de castigo", pela "gloriosa". Vi amigos enterrando livros ou escondendo armas sob as telhas.Vi muito medo. Foi uma luta para impor minha barba dentro do Banco - "pois parece coisa de cubanos". A peça me gerou muitos problemas também fora da agência:  eu tinha um caminhão-caçamba trabalhando no asfaltamento da BR e vi um capitão expulsá-lo no que me dizia "Não quero comunista por aqui!" No mais, acho que nunca fui considerado lá muito perigoso pelo regime. Fundamos em 69 - eu e o José Bezerra Filho - lá mesmo, em Pombal, a empresa que produziria o filme O Salário da Morte sem o menor problema. Em 75, a mão da ditadura pesou no Prêmio Fernando Chinaglia, que iria dar o primeiro lugar ao meu livro "A Canga" e o passou para "Israel Rêmora", "por cautela". Em 80, a "Cantata pra Alagamar", que escrevi para música de Kaplan, foi exibido na capela terceira da ordem de São Francisco como parte da liturgia da Igreja, estratagema de Dom José Maria Pires para livrá-la da censura federal. Foram anos tristes. Maio de 68 ganhou loas só em Paris. Vi pela TV, com vergonha, vinte anos depois, operários poloneses derrubando uma estátua de Lênin em Gdansk, ansiosos para voltar a ter direito de venerar a virgem de Czestochowa. De repente, A Revolução dos Bichos, de George Orwel, revelou-se verdadeira, deixando-nos a todos - os da esquerda - com cara de tolos. Foram anos de inocente idealismo e de deprimente derrota, é verdade, mas que mostraram como é diferente uma juventude motivada por grandes objetivos.

Pedro Salgueiro
(escritor)
Em maio de 1968, eu, que havia nascido em 15 de novembro de 1964, não era nada mais que uma criança super feliz. Diz minha mãe que eu já brincava com minha coleção de figurinhas com personalidades muito divulgadas na época, como o Marechal Rondon, Presidente Castelo Branco, Duque de Caxias e outros mais cotados; também adorava participar, nos braços de minha mãe, claro, dos desfiles da escola e, principalmente, da festa de 7 de setembro, sempre fazendo questão de balançar minha bandeirinha verde, amarela, azul e branca. Diz ela que eu também adorava as músicas "Eu te amo, meu Brasil" e "Este é um país que vai pra frente", fato que posso confirmar, pois ainda hoje me causam comoção."

José Alves
(jornalista)
Em maio de 68 eua tinha apenas 10 aninhos, era um garotinho magrinho, ainda não sabia o que era sexo, mas já tinha grandes desejos pelas musas do cinema da época como Brigite Bardot, Merilin Monroe e outras grandes musas que faziam a cabeça de todos os homens do mundo. Apesar de pequenininho e magrinho eu também já era peladeiro, tinha uma cuequinha do Flamengo e sabia que o time era de garra, e também já tinha uma certa consciência política. Fiquei revoltado com o assassinato do presidente John Keneddy, que não era um presidente racista  e também tinha ódio da merda da guerra do Vietnâ que foi  deflagrada a mando de algum presidente malucoe que eu não lembro qual foi. Apesar de pequenino e não ter vivenciado a época um ouvia as conversas de meus irmãos sobre a onda de contestações e revoltas dos trabalhadores sobre os regimes dominantes por toda a Europa. Sei também que no Brasil foi o período do aparecimento dos caras que sabiam fazer música de qualidade, bem diferente das de hoje que só falam em Créu....Eu tinha apenas dez aninhos, mas não era bobinho. Na época eu vivia lendo histórias em quadrinhos e gostava muito de gibis do Pato Donald e Irmãos Metralhas.

Carlos Gildemar Pontes
(escritor)
Estava nos braços de minha mãe, indo para casa a pé, depois que os estudantes do Liceu do Ceará quebraram e incendiaram todos os ônibus da Praça José de Alencar.
Passei a gostar mais da minha mãe, por causa do braço. E aprendi a respeitar a educação como um instrumento de transformaçà £o. Afinal, eram os estudantes que queriam um país melhor que lutavam contra a polícia e as ameaças internacionais que comandavam nosso soldadinhos governantes. Eram os estudantes que sacrificavam a juventude entre porões e covas rasas para que pudéssemos desfrutar de uma democracia depois de 40 anos. Só lamento hoje os estudantes serem tão sem horizonte, só se reúnem para ouvir o escarro da cultura de massa nas letras de forrós e funks para imbecis. E de não conhecerem um palmo de história diante do olho vesgo da desinformação. Aprendi a valorizar mais os companheiros de luta (tão escassos) e a abominar esses mauricinhos e esses empavonados que desfilam nas academias e nas universidades sem o menor contato com o sentido de humanismo e solidariedade.

Geraldo Lima
(escritor)
Em maio de 68 eu tinha oito anos de idade e estava mergulhado no bucolismo da fazenda; fiz, nesse período,uma viagem roseana com o meu pai, levando algumas reses para a fazenda que ele havia comprado no interior de Goiás;  após ir morar na cidade, continuei alienado, mergulhado na cultura de massa, lendo gibis,ouvindo rock e sendo levado, também, pelos hinos da ditadura militar, de sorte que não tinha a mínima idéia do que havia acontecido na França e  muito menos ainda do que estava acontecido no Brasil. Só tempos depois, ao começar a escrever, a fazer teatro e a ter contato com pessoas mais engajadas, é que fui tomar consciência desses fatos. Assim, creio que pouco tenho a falar desse acontecimento histórico e não saberia precisar bem a sua influência direta em minha formação intelectual.



Escrito por Correio das Artes às 08h38
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Homero Fonseca
(escritor)
Aos 16 anos, em 1964, eu tinha começado a participar do movimento estudantil secundarista em Caruaru justamente quando veio o golpe militar. Sem orientação alguma e temerosos do momento, fizemos uma assembléia geral e decidimos auto-extinguir a nossa entidade, a Uesc – União dos Estudantes Secundários de Caruaru. Após isso, recebi convite para trabalhar como redator dos jornais falados da Rádio Cultura do Nordeste, onde, alguns meses depois, passei a assinar diariamente a Crônica da Cidade. Na época, havia um mínimo de liberdade de imprensa e, no meu entusiasmo juvenil, sempre que podia criticava a situação política nacional. Em janeiro de 1965, dois capitães foram até a emissora, convocar-me para depor. Fugi para Fortaleza, para onde estava indo meu amigo Gianninni Mastroianni, cujo irmão, Giacomo, estava radicado na capital cearense como publicitário. Fui morar na pensão de dona Galdina e arrumei um emprego no jornal O Nordeste, da Arquidiocese local. Ali, com Fausto Neto e Roberto Benevides, meti-me numa polêmica pública com a TFP – Tradição, Família e Propriedade, a propósito de um show de bossa-nova promovido pelo DCE da UFCE, que a entidade de direita tachara de “comuno-janguista”. Foi quando conheci o hoje sociólogo e professor José Arlindo Soares e o então secundarista Cláudio Alencar, que, anos mais tarde, seqüestraria um avião para Cuba. Passamos a militar na IV Internacional-POR(T) – Partido Operário Revolucionário (Trotskista). Larguei o emprego e os estudos e virei um militante em tempo integral. Em 1966, peguei uma pneumonia e voltei para Caruaru, onde a repressão, pelo visto, não se lembrava mais de mim. A esta altura, estava meio esquizofrênico com aquela militância integral, afastado da vida normal e desencantado com as dissensões e com um certo fanatismo percebido entre os camaradas. Comuniquei meu desligamento do partido a Sérgio Buarque e vim para o Recife retomar os estudos. Fui convocado para o servir o Exército como recruta, em Garanhuns, em 1967 e, no ano seguinte, estava de volta ao Recife, me preparando para o vestibular de Jornalismo. Não tinha mais filiação partidária e mergulhei na contracultura, ouvindo os Beatles e Jimi Hendrix sob os eflúvios vaporosos da canabis sativa. Em 1968, participei das pequenas e grandes passeatas de protesto e levei algumas carreiras da Polícia. Tinha 20 anos.
Me estendi um pouco na resposta anterior para concluir que os acontecimentos (precedentes e procedentes e não apenas o ano de 68) tiveram grande importância na minha formação pessoal, política, cultural e ideológica. Quase todos os que participaram trazem em sua memória afetiva aqueles tempos e tendem a romantizá-lo. Mas não há dúvida de que foram momentos importantes para a juventude em sua busca de inserção no mundo. O mês de maio e o ano de 1968 ficaram como uma data simbólica, como o 14 de Julho de 1789 ficou para a Revolução Francesa. Mas é preciso lembrar que a onda reacionária que causou trouxe várias derrotas, como o AI-5 no Brasil e a vitória da direita na França. Mas a História é assim, não caminha em linha reta e segue, pra cima e pra baixo, levando para frente e para trás. O importante é que a época pedia que caminhássemos por essas veredas sinuosas. E nós caminhamos e cantamos.

Maria Célia De Santi
(pedagoga)
Estava terminando o Magistério, cheia de sonhos e propostas e intenções para mudar a Educação, fazê-la plena e acolhedora e era uma garota protegida por uma família despótica, que até achava interessante estarmos vivendo o que vivíamos....
Eu não expressava a minha revolta, até porque antes da Rota me pegar , tinha meus pais, muito próximos que me pegavam...e fui vivendo este ano, assistindo o que passava pelo mundo e secretamente invejando, ouvindo Beatles, Elis Regina, Vandré.....Era uma miscelânea tão grande....Apaixonada por um árabe, estudiosa de sua cultura, entristecida pelos preconceitos....fugindo dos policiais, e tentando entender por que o Ênio, o lindo rapaz que acalentava nosso coração com sua beleza e educação havia simplesmente desaparecido..... Amordaçada por dentro e por fora. E eu era uma brasileira muito normal...... Caladíssima!!!
Anos depois, meu querido mestre Paulo Freire, como foi bom conviver com ele por um semestre em aulas e depois em convívio social....ele amenizava nossa culpa, imagina, por não termos feito nada tão glorioso, pois muitos de nós permanecemos amordaçados, e dizia que ele pensava muito em todos os brasileiros quando esteve exilado, pois apesar de tudo ele estava lá com sua família, vivendo, trabalhando, levando sua palavra contundente e amorosa para muitos , e nós aqui: os verdadeiros exilados!!! Foi triste ouvir  o que havíamos sentido.
 Mas, depois do Magistério, longo percalço para chegar até a universidade, mas escolhi  a dedo: PUCSP, a que teve uma maravilhosa reitora, Nadir Kfouri, que enfrentou Erasmo Dias, o louco, com o dedo em riste, e uma proposta maravilhosa, gerada em 1968...convivi com todos os que a conceberam..um prazer desmedido.
E foi lá que tirei minha mordaça e vivi os 27 anos de magistério universitário, retirando mordaças...sem armas, apenas com amorosidade, como meus mestres sempre recomendaram e, o mais importante, fizeram....
Pensei se escreveria ou não, sinto hoje, depois de tantos anos como foi doloroso e sombrio, verdadeiro Mordor e tivemos tantos Saurons....e tivemos muitos Aragorns, elfos e hobbits...e Gandalfos....deixo meu tributo a Tolkein, entre outros, à distância , ele ajudou muito  que cada um de nós desfizessemos de nossos anéis de quimero poder.

João de Lima
(documentarista)
Na alegria de uma infância saudável estava tomando banho em alguma lagoaou riacho, ou assistindo aula na base aérea de Natal, quando frequentei uma escola para filhos de militares. Tinha 10 anos.
No centro de Parnamirim, no telhado de uma casa situada na praça principal da cidade podia ver os efeitos de exercícios militares na base, com o sinal de fogo cortando os ceús em direção a algum alvo na base da aeronáutica.
Esse imaginário, combinava com o Brasil que chegava via televisão, os seriados `à tarde e os festivais de música à noite. Na tv , os tropicalistas no nascedouro, a mpb. O  carrosel brasileiro dos parques de diversão e sua roufenha jovem  guarda.
Anos depois, circulando nas ruas do Quartier Latin, em Paris, maio de 68 foi decisivo para entender que a cidade não é só monumento, mas essencialmente memória da história: Os filmes de Godard, a irreverência juvenil da quebra dos tabus, as normas  de conduta civil questionadas, na vida e na arte.
Entre uma esquina e outra, um café com cadeiras nas calçadas.

Pedro Américo de Farias
(poeta)
Tinha acabado de chegar ao Recife, vindo do Sertão. Portador de todos os medos aos perigos do mundo, agregava mais uma enorme quantidade de medos aos cassetetes, fuzis, cachorros e serviçais da ditadura. Medos que jamais consegui exorcizar, mesmo porque ainda estão vivos e bulindo, atuando na política e adjacências, todos os que se beneficiaram da situação. Maio de 68 era "apenas um retrato na parede" utópica da mente jovem.

Marcelo Sahea
(poeta)
Em maio de 68 eu era um carona e estava flanando no Hagoromo de Ceres, em busca
de palpabilidade. Palpabilidade essa que só vim a encontrar em 1971, quando, pelo partoporta, nasci.

Ricardo Lísias
(escritor)
Vendo assim, de longe, maio de 68 parece que deu uns bons filmes e hoje em dia muito ressentimento de quem participou! Outra coisa que eu noto é que parte da "geração de 68" tem ódio das gerações mais novas...

Jussara Salazar
(escritora)
Em maio do ano de 1968 eu morava em Recife e fazia o curso primário no Colégio Vera Cruz. No colégio, àquela época, tínhamos aulas de "moral e cívica", dadas por um padre, que um dia perguntado por nós sobre o que era comunismo, respondeu numa longa sessão de rodeios: "comunismo é quando você só tem um sapato, sua família recebe só um kilo de feijão, um kilo de arroz, um kilo de não sei o quê...etc.
Fiquei surpresa, pois em minha cabeça de criança não conseguia fazer sentido que um mundo a partir de apenas "uma" coisa pudesse criar tanta polêmica. Recordo que isso ressoou em minha memória por muitos anos, até que, em minha casa, com meus pais que escutavam os discos de Caetano, Chico e tal..comecei a construir uma realidade de fato sobre o Brasil, a perceber que existia uma coisa subterrânea que era muito maior. Lia na revista Realidade sobre os hippies e uma coisa chamada contracultura e novos comportamentos, tinha os ouvidos abertos para tudo que se passava com muita curiosidade, quase intuindo, mais que avaliando de fato.



Escrito por Correio das Artes às 08h37
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1968: se eu tivesse vivido

Por Rodrigo Capella


Sempre tive vontade de ter vivido e sentido toda a mágia de 1968. Mulheres de minissaia, sexo livre e psicodelismo. Não preciso de mais nada! Esse, aliás, pode ser descrito como o cenário perfeito para qualquer obra literária, de qualquer característica. Já imaginei, inúmeras vezes, um detetive, criado por mim, descobrindo o assassino de Martin Luther King ou ainda a líder do movimento feminista sendo assassinada e o meu detetive entrando em ação.
Adoro romance policial e já escrevi dois. Se me perguntassem, qual livro eu gostaria de escrever, eu rapidamente diria: qualquer obra que tenha como cenário o ano de 1968. Livro para mim tem que ter morte, detetive, pistas, muita ação e, principalmente, um bom cenário.
Já imaginei também um homossexual sendo morto em plena passeata ou o líder dos estudantes de Paris baleado em pleno discurso, assistido por milhares de pessoas. Sinceramente, já imaginei de tudo! Meus pensamentos sempre são amplos; até porque pesquisa nunca me faltou e eu semprei gostei de histórica rica. Acho que é por isso que 1968 me fascina tanto.
A Primavera de Praga, a radicalização da luta estudantil e a tropicália. Ah! Quanta coisa! Quanta coragem. Além de história rica, quem viveu em 1968 teve sempre muita atitude e vontade de mudar. A essência de um bom livro está aí. Uma obra precisa sempe ter um carácter transformador e social. A narrativa precisa ser densa, envolvente e cheia de fatos. Precisa contribuir para o amadurecimento do leitor.
Sonho, diariamente, com os protestos contra a Guerra do Vietnã e com o cinema marginal brasileiro. Se tivesse vivido nessa época, certamente teria mais elementos e meus livros seriam mais ricos e fortes. Resta-me, portanto, contiuar o ritual diário e debruçar-me em obras literárias e ler depoimentos de terceiros. Conversar com quem era adolescente em 1968 também vale a pena, embora os registros sejam mais confiáveis do que a fala.
É, lembrar de 1968, sem ter vivido nessa época, foi, aparentemente, muito bom. Mas, melhor ainda seria estar lá. Sei que máquina do tempo não existe, mas minha determinação de escrever algo ambientado em 1968 é cada vez mais forte. Como, na minha opinião, o escritor só pode escrever sobre aquilo que viveu, resta-me congelar no tempo e torcer para que 2008 tenha a mesma magia. Ah! Se eu tivesse vivido...

(*) Rodrigo Capella é escritor e poeta. Autor de vários livros, entre eles “Enigmas e Passaportes”, “Poesia não vende”, “Rir ou chorar” e “Transroca, o navio proibido”, que está sendo adaptado para o cinema pelo diretor Ricardo Zimmer. Informações: www.rodrigocapella.com.br



Escrito por Correio das Artes às 08h26
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Viagem
(conto beat-estudantil)


Por Rinaldo de Fernandes

A estrada, de início, entre eucaliptos.
Casa
pasto
casa.
Mundo de taipa.
Capim no rodapé da cerca.
Cabelos crus de Cristina.
Atrás do morro, a carne limpa do crepúsculo.
Certo azul temperando-se de estrelas.
Legião no toca-fita.
Kerouac ainda na (a)horta.
P-r-o-c-i-s-s-ã-o no povoado.
Lágrima cagada por pombo na face do Cristo na capela.
Mulher pedalando fardo.
Roçado no ombro do morro.
Sorriso dália de Cristina.
Chuvisco.
No asfalto molhado, pegadas do pisca-pisca.
Salmoras de cansaço nos olhos dos bóias-frias.
Casa
pasto
casa.
Seio de Cristina respirando.
Galho seco da aroeira pesado de rolinhas.
Carnaúbas nervosas.
Jumento mastigando o relincho.
Língua de fogo amolada na mata.
Fumaça na garupa da nuvem.
Aceno seco das lavadeiras sob a ponte.
Coalhada de duna no beiço do rio.
Flor no pensamento de Cristina.
Casa
pasto
casa.
Lamparina no alpendre.
Foice da lua retalhando cirros.
Sexo de Cristina colhido na grama do acostamento.
Primeiras luzes da cidade.
Sorriso no outdoor: ramo reimoso envergado sobre a avenida.
Pendurado na grana e no olhar de Cristina.
Bairro
barracos
brejo ao fundo.
Limões dos mirins azedando as esquinas.
Luminosos
vitrinas
muros de louça.
Magnólias cansadas regadas na praça.
Chegada.
Boa-noite pai mãe já é a novela?
Certo medo da sala.
Banho.
Bagagem desfeita – e o coração pulsando na mochila.

Rinaldo de Fernandes é escritor e professor da UFPB. É colunista do Correio das Artes



Escrito por Correio das Artes às 08h25
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Flores de Maio

Irani Medeiros

Gotas de sangue
manchavam flores na janela.
 
 Na parede o retrato do tirano
laureado pelo som das bombas.
 
 Na praça os bancos vazios
apenas o medo como herança cruel.
 
 Em cada olhar na rua
a inevitável inquisição.
 
 O amanhecer proíbido
era promessa de tardes invulveráis.
 
As utopias eram sonhos
na pauta das ausências.
 
 Minha infância violada
menino perdido no cenário das ruas.
 
 Sorte clandestina, flor solitáriamas
apesar de ontem
inventamos outra história!....



Escrito por Correio das Artes às 08h24
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SOYEZ SOLIDAIRES ET NON SOLITAIRES!*

Por Amanda K.

Mamãe chega hoje. Não sei exatamente quantas mentiras terei que inventar. Estamos em mil novecentos e sessenta e oito, quando ter a geladeira vazia, para um estudante, é charme. Ela vai chegar e pedir que mostre os lençóis e o lugar onde me escondo. Não sei. Uso a mesma boina, o mesmo bigode. Soube que Helena botou para fora seu bêbe, sendo assim, jamais serei padrinho de alguém. Não tenho dinheiro, apenas sonhos estranhos com crianças correndo num abismo de águas, colhendo flores. No cartaz show dos Beatles. Mamãe deve trazer os discos que pedi, do Brazil. Um peixe fora d’água, não faço barricadas nas avenidas, não atiro paralelepípedos, nada. Preciso de algumas moedas para comprar biscoitos. Só.

Sejam solidários, e não solitários!



Escrito por Correio das Artes às 08h23
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Um depoimento lusitano

Por Nicolau Saião

Correspondendo à sua sugestão/solicitação, entro na sala das memórias e apanho a gaveta referente a 1968. Pego no dossier de Maio. Como é relativamente pesado, como está um pouco encarquilhado e como sobressai nele um tom amarelo! 
Começo por me admirar: na primeira página, preso por um clip, está o retrato a preto e branco - pois ainda não havia fotos a cores - dum fulano esbelto, de basto cabelo castanho-claro que a máquina zero do exército colonial a seguir iria rapar, olhando para mim com uma certa expressão indefinível, entre o sonhador e o espantado.
Com certa surpresa reconheço-me nesse jovem de 22 anos que apesar de ter já no pêlo 13 meses de tropa e se lhe perspectivarem mais dois anos ou mais de Guiné, ainda excursionava por uma certa esperança que os anos depois lhe roubaram.
A primeira esperança: não morrer na guerra. E a segunda: não ficar encordoado, perro, doido pelas andanças de  tiros e quedas que pareciam esperá-lo.  O pobre diabo da foto não morreu. Mas talvez tenha tido que matar.  Em primeiro lugar a inocência e uma certa suavidade de maneiras - que a Guiné não dava para cavalheirismos. Depois, as certezas ingénuas de pensar que um ser humano merecia respeito, nomeadamente de coronéis, generais, tenentes ou capitães.
Mas nisto não irei falar, para não sentir na boca um sabor azedo de desprezo e nos olhos um fuzilar de comiseração por essa gente fardada que nos tratava como se estivéssemos numa quinta de animais de abate. Silencio... Deixemos que seja a História a compor-lhes a figura exacta e merecida.
Tanto mais que, se foi na tropa que conheci alguns dos maiores canalhas de que tenho memória, foi também ali que achei a gente mais nobre e devotada, companheiros admiráveis de dignidade e estatura interior varonil e merecedora da minha recordação, de que me lembro.  
Estava pois na Guiné, na tropa, em Bissau, em Maio de 68.   Foi por vagos periódicos (República, Diário de Lisboa) já atrasados, cedidos fraternalmente por um sargento companheirão, que soube do que se passava nas doces terras de França agitadas por um vendaval que buscava que o homem tivesse mais clareza em torno de si.
Digo assim para não politizar muito estas nótulas, inteiramente dadas aqui com a nostalgia que baste. Mas sempre me cabe e quero dizer que o que de lá me chegava não me tranquilizava inteiramente: pois se tomei contacto com a figura libertária e justa e limpa dum Daniel Cohn-Bendit, também sabia que se agitavam pelas ruas que tanto amo dos Champs-Elysées e dos arredores da Sorbonne as bandeiras repugnantes e totalitárias dos maoístas e estalinistas encenando-se em amigos do Povo.  Foi depois de ter contemplado, no Diário de Lisboa (ou seria no República?) uma fotografia onde uma bela jovem olhava a câmara de frente, com o seu rosto de morena encantadora, dando o braço a diversas companheiras e companheiros coroados por uma bandeira negra, que escrevi o meu primeiro poema "africano", que começava assim: "Ter prazer em falar/ como quem fôsse/ um simples animal, um ser da treva/Ter prazer em nascer, como quem desse/ o nascimento à própria solidão(...)".
Mas esse Maio distante, para mim eivado de calor e do cheiro pungente, doce e misterioso da terra africana, naquela altura não despertou em mim mais congeminações de teor societário: estava demasiado longe, entregue às penas duma guerra que não escolhera, que não me aprazia e que quase me levou ao calabouço, adversário que era do colonialismo e do cripto-fascismo lusitano de fachada ocidentalizada.   Passei por Maio e por Junho, pelos setembros e pelos janeiros até que num belo dia regressei à minha terra. E foi, estranhamente, nessa época que Maio mais me apanhou pela banda do pensamento especulativo, pelas abas da criação poética e da entrada no sedutor mundo do companheirismo com artistas, pintores, actores e actrizes e jornalistas e poetas que no Café Monte Carlo e no Café Monumental se juntavam pelas noites e pelas tardes lisboetas dum outro Maio, o de setenta, mas onde ecoavam ainda os rumores do outro que existira na Paris que amo como amo Lisboa, que só admiro simplesmente na humana e comovente medida em que me é ou me tem sido também fraternal, fecunda e amiga como um jardim de Portalegre ou de Guimarães. 
Foi então por essa altura que pude perceber mais intensamente o que Maio de 68 representara e era para mim, as pistas que nos deu (que ainda hoje nos dá, se o soubermos entender!) esgarçadas já pelas voltas e adequações do tempo as ingenuidades menos defensáveis. Depois - e agora muito mais - entendi melhor a razão que assistia a Raymond Aron e a outros lúcidos observadores, que alertavam as consciencias para o facto de que, se pelas ruas de Paris se soltara um evento salubre de liberdade e salutar exigencia, também corriam miasmas que buscavam atrelar o ser humano e as pessoas por extenso a novos conformismos, novos destrambelhamentos de cariz duvidoso. Percebi então que por debaixo do alcatrão não estaria apenas a praia mas, ardilosamente camuflados, bicharocos monstruosos para mais uma vez morderem o luminoso coração das gentes sedentas de verdadeira emencipação.   Maio de 68 radicou em mim aquilo que sempre fui: libertário mas não de obediencia estreita. E, por estranho que pareça, deu-me a certeza de que a tolerancia, que defenderei até ao fim, não deve nem pode confundir-se com cedencia ou cumplicidades com chantagens morais - ainda que se pretendam apresentar como a necessidade mais premente das populações e dos países.

Nicolau Saião é poeta português



Escrito por Correio das Artes às 08h22
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Nosso Maio de 68
                                                 
Por Zélia Bora

      Eu era ainda  menina de olhos arregalados e ouvidos abertos para as conversas em família. Era quase  hora da  refeição do meio-dia e minha tia organizava como sempre o almoço de familiares e agregados naquela casa cheia de plantas de muro branco. Ao lado dela,, um pequeno  córrego sempre ameaçador lembrava o nome do bairro: Afogados,  criando um contraste com a bonita casa de minha tia. Amei-a. Ali eu respirava os ares de uma grande cidade: Recife aonde eu ia sempre de férias com a minha mãe. Lá, eu bricava com o gatinho angorá Lelo e esperava os primos de Juazeiro da Bahia com as novidades do comércio baiano. A casa estava sempre limpa com os quartos cheirando a alfazema.  Minha mãe lia uma revista e me disse que lavasse as mãos. Apanhei o cortinado de filó azul que  se arrastava no chão cobrindo a enorme cama de embuia . Eu não queria que aquela limpeza pura ficasse enegrecida por nada. A renda dos bicos das fronhas era igualmente branca , impecável e me fazia pensar se o coração dos adultos poderia tornar-se  tão branco lavado,  pelo sangue de Cristo, como os lençóis de minha tia. Esquecí por um momento aquela obsessão e voltei a realidade pela batida de leve na porta de meu tio naquela sisudez de militar reformado, anunciando que o almoço estava  à mesa . Sentei-me ao lado de meu tio e vi que ele guardara em cima da cristaleira um livro da doutrina espírita. Eu amava meu tio porque sua pele era de um tom kiwi como a minha, enquanto seus cabelos lisos caíam bem cortados e já grisalhos sobre a testa.. Além do mais, algumas de suas histórias sobre o quartel povoavam a minha imaginação sem que eu entendesse direito o que significava em minha infantil ingenuidade, o que significava ordem para um militar. Minha tia sorria com as minhas perguntas, enquanto cantava baixinho um hino evangélico,  ajudando Maria e minha mãe a colocarem a comida à mesa.
 Eu aguardava ansiosa pelo Repórter Esso, às treze horas e gostava de ouvir meu tio fazer comentários interessantes sobre os fatos. Nesse dia meu tio,  por alguma razão que eu desconhecia, sabia mais do que todos e eu não entendia a sua insistência diária em saber por que minha prima caçula demorava tanto para o almoço. Desde o casamento precipitado dela com um rapaz que trabalhava na construção civil,  minha tia  andava atrapalhada enquanto ele se desesperava.. A neta  arrastava-se de fraldas com os longos cachos castanhos e uma chupeta que parecia, hoje diria, com a Maggie Simpson, enquanto o rosto de meu tio tornava-se dia a dia mais grave. Todos pararam de comer ao mesmo tempo após mais uma pergunta de meu tio, como se pressentissem  que algo grave estava para  acontecer. Ele falou devagar que não entendia a razão para minha prima atrasar-se todos os dias para o almoço e reclamava a sua ausência da mesa, e o abandono a filha  tantopor parte dela como por parte do marido. A mãe respondia-lhe aflita que o curso de Medicina exigia muito, mesmo de uma aluna em seu terceiro ano. Minha prima ao contrário da sobrinha, quase da mesma idade, era um problema.  Esta jogava basquete, ia à igreja e era uma aluna certinha do curso de Medicina.
             Me distraí um pouco naquela tarde sozinha, pois os meninos ainda não tinham chegado de Juazeiro. Tive a impressão  de que o cachorro Toddy e a cadela Conchita latiram muito mais naquele dia,  enquantoe os gansos do meu tio fizeram  um barulho ainda mais monótono .  Ele os alimentava com verduras picadas numa imensa bacia de plástico. À tarde todos sentaram-se na sala para assistir à TV preto e branco e finalmente silenciaram ao escutar a música que anunciava o Repórter Esso. Eu deitava a cabeça no colo de minha mãe enquanto sentia o cheiro de cigarro da fábrica Souza Cruz, no bairro da Mustardinha. De reprente meu tio ergueu-se na cadeira e me pareceu que sua expectativa naquela tarde tinha sido preenchida: A notícia de Paris em chamas pelos protestos estudantís pareceu distante para uma criança como eu, mas não para meu tio, um oficial do exército.
               Em dezembro,  quando as acácias da Lagoa, em João Pessoa, começavam a florir, eu  ouvia pensativa no rádio Os Beatles e Roberto Carlos, enquanto minha mãe chorava. Minha prima caçula, pupila de Dom Helder Câmara fora presa em Recife. Eu pensava na ansiedade de meu tio, a qual o acometia desde março de 68. Minha mãe de olhos vermelhos preparava-se para ir para repartição. Naquele momento, meu pai  mencionou três palavras que entendi muitos anos depois:  AI- 5.



Escrito por Correio das Artes às 08h21
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Silhuetas na sacada
 

Por Geraldo Lima

1

 Estávamos entre a morte e o verão, e você escancarou a porta da sacada para que o ar entrasse com a música da passeata. Da rua chegavam vozes emocionadas, transportadas até a nossa sacada pela força do vento. Era como um chamado primitivo, então agitamos as nossas bandeiras (vermelhas, obviamente), o pouco de ilusão que ainda nos restava. Poderíamos estar lá, no meio dos manifestantes, gritando slogans, palavras de ordem — afinal, fora num cenário assim que nos vimos pela primeira vez —, mas preferimos nos manter distantes, como se de tudo aquilo só pudéssemos colher algumas poucas lembranças. Já não acreditávamos mais na força de qualquer manifestação? Havíamos perdido o rumo. E, num dado momento, o eixo da nossa história pendeu para o fim, desviando-se do final  dos contos de fada — a infelicidade haveria de bater à nossa porta.  Era apenas a realidade, a dura  e deselegante realidade. Então, assim que a passeata sumiu, recolhemos as bandeiras e retornamos ao nosso casulo, no entanto algo havia mudado: o

2

 1º de maio de 1978, você se lembra? Que coisa fantástica! Jamais havia visto tantas bandeiras tremulando, nem aquela quantidade imensa de pessoas reunidas em torno de um mesmo ideal, buscando um mesmo objetivo, todos ali marchando (desculpe-me pelo marchando) como se fôssemos inaugurar um novo mundo. Tudo bem, o Muro ainda estava lá, as repúblicas também. O mundo todo ainda estava intacto. Nossas vidas  estavam ainda no princípio de tudo, e a incerteza não se destacava no horizonte. Éramos assim: crentes, dogmáticos, indo a fundo nas questões. Foi lá que eu o vi pela primeira vez: no meio da multidão, destacaram-se seus cabelos longos e sua barba ainda por fazer. Um desleixo completo, mas foi o bastante para me atrair: sua imagem sem retoques arrebatou-me definitivamente. Lembra-se de quando me aproximei de você e, logo em seguida, começamos a andar de mãos dadas?  Sabe, com exceção do dia em que me descobri grávida, nunca mais experimentei  sensação tão profunda quanto aquela: era como se a emoção de todas aquelas  pessoas, repentinamente, estivesse sendo gerada dentro de nós. Devemos lutar mais, incessantemente, por certas coisas. Nesse caso, qual foi nossa grande falha? Não termos protegido com mais cuidado a memória daquele momento contra tudo de ruim que nos tem acontecido? Nos esquecemos de que certos momentos são sagrados: devem sobreviver à ação devastadora do tempo e das mágoas.
         
3

 Naqueles idos, você era o meu Che Guevara, o baluarte da revolução impossível. Eu, mais do que em mim mesma, acreditava em você. E a minha felicidade era recolher, pela manhã, as migalhas de poemas que você espalhava pelo apartamento. Escrever e rasgar era o seu lema. E eu, pacientemente, como se  fizesse milagres, recompunha todo o poema. Aquilo era comovente, e  só me vinha à mente o trabalho meticuloso de um restaurador de obra de arte: polindo ali, buscando aqui a cor original, remodelando as formas de um corpo. O que eu fazia era salvar a sua alma. Às vezes, ao faltar uma palavra, da qual nem você se lembrava mais, angustiava-me a idéia de que o poema ficaria incompleto para sempre. Era a sua vida, na verdade, que ficaria incompleta, mas você não estava nem aí. Você, uma vez escrito o poema, não se importava mais com o destino que ele teria; importava-lhe somente o ato em si. Eu até me extasiava vendo-o escrever freneticamente, como se expulsasse demônios de si mesmo. Com o passar dos anos, os demônios escassearam, você se purificou, e os poemas... ah, por onde andam os seus poemas?!

4

 Eram onze horas, e, por um longo tempo, como se estivesse distante, você  ficou acariciando o rosto, a barba crescida, enquanto lá fora, junto com o ronco dos motores, sumiam ao longe os ecos da passeata. Unidos/ Perderemos. Até quando você ficaria recitando  poemetos de Cacaso para justificar a sua inércia? a nossa inépcia? o fim da nossa conversa? o juízo final da nossa era? Estávamos ilhados.  Você abriu uma cerveja, entornou o primeiro copo, só então notei que a angústia e, pior ainda, a impossibilidade de abrandá-la, ia nos arrastar para o abismo. Havíamos nos dispersado do rebanho e, como castigo, estávamos condenados ao silêncio, ao exílio. Seu olhar de criança assustada já não me fascinava, tampouco havia fragmentos de poemas espalhados pelo apartamento. De modo que, melancolicamente, minha função de salva-vidas perdera sua razão de ser — não havia mais os excessos de antes, na verdade, a vida minguara.
          
5

 Já era alta noite, porém aquela passeata ainda se movimentava em nossa cabeça: estava indo adiante, brandindo os punhos, cantando o hino da fraternidade, da igualdade, da liberdade, tingindo, com o vermelho , a paisagem urbana, e não pararia nunca, em frente, sempre! E nós, em silêncio, arrebatados pelo fogo daquelas vozes. Aparentemente sossegados, estávamos, no entanto, irrequietos: uma tempestade nos varria  por dentro. Há quanto tempo estávamos desligados do inefável, presos à rotina de dia após dia? Dia maquinando dia, a razão de cada dia. A correnteza era muito forte, e nos agarrávamos apenas a um tronco podre: acomodados  em meio às almofadas, ouvindo a música de Vinícius, temíamos o incêndio das palavras. O que estávamos evitando, também, era encurtar o caminho da sala ao quarto: forjamos tantas desculpas, demos corda ao tempo — fizemos de tudo para adiar aquele encontro. Você já sabia do início da solidão, da precariedade dos sentimentos. Se agora você já não mutilava seus poemas, tampouco os arrematava: seu hábito passara a ser o de abandoná-los sobre a escrivaninha,  para nunca mais revê-los. De qualquer forma, era a sua maneira de ser: ir abandonando tudo pelo caminho — você, o inventor de escombros.

6

 Duas horas da madrugada, e nós dois vindo trôpegos pela calçada, declamando versos incendiários a plenos pulmões. Queríamos acordar a cidade, mas uma cidade, quando dorme, é imperturbável. Fazia bastante frio naquela noite de julho, detalhe do qual jamais me esquecerei. Como que por ironia, eu haveria de chorar, desesperadamente, numa noite gelada como aquela: a noite logo após o enterro do nosso filho. Você, por todos os meios, tentava me consolar, mas  como consolar uma mãe arrasada pela perda de um filho? Naquela noite friorenta, vínhamos abraçados, nos amparando mutuamente, parando no escuro, às vezes no claro, demorando num beijo que, não fosse o avançado da hora, provocaria olhares escandalizados. Queríamos chocar, nem que fosse a calada da noite. Íamos assim, plenos de vodka e cuba libre, e o céu estrelado era testemunha da nossa felicidade em 82.

7

 O Sol abriu maravilhado/suas plumas douradas sobre nós,/o sol de janeiro,/minha bela grávida,/ minha ninfa gerando nosso fruto sagrado./ O Sol veio nos saudar/ nas areias desta praia:/pôs esse ouro no seu ventre/ e este dia claro em nós para sempre. Você se lembra desse poema? Tenho certeza que não. Eu consegui salvá-lo da tormenta: é a memória de nosso filho, o único retrato que restou dele. Os poetas — e não se esqueça disso — são os retratistas do que ainda há de existir.  O mar imenso, indomável, e era assim que imaginávamos nosso futuro. Mas veio a tragédia, a ruína, a descrença invadindo o paraíso. Desde então você se trancou num quarto escuro e emudeceu. Com quem eu haveria então de conversar, se você renegava as palavras? se nem poemas escrevia mais? Pus-me a andar sem rumo pelo deserto, suportando — nem sei com que forças —, todas as tempestades de areia. Talvez você nem acredite nisso, mas uma mulher demora muito a cair, ainda que o corpo esteja em chamas.  Nessa solidão absurda, pude então olhar para mim; foi aí que me vi gorda, deselegante, desprovida de atrativos. Quer saber de uma coisa? Fiquei profundamente chocada com aquela imagem, pensando que eu, como pessoa, não podia me acabar daquela forma. Foi por isso que retomei, tempos depois, o contato com os amigos e,  noutra etapa, seguindo conselhos de amigas, fui me recompor na ginástica. Se estou tentando justificar esses meus atos, essa minha decisão? Não se trata de justificar: ainda que assim fosse, não recomporia nada.

8

 E agora, de que você me acusa? De ser a guardiã do passado? de viver atormentando-o com a imagem do nosso filho morto? Não há mais com que se preocupar: em breve você sairá por aquela porta e estará livre. Quer fugir do passado. Durante todos esses anos,  não tem sido outro o seu  exercício. Fugir, fugir para onde? Como fugir do que está cravado na nossa mente? Estamos lá, presos ainda ao instante daquela fatalidade. Antes, na festa, nem podíamos imaginar o que viria depois. Bastante animados pelo álcool, rimos, cantamos, dançamos. Respondíamos, cheios de convicção, às indagações sobre a vida futura do bebê, enquanto os amigos, carinhosamente, tocavam o meu ventre, tentando surpreender o feto num dos seus movimentos. Ouvíamos os conselhos, as experiências alheias. Sim, ia correr tudo bem.  Antes do final da festa, saímos, ouvindo, às nossas costas, um apreensivo tomem cuidado, não corram. Eu havia bebido demais... nós havíamos bebido demais! E aquela escada (aquela maldita escada!)  estivera sempre lá à nossa espera.

Geraldo Lima é autor de A noite dos vagalumes e Nuvem muda a todo instante



Escrito por Correio das Artes às 08h20
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Vesti azul

Por Urariano Mota

Quando vem o primeiro de abril, sempre me lembro do que chamavam a revolução de 31 de março. A história oficial sempre antecipou em um dia o golpe de 64 para evitar o ridículo. E aqui e ali volta para mim o terror daqueles anos na forma de pessoas e  canções. Lembro, por exemplo, de Eremias Delizoicov, a quem conheci na Escola Técnica Federal de São Paulo. O menino que eu vira em 1968 não anunciava o cadáver de 18 anos,   perfurado de balas, o rosto irreconhecível porque uma só ferida, os cabelos tão úmidos, tão grossos por coágulos de sangue, que davam a impressão de flutuar no chão seco. Nada havia naquele cadáver que lembrasse o jovem que eu conhecera. Eremias não era aqueles olhos apertados, a boca aberta à procura de ar, a lembrar um afogamento.
“Vesti azul, minha sorte então mudou. Vesti azul, minha sorte então mudou...”, não, não pensem que enlouqueci. Há uma coerência entre essas canções despretensiosas, alegres, leves, e os cadáveres dos terroristas na ditadura militar. Não pensem jamais que vicejam hinos do Drácula em épocas sombrias, de repressão. Pelo contrário.
Na Escola Técnica Federal de São Paulo, Eremias Delizoicov foi a minha salvação no meio daqueles meninos burgueses, lembro. A Escola Técnica daqueles anos possuía alunos da elite econômica do Brasil. Certo dia, percebi que um jovem gordo, que se vestia com blusões de couro tão natural como uma segunda pele, era filho do dono da Aços Villares. E eu então me encolhi mais em minha camisa de algodão, nos 10 graus do inverno paulistano. A conversa daqueles alunos toda era sobre carros, motos, motores, esportes.
Onde um amigo, uma alma, um leitor, um irmão que entendesse e falasse sobre Platão, Descartes, os grandes inventos da humanidade, a música de Chopin? Quando me perguntavam sobre máquinas, potências de motores, eu lhes respondia que mais me preocupava O Discurso do Método. Um ridículo imenso caía então sobre o nordestino que não possuía nem bicicleta.
“Pensam que a pobreza é lixo, e que rapaz pobre não tem coração”. Não, não pensem que enlouqueço ao lembrar essas canções melosas, adocicadas, daqueles férreos anos. “Estava na tristeza que dava dó, vivia amargamente e andava só”, lembro, tão nitidamente quanto lembro a diferença, o contraste dessa canção com a vida que não poderia brotar, de um mundo reprimido naqueles anos. “Que azul é a cor do céu, e do seu olhar também... Vesti azul, minha sorte então mudou”, cantava Simonal. Por não ter camisa azul, eu procurava o azul do espírito. Uma coisinha estúpida, a procurar uma alternativa que não fosse pular fora da vida.
Ao escrever agora, não resisto ao impulso de desejar o impossível, que fôssemos mais maduros em 1968. Se não maduros, pelo menos profetas, leitores do futuro, videntes.
A morte torna as pessoas mais razoáveis e transparentes à humanidade. Se não todas as mortes, pelo menos algumas dão um vulto a essas pessoas que antes não víamos. Eremias morreu como um herói, permitam-nos dizer. O aparelho onde estava caíra. Fora entregue por um outro jovem preso, que não suportara as torturas. Cercado por forças do Exército, Eremias sozinho resistiu. Resistiu à bala, sem nenhuma esperança. A distância nos permite dizer que ele, naquele tiroteio cerrado, chamava a atenção dos demais companheiros fora. Que a casa não era mais segura, para ninguém. Outra hipótese que nos ocorre é a de ele saber que não havia mais saída, se caísse vivo. A saber, não haveria mais saída de continuar vivo, sem delatar.
Talvez ele tenha querido evitar, no fim e enfim, ser uma coisinha estúpida, a balançar nervoso numa câmara de tortura. Algo estúpido, tão estúpido quanto um “Vesti azul” de primeiro de abril.



Escrito por Correio das Artes às 08h19
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Paren el mundo que me quiero subir!

por Eva Feld

A cuarenta años del mayo francés de 1968, hito histórico en el que contrajeron nupcias consignas diametralmente opuestas para reivindicar en la palestra pública con igual júbilo y simultaneo ímpetu desde el más floreado marxismo hasta la ilimitada libertad sexual, sus protagonistas anónimos, conquistadores de la posmodernidad, eternos diletantes, libre pensadores y nostálgicos sobreseídos del devenir político mundial, presenciamos alelados que el tren ultrarrápido en el que viajábamos hacia el futuro utópico y del cual quisimos apearnos para sembrar nuestras ideas y nuestras causas en el terreno fértil de las emociones revolucionarias, nos ha dejado convertidos en apacibles rumiantes de lo que ha devenido, muy a nuestro pesar, en pasado. Sin embargo, no todo está perdido, luego de darse la vuelta entera por la Vía Láctea, el tren de la historia está a punto de pasar de nuevo frente a nuestras narices y henos allí, en nuestra perplejidad, pretendiendo que haga un alto para volvernos a montar sin habernos tomado la dosis reglamentaria de dramamina para contrarrestar el mareo. Allí estamos intentando deslastrarnos de conocimiento y experiencia, haciendo aeróbicos y pilates para hacernos atractivos a las nuevas generaciones, intentando olvidar nuestras lecturas de Marcuse, Lacan, Lukacs  o Althusser y ejercitando nuestros dedos para aprender a enviar mensajitos por el celular o actualizarnos en facebook,  pasándonos a toda velocidad direcciones electrónicas que nos permitan estar al día en foros políticamente correctos, culturalmente actualizados y lucir aceptablemente consumistas.
Hubo un tiempo, sí, en que protestábamos porque las grandes ideas de los pensadores del siglo XX se iban comprimiendo a vulgaridad y desquiciamiento. Ahora comprendemos que las píldoras light a las que se han reducido las disquisiciones, los preceptos, las teorías y las ecuaciones de segundo grado son precisamente el carburante que consume el máximo motor de combustión interna que es la velocidad mediática. El conocimiento, el discernimiento, el debate, la dialéctica han quedado relegados a la habitación de los trastos viejos. Es el tiempo de los resúmenes, las síntesis, la inmediatez. Es la hora de encapsular el pensamiento que, dicho sea de paso, ha de ingerirse con burbujas edulcoradas para soportar cualquier efecto secundario.
Pensar se equipara con enfermedad, el antiguo precepto cogito ergo sum ha adquirido, en este casi medio siglo transcurrido desde el mayo francés, una sorna semántica; cogito sí, pero acordándole una acepción sexual. Si Marcuse acuñaba la desublimación sexual y cultural en el Hombre Unidimensional, que le dio título a su obra mejor conocida,  su tesis, como los buenos rones que se añejan en barricas de roble,  se ha mejorado a sí misma, proclamándose su definición de libertad como ciertamente incomparable con ninguna anterior. Una que no se conquista ni se sustenta y que tampoco se defiende, una que ha adquirido carácter de existencialismo por serle consustancial a la esencia humana, de manera que se nazca directamente libertino.
Lacan en cambio ha sido víctima de devaluación; si en los años 60 cabalgaba sobre el monstruo de tres cabezas que era para él el problema de la educación, tratando de descifrar lo real, lo simbólico y lo imaginativo para darle coherencia a sus teorías, estaría probablemente desconcertado ante el desarrollo subnormal que ha sufrido su quimera, en lo referente a lo real. Impávidos, quienes lo estudiamos durante los sucesos del mayo francés, vemos cómo lo simbólico y lo imaginativo son manipulados impúdicamente hasta reducirlos a adoctrinamiento y prefiguración respectivamente. La imaginación ha llegado ciertamente  al poder y está prohibido prohibir, sólo que ambos residen ahora en el status quo. Por lo que lo simbólico y lo imaginativo se han desplazado hacia limitaciones fuertemente humanistas que  impondría un hipotético Estado Social de Derecho, es decir, una legislación de tolerancia y respeto mutuo, una economía inclusiva y otras ideas más progresistas que revolucionarias, que implican más disciplina que libertinaje, más seriedad que consignas y evidentemente más circunvoluciones que velocidad.
No se solicita un Daniel Cohn-Bendit, el tren de la historia que regresa a toda velocidad se ha llevado por delante el placer estético por el que abogaban los filósofos alemanes de la escuela de Frankfurt, el precioso andamiaje verbal de los ensayistas franceses, a los pensadores de alta cilindrada que acompañaron los sucesos revolucionarios del mayo francés, pero trae consigo las libertades humanas consagradas en las constituciones y en los vocabularios de occidente. El tren de la historia cuya velocidad arrolladora enceguece a quienes lo quieren abordar desconociendo su itinerario y sus posibles paradas, sólo podrá ser tomado, paradójicamente, por quienes estén en capacidad de imponerle las paradas.  Para lo cual se requiere una fuerza cuyo punto de partida se ubique en la palabra. Motor de combustión interna capaz de echar a andar un nuevo paradigma valiéndose de las ciencias del espíritu, de la musculatura pragmática y del esfuerzo contagioso.

Eva Feld  é Periodista y novelista venezolana



Escrito por Correio das Artes às 08h17
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Muito além do horizonte: onde nada aconteceu em 68

Por José Nunes

O lugar onde nascemos, a pequena cidade de Serraria, fica para além do horizonte, situada entre os montes e canaviais que enfeitam os baixios. É o que podemos chamar de canto sossegado, onde a agitação tem preguiça de aparecer.
 Do ano de 1968, quando o mundo viveu momento efervescente, principalmente partindo da juventude em mutação, nossa cidade não notou as mudanças, nem se ligou na base de agitação verificada em lugares distantes, somente  tomando conhecimento das mudanças com certo atraso.
 Esse atraso foi motivado pela escassez de meios de comunicação em Serraria, aonde o jornal chegava com atraso, revistas somente quando alguém levava da Capital. A televisão, nem se fala. Restava o rádio, disponível para alguns.
 Além do mais, menino acanhado, produto das brenhas de Serraria, aprendendo a juntar as palavras e lendo com dificuldade, interessado no roçado que meus pais cultivaram e no movimento na bagaceira dos engenhos de Antonio Carvalho e Chico Frazão, era natural o desligamento ao que ocorria além da Serra do Espinho e do Sitio Jacaré. Estava ligado somente nos acontecimentos em redor do sitio tapuio, onde nasci, e adjacências.  
O tempo passou e na incursão pelo jornalismo me depararia com protagonistas deste movimento na Paraíba. Atores e figurantes enchendo-me de prazer e renovando sonhos do adolescente acanhado que Serraria produziu.
Olhando para aquele período de 40 anos atrás, identificamos uma réstia no nosso lugar que identifica os resultados de tudo que se propunha,identificado com um suspiro no silêncio espalhado por toda extensão da cidade e pelos sítios.
Convivo com um espaço que tento preencher com as lembranças dos outros, principalmente de atores depositários de minha admiração como Carlos Aranha, Martinho Moreira Franco e outros que dão testemunho dos ocorridos na Capital.
Lógico que com o tempo o movimento estudantil de outras plagas aqui teve repercussão, mas em Serraria tardou chegar as notícias desses acontecimentos, e muito menos das mudanças propostas, como se verificaram em outros lugares, com força ideológica, cultural e política.
Se não morasse no sítio naquela época, certamente teria sido um observador contumaz dos acontecimentos, mesmo sem participar dos movimentos das ruas. Esse é o sentimento que me acode agora ao lembrar a data e dos jovens que ansiavam por mudanças.
Naquele tempo, pelo menos de nossa parte, vivíamos livres como os pássaros, andando com a camisa aberta no peito, interessado no cultivar do roçado e em ver o tempo passar. Ideologia, pensamento revolucionário, somente tempos depois é que observamos seu significado. Tempo bom que a gente nem viu passar.
Mesmo que aparecesse informação do que ocorreria nas grandes cidades do mundo, que nem sabíamos onde ficavam, grupo de jovens e adolescentes gritando por liberdade, em mim despertaria mais interesse as caminhadas pela bagaceira dos engenhos.
Nossos anseios não passavam do horizonte em nosso redor, alicerçados no exercício da liberdade que a vida do campo proporciona, estavam no limite de nosso conhecimento. Éramos felizes com o mundo ao alcance de nossa vista e no espaço de nosso abraço.
Entre os agricultores daquela época, pelo menos em região, o ano de 1968 ficou na memória como sendo bom para a lavoura.

(O Correio das Artes é o suplemento literário mais antigo em circulação no Brasil. Foi criado em 27 de março de 1949 por Édson Régis. Circula encartado, em formato revista, mensalmente, no jornal A União, da Paraíba. É editado por Linaldo Guedes e tem programação visual de Cícero Félix. Entre seus colunistas fixos estão João Batista de Brito, Amador Ribeiro Neto, Hildeberto Barbosa Filho, Astier Basílio e Rinaldo de Fernandes.
Colaborações podem ser enviadas através do e-mail
linaldoguedes@uol.com.br)



Escrito por Correio das Artes às 08h16
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