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CORREIO DAS ARTES


CAPA

CORREIO DAS ARTES/SETEMBRO DE 2008

100 anos de um gênio da literatura


Para muitos, é o maior escritor brasileiro de todos os tempos. Talvez seja, embora isso seja uma opinião subjetiva.
O certo é que Machado de Assis, cujo centenário de morte é lembrado neste mês de setembro, foi um escritor que esteve sempre além do seu tempo. Escreveu romances que se tornaram verdadeiros clássicos da literatura mundial, contos que até hoje são hoje referências para os novos ficcionistas, além de crônicas e poesias.
No ano do seu centenário, vários livros lançados no Brasil repõem o devido valor ao autor de “Dom Casmurro”. Entre eles, “Capitu mandou flores”, organizado por Rinaldo de Fernandes para a Geração Editorial e reúne contos escritos por autores contemporâneos a partir da obra do “Bruxo de Cosme Velho”.
Como se sabe, Joaquim Maria Machado de Assis nasceu no Rio de Janeiro, a 21 de junho de 1839 e morreu também no Rio de Janeiro, a 29 de setembro de 1908. Foi um romancista, contista, poeta e teatrólogo brasileiro, considerado um dos mais importantes nomes da literatura desse país e identificado, pelo crítico Harold Bloom, como o maior escritor afro-descendente de todos os tempos.
Sua vasta obra inclui também crítica literária. É considerado um dos criadores da crônica no país, além de ser importante tradutor, vertendo para o português obras como Os Trabalhadores do Mar, de Victor Hugo e o poema O Corvo, de Edgar Allan Poe. Foi também um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras e seu primeiro presidente, também chamada de Casa de Machado de Assis.
Era filho do mulato Francisco José de Assis, pintor de paredes e descendente de escravos alforriados, e de Maria Leopoldina Machado, uma portuguesa da Ilha de São Miguel. Machado de Assis, que era canhoto, passou a infância na chácara de D. Maria José Barroso Pereira, viúva do senador Bento Barroso Pereira, na Ladeira Nova do Livramento, (como identificou Michel Massa), onde sua família morava como agregada, no Rio de Janeiro. De saúde frágil, epilético, gago, sabe-se pouco de sua infância e início da juventude. Ficou órfão de mãe muito cedo e também perdeu a irmã mais nova. Não freqüentou escola regular, mas, em 1851, com a morte do pai, sua madrasta Maria Inês, à época morando no bairro em São Cristóvão, emprega-se como doceira num colégio do bairro, e Machadinho, como era chamado, torna-se vendedor de doces. No colégio tem contato com professores e alunos e é provável que tenha assistido às aulas quando não estava trabalhando.
Mesmo sem ter acesso a cursos regulares, empenhou-se em aprender e se tornou um dos maiores intelectuais do país, ainda muito jovem. Em São Cristóvão, conheceu a senhora francesa Madamme Gallot, proprietária de uma padaria, cujo forneiro lhe deu as primeiras lições de francês, que Machado acabou por falar fluentemente, tendo traduzido o romance Os Trabalhadores do Mar, de Victor Hugo, na juventude.
Também aprendeu inglês, chegando a traduzir poemas deste idioma, como O Corvo, de Edgar Allan Poe. Posteriormente, estudou alemão, sempre como autodidata.
De origem humilde, Machado de Assis iniciou sua carreira trabalhando como aprendiz de tipógrafo na Imprensa Oficial, cujo diretor era o romancista Manuel Antônio de Almeida. Em 1855, aos quinze anos, estreou na literatura, com a publicação do poema "Ela" na revista Marmota Fluminense. Continuou colaborando intensamente nos jornais, como cronista, contista, poeta e crítico literário, tornando-se respeitado como intelectual antes mesmo de se firmar como grande romancista. Machado conquistou a admiração e a amizade do romancista José de Alencar, principal escritor da época.
Em 1864 estréia em livro, com Crisálidas (poemas). Em 1869, casa-se com a portuguesa Carolina Augusta Xavier de Novais, irmã do poeta Faustino Xavier de Novais e quatro anos mais velha do que ele. Em 1873, ingressa no Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, como primeiro-oficial. Posteriormente, ascenderia na carreira de servidor público, aposentando-se no cargo de diretor do Ministério da Viação e Obras Públicas.
Podendo dedicar-se com mais comodidade à carreira literária, escreveu uma série de livros de caráter romântico. É a chamada primeira fase de sua carreira, marcada pelas obras: Ressurreição (1872), A Mão e a Luva (1874), Helena (1876), e Iaiá Garcia (1878), além das coletâneas de contos Contos Fluminenses (1870), , Histórias da Meia Noite (1873), das coletâneas de poesias Crisálidas (1864), Falenas (1870), Americanas (1875), e das peças Os Deuses de Casaca (1866), O Protocolo (1863), Queda que as Mulheres têm para os Tolos (1864) e Quase Ministro (1864).
Em 1881, abandona, definitivamente, o romantismo da primeira fase de sua obra e publica Memórias Póstumas de Brás Cubas, que marca o início do realismo no Brasil. O livro, extremamente ousado, é escrito por um defunto e começa com uma dedicatória inusitada: "Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas Memórias Póstumas". Tanto Memórias Póstumas de Brás Cubas como as demais obras de sua segunda fase vão muito além dos limites do realismo, apesar de serem normalmente classificados nessa escola. Machado, como todos os autores do gênero, escapa aos limites de todas as escolas, criando uma obra única.
Na segunda fase suas obras tinham caráter realista, tendo como características: a introspecção, o humor e o pessimismo com relação à essência do homem e seu relacionamento com o mundo. Da segunda fase, são obras principais: Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borba (1892), Dom Casmurro (1900), Esaú e Jacó (1904), Memorial de Aires (1908), além das coletâneas de contos Papéis Avulsos (1882), Várias Histórias (1896), Páginas Recolhidas (1906), Relíquias da Casa Velha (1906), e da coletânea de poesias Ocidentais. Em 1904, morre Carolina Xavier de Novaes, e Machado de Assis escreve um de seus melhores poemas, Carolina, em homenagem à falecida esposa. Muito doente, solitário e triste depois da morte da esposa, Machado de Assis morreu em 29 de setembro de 1908, em sua velha casa no bairro carioca do Cosme Velho. Nem nos últimos dias, aceitou a presença de um padre que lhe tomasse a confissão. Bem conhecido pela quantidade de pessoas que visitaram o escritor carioca em seus últimos dias, como Mário de Alencar, Euclides da Cunha e Astrogildo Pereira (ainda rapaz e por isso desconhecido dos demais escritores), ficcionalmente o tema da morte de Machado de Assis foi revisto por Haroldo Maranhão.
O crítico norte-americano Harold Bloom considera Machado de Assis um dos 100 maiores gênios da literatura de todos os tempos (chegando ao ponto de considerá-lo o melhor escritor negro da literatura ocidental), ao lado de clássicos como Dante, Shakespeare e Cervantes. A obra de Machado de Assis vem sendo estudada por críticos de vários países do mundo, entre eles, Giusepe Alpi (Itália), Lourdes Andreassi (Portugal), Albert Bagby Jr. (Estados Unidos da América), Abel Barros Baptista (Portugal), Hennio Morgan Birchal (Brasil), Edoardo Bizzarri (Itália), Jean-Michel Massa (França), Helen Caldwell (Estados Unidos da América), John Gledson (Inglaterra), Adrien Delpech (França), Albert Dessau (Alemanha), Paul Dixon (Estados Unidos da América), Keith Ellis (Estados Unidos da América), Edith Fowke (Canadá), Anatole France (França), Richard Graham (Estados Unidos da América), Pierre Hourcade (França), David Jackson (Estados Unidos da América), Linda Murphy Kelley (Estados Unidos da América), John C. Kinnear, Alfred Mac Adam (Estados Unidos da América), Victor Orban (França), Houwens Post (Itália), Samuel Putnam (Estados Unidos da América), John Hyde Schmitt, Tony Tanner (Inglaterra), Jack E. Tomlins (Estados Unidos da América), Carmelo Virgillo (Estados Unidos da América), Dieter Woll (Alemanha) e Susan Sontag (Estados Unidos da América).

(O Correio das Artes é o suplemento literário mais antigo em circulação no Brasil. Foi criado em 27 de março de 1949 por Édson Régis. Circula encartado, em formato revista, mensalmente, no jornal A União, da Paraíba. É editado por Linaldo Guedes e tem programação visual de Cícero Félix. Entre seus colunistas fixos estão João Batista de Brito, Amador Ribeiro Neto, Hildeberto Barbosa Filho, Astier Basílio e Rinaldo de Fernandes.
Colaborações podem ser enviadas através do e-mail
linaldoguedes@uol.com.br)



Escrito por Correio das Artes às 08h03
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Obra

Romance
Ressurreição, 1872
A mão e a luva, 1874
Helena, 1876
Iaiá Garcia, 1878
Memórias Póstumas de Brás Cubas, 1881
Casa Velha, 1885
Quincas Borba, 1891
Dom Casmurro, 1899
Esaú e Jacó, 1904
Memorial de Aires, 1908

Poesia
Crisálidas[2], 1864
Falenas, 1870
Americanas, 1875
Ocidentais, 1880
Poesias completas, 1901

Livros de contos
Contos Fluminenses, 1870
Histórias da Meia-Noite, 1873
Papéis Avulsos, 1882
Histórias sem Data, 1884
Várias Histórias, 1896
Páginas Recolhidas, 1899
Relíquias da Casa Velha, 1906

Alguns contos
A Carteira (conto do livro Contos Fluminenses)
Miss Dollar (conto do livro Contos Fluminenses)
O Alienista (conto do livro Papéis Avulsos)
A Sereníssima República (conto do livro Papéis Avulsos)
O Segredo do Bonzo (conto do livro Papéis Avulsos)
Teoria do Medalhão (conto do livro Papéis Avulsos)
Uma Visita de Alcibíades (conto do livro Papéis Avulsos)
O Espelho (conto) (conto do livro Papéis Avulsos)
Noite de Almirante (conto do livro Histórias sem Data)
O Homem Célebre (conto do livro Várias Histórias)
Conto da Escola (conto do livro Várias Histórias)
Uns Braços (conto do livro Várias Histórias)
A Cartomante (conto do livro Várias Histórias)
O Enfermeiro (conto do livro Várias Histórias)
Trio em Lá Menor ((conto do livro Várias Histórias)
O Caso da Vara (conto do livro Páginas Recolhidas)
Missa do Galo (conto do livro Páginas Recolhidas)
Almas Agradecidas

Teatro
Hoje avental, amanhã luva, 1860
Queda que as mulheres têm para os tolos, 1861
Desencantos, 1861
O caminho da porta, 1863
O protocolo, 1863
Quase ministro, 1864
Os deuses de casaca, 1866
Tu, só tu, puro amor, 1880
Não consultes médico, 1896
Lição de botânica, 1906



Escrito por Correio das Artes às 08h01
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CINCO PERGUNTAS A RINALDO DE FERNANDES

Um dos principais antologistas do país, Rinaldo de Fernandes lançou, este ano, pela Geração Editorial (SP), a sua mais nova antologia, intitulada “Capitu mandou flores: contos para Machado de Assis nos 100 anos de sua morte”.
Confira trechos de entrevista com ele sobre a antologia:

Como surgiu a idéia de lançar a antologia Capitu mandou flores, reunindo textos de, sobre e baseados em Machado de Assis?
Rinaldo de Fernandes – Em 2006 organizei a antologia Quartas histórias: contos baseados em narrativas de Guimarães Rosa, que foi publicada, numa bela edição, pela Ed. Garamond, do Rio de Janeiro. Foi um livro muito bem recebido, sendo hoje – pelo que acabo de ser informado numa nota do Diário de Pernambuco – objeto de estudo até na Sorbonne. Nas Quartas histórias foram recriados todos os contos do livro Sagarana, que Guimarães Rosa publicou em 1946, e trechos e situações do romance Grande sertão: veredas, que é de 1956. Na época eu já tinha o projeto de organizar uma nova antologia, desta vez em torno de Machado de Assis. Fiz, ainda em 2006, uma enquete com 17 escritores brasileiros para escolher os 10 melhores contos de Machado. Feita a escolha, convidei 35 autores para o trabalho de recriação.

Quais os 10 melhores contos de Machado escolhidos na enquete e que são recriados na antologia? Que autores os recriaram?
Rinaldo de Fernandes – Os contos de Machado, na ordem da escolha na enquete, são: “Missa do Galo”, “A Cartomante”, “O Espelho”, “Noite de Almirante”, “A causa secreta”, “Pai contra mãe”, “O Alienista”, “Uns braços”, “O Enfermeiro” e “Teoria do medalhão”. Foram reescritos na antologia pelos seguintes autores: Lygia Fagundes Telles, Moacyr Scliar, Cecília Prada, Nelson de Oliveira, André Sant’Anna, Fernando Bonassi, Glauco Mattoso, Ivana Arruda Leite, Andréa del Fuego, Marcelo Coelho, Deonísio da Silva, Bernardo Ajzenberg, João Anzanello Carrascoza, Antonio Carlos Secchin, Leila Guenther, Marilia Arnaud, Rinaldo de Fernandes, Raimundo Carrero, Mário Chamie, Aleilton Fonseca, Tércia Montenegro, Maria Valéria Rezende, Amador Ribeiro Neto, Carlos Gildemar Pontes, Aldo Lopes de Araújo, Suênio Campos de Lucena, Carlos Ribeiro, Ronaldo Cagiano, Sérgio Fantini e Maria Alzira Brum Lemos. Participo com o conto “Beleza”, que obteve em 2006 o Prêmio Nacional de Contos do Paraná e cuja epígrafe é retirada de “O Alienista”.

Nesta antologia sobre Machado de Assis, que resultados lhe surpreenderam?
Rinaldo de Fernandes – Vários. Como organizador, até por uma questão de ética e de respeito pelo conjunto dos autores, não acho bom ficar citando os melhores textos da coletânea, mesmo porque cada um dos textos tem sua história e momento de produção. Vou recebendo os contos e montando o livro – e cada conto tem seu valor próprio. Posso adiantar que o conto do Moacyr Scliar, recriando “Missa do Galo”, é excelente. Mas na coletânea há outros tantos contos excelentes, e prefiro, como disse, não citá-los. Gostaria, por outro lado, de aproveitar para dizer uma coisa que considero importante: todas as minhas antologias são revisadas por mim mesmo – normalmente não aceito os revisores das editoras. Não é por desconfiança no trabalho desses profissionais, é por um critério próprio. Sinto-me mais seguro assim, além de acompanhar de perto o trabalho dos colaboradores. É muito trabalhoso organizar antologias, há que ter muita responsabilidade, mas tenho muito prazer em prepará-las.

Estamos no centenário da morte de Machado de Assis. Qual a importância de sua obra para a literatura universal?
Rinaldo de Fernandes – Machado é um caso extraordinário, de autor da chamada periferia (dos países ocidentais) que se eleva a gênio. Ele desperta interesse e é atual tanto pela absoluta genialidade em investigar a alma humana, em entender os mecanismos de ambigüidade dos seres, sempre divididos entre o prestígio e o prazer, sempre interessados em si mesmos, como pela enorme capacidade de representar o Brasil de seu tempo, tanto o sistema social com o político. Machado se utilizou da ironia como o recurso mais apropriado para o material humano e social que estava retratando. E tornou-se, em nossa literatura, um mestre insuperável do romance e do conto, sobretudo.

E na literatura contemporânea, você vê influências machadianas em algum autor ou nossos escritores contemporâneos se influenciam mais pelas experimentações de linguagem de um Guimarães Rosa, por exemplo?
Rinaldo de Fernandes – Guimarães Rosa é um caso à parte. É o nosso autor mais inventivo no séc. XX. É, portanto, inimitável na linguagem. A psicologia machadiana é base para grandes escritores. Lygia Fagundes Telles (lembremos, por exemplo, do conto “Antes do baile verde”) e Dalton Trevisan (quase tudo nele) são autores profundamente machadianos, no meu entender.



Escrito por Correio das Artes às 08h00
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Machado com teste de DNA

Por João Batista de Brito

Um dos maiores romances já escritos, “Dom Casmurro” é, como aceitam todos, a obra-prima de Machado de Assis. De forma que – nos cinemas ou nas locadoras de DVD - o anúncio de um filme que assume a ousadia de adaptá-lo para a tela só pode deixar o leitor/espectador curioso.
A primeira tentativa de adaptação fora de 1968 e está assinada por Paulo César Saraceni, com o título de “Capitu”, um “filme de época” do Cinema Novo (coisa rara!), do qual lembro pouco, salvo que não gostei muito.
Agora é a vez desse “Dom” do novato Moacyr Góes, que estreou em 2003, mas se encontra disponível em formato eletrônico para locação.
Para garantir o direito de infidelidade (!) ao romance, os autores dos créditos do filme tiveram o cuidado de usar o termo “inpirado” (ao invés de “adaptado”), e de fato, sua narrativa contém modificações fundamentais em relação ao texto literário.
Ao contrário do “Capitu” de Saraceni, o “Dom” de Góes transpõe para a atualidade a estória de Bentinho e sua companheira de olhos de ressaca, olhos que teriam feito um pouco mais do que olhar para o amigo de infância do marido, Escobar, fato supostamente indicado pela aparência física de outros olhos, os do filho, Ezequiel.
Diferentemente do romance, o filme conclui a estória com o filho ainda pequeno, brincando com o pai, e o amigo, embora off-screen, vivinho da silva. No romance, vocês lembram, Escobar morre afogado antes de envelhecer. Presa a esta, está a mudança na idade do protagonista/narrador: como lembra o leitor, o romance é narrado em forma de recordação, com o idoso Dom Casmurro sendo assim chamado justamente por estar idoso e amargurado. No filme, o termo “Dom”, apelido de um personagem jovem do início ao final, não tem, nem poderia ter, esta motivação etária e psicológica, e é só uma referência familiar e acidental ao fato de seu pai gostar de ler Machado.
Para marcar as diferenças talvez seja interessante confrontar dois momentos equivalentes, no romance e no filme.
Ao ser atacado pelo ciúme, Bentinho decide se suicidar e põe um tipo de barbitúrico no café, que afinal não toma. Sai de casa e vai visitar a mãe doente, que encontra melhor, e de lá vai ao teatro, mais aliviado da dúvida. Ora, para seu infortúnio, a peça em cartaz é o “Otelo” de Shakespeare, como se sabe, uma tragédia sobre ciúme e morte. Embora a Desdêmona shakespeariana seja sem dúvida inocente, o conteúdo da peça reacende os ciúmes de Bentinho, que raciocina desta forma em relação ao que seria a prova (na peça, uma prova falsa) da traição de Desdêmona, um lenço: “Os lenços perderam-se, hoje são precisos os próprios lençóis”. O que advém dessa passagem fônica de “lenços” para “lençóis” é, naturalmente, a separação, Capitu sendo praticamente exilada para a longínqua Suíça.
No filme, o confronto entre o casal é feito ao meio de uma enxurrada de palavras e gestos melodramáticos, lembrando uma novela mexicana, e o ápice da discussão acontece com a sugestão, por parte da esposa, de (pasmem!) um teste de DNA. Ora, como se sabe, um dos aspectos mais fascinantes no romance de Machado é a impossibilidade mesma de se saber quem é o pai biológico do filho de Capitu, a sutileza do discurso literário investindo nessa ambigüidade. Pois no filme, o teste é feito e, convenientemente, a esposa morre num acidente de automóvel, somente para que o marido decida queimar o papel que contém o resultado do teste, para poder aceitar o que lhe resta de tudo, o filho pequeno. Como se percebe, uma tentativa inútil dos roteiristas de manter a ambigüidade do romance, tentativa esta que mais parece “emenda pior que soneto”.
Bem, já é tempo de dizer: longe da ironia, do charme intelectual e da profundidade filosófica de um romance que faz do benefício da dúvida uma questão metafísica, o filme é um completo desastre estético. Isto não propriamente porque traia o romance ao mudar elementos de seu universo diegético, mas porque é ruim em si mesmo. Mal realizado em todos os níveis, seria ruim, mesmo se não consistisse numa adaptação.
Pelo que se percebe, houve, por parte da produção, um considerável investimento nos belos olhos da atriz Maria Fernanda Cândido, e, no entanto, quando Marcos Palmeira lhe confidencia a mais famosa fala do livro, lhe dizendo que ela “tem olhos de ressaca”, a obviedade da cena, ao invés de convencer, soa ridícula.
Para ser justo, até que o filme começa prometendo. No início aquela moça (Daniela, feita por Luciana Braga) à procura obsessiva de um companheiro é engraçada, e o seu diálogo com o companheiro de trabalho, Miguel (Bruno Garcia) tem lances inteligentes que arrancam risadas das platéias. Também é legal o modo de iniciar o caso de amor dos protagonistas com pistas falsas, cada um dos dois envolvido com outras pessoas, sugerindo nisso, a diferença (uma vez indicada no diálogo dos dois personagens masculinos) entre este século e o século dezenove. Até aí o espectador supõe que a proposta do filme seja a de transformar a amarga ironia do livro em humor, uma saída talvez viável para enfrentar a aura do literário.
Na medida, porém, em que a estória se desenvolve, percebe-se que não é o caso: as falas e os personagens vão ficando “sérios”, melodramáticos, e pior, vão virando puro clichê. Por exemplo, as juras de amor entre Dom (Marcos Palmeira) e Ana (Maria Fernanda Cândido) são, no geral, intragáveis. Ao nascer a criança, o comportamento do amigo Miguel, agarrando o bebê contra si, o tempo inteiro, é óbvio, ridículo, chanchadesco. Enfim, quando se chega ao referido ápice do melodrama e a esposa sugere o teste de DNA, a solução para o espectador desapontado é passar a enfrentar o filme como uma “má comédia”, e rir mesmo, agora um riso maldoso com que, naturalmente, não contou o cineasta.
Pobre Machado.

Em tempo: publicada neste Suplemento em outubro de 2003, esta matéria foi reformatada para a ocasião.



Escrito por Correio das Artes às 07h59
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Capitu sou eu ou é ela? Afinal, quem é Capitu?

Por Moema Selma D´Andrea

Todo texto contém sempre a promessa murmurada de alguma descoberta que se oferece como recompensa. É em função dessa descoberta que se estabelecem os limites (sempre arbitrários) do que será o trabalho interpretativo.
Berta Waldman

No conto de Dalton Trevisan – “Capitu sou eu” – a primeira referência literária que nos ocorre é, sem dúvida, a célebre frase dita por Flaubert, perante o tribunal que o julgava por “elogio ao adultério”, configurado na personagem feminina de seu romance: "Madame Bovary c´est moi”. Pela recorrência matreiramente intertextual, o conto do escritor curitibano situa o leitor no clima do adultério feminino, através do mais famoso romance sobre o tema. Mas não pára por aí a referência: a intertextualidade contida no título nos remete a outro romance não menos comentado, cujos engenho e arte até hoje desafiam os críticos de Machado de Assis. Vamos então tentar desvendar os artifícios que levaram Dalton Trevisan a se servir não da temática do adultério em si, mas da singularidade da personagem Capitu, enigma feminino, cuja identidade controversa é engendrada pela imaginação retrospectiva do marido e pela fabulação do bruxo de Cosme Velho.
Resumidamente, o conto narra a relação erótica que se estabelece entre uma professora de literatura, mais velha mas não muito, e um jovem aluno tipicamente modernoso, andando de moto barulhenta, bermudão e botinas de couro, sempre atrasado às aulas e de rendimento abaixo do medíocre. Para desespero da professora, que “reconhece o tipo: contestador, rebelde sem causa, beligerante.”, ele defende gratuitamente, sem argumentos, a infidelidade de Capitu. O caso evolui para uma relação erótica sado-masoquista, até acabar com a completa degradação da personagem feminina, após ser abandonada pelo “selvagem da moto”.
O curioso, neste caso, é que Dom Casmurro, o romance e seus desdobramentos, instigam a imaginação fabular de Dalton Trevisan e sua veia paródica, dessacralizadora. Já no livro Dinorá, ”, datado de 1994 , o conto “Capitu sem enigmas” vem elaborado de forma digressiva: uma voz em off , irônica e debochada,  toma a defesa dos primeiros críticos que pugnaram pela infidelidade de Capitu, em especial Alfredo Pujol que em 1917 diz o seguinte:
[...] Dom Casmurro é um livro cruel. Bento Santiago, alma cândida e boa, submissa e confiante, feita para o sacrifício e a ternura, ama desde criança a sua deliciosa vizinha. [...] Capitu engana-o com seu melhor amigo, [...] A traição da mulher torna-o cético e quase mal” 
Ironiza a crítica atual que aponta os lances ambíguos reveladores do ciúme e da insegurança de Bentinho, levando-o à condenação de Capitu, em especial Silviano Santiago, Roberto Schwarz e John Gledson.  Cita vários trechos de Dom Casmurro, escolhidos intencionalmente, em que Bentinho elabora as provas “circunstanciais” do deslize de Capitu, como por exemplo:
Tudo fantasia de um ingênuo e ciumento? Quer mais, ó cara: a prova carnal do crime? A Bentinho, que era estéril, nasce-lhe um filho temporão – “nenhum outro, um só e único”.  Ei-lo o tão esperado: “De Ezequiel (menino) olhamos para a fotografia... a confusão dela fez-se confissão pura. Este era aquele...” Um retrato de corpo inteiro, é pouco? “Ezequiel (adulto) reproduzia a pessoa morta. Era o próprio, o exato, o verdadeiro, Escobar. Era o meu comborço; era o filho de seu pai.
Insinua lances duvidosos de D. Carolina, na cidade do Porto, ligando a esposa de Machado de Assis à infiel Virgília, a meio infiel Sofia e, para ele, à infiel Capitolina:
Só uma peralta ignara (a nova crítica) da biografia (Carolina e seu passado amoroso no Porto) e temática do autor (ai Virgília, ai Capitolina, ai Sofia) para sugerir tal barbaridade.
De forma jocosa, ele parodia duplamente a linguagem retórica de Machado, no século XIX, e hoje em desuso, ao chamar a nova crítica de “peralta ignara”, ao mesmo tempo em que se serve da mesma ironia machadiana, quando este faz uso daquele vocabulário pedante e rebuscado.Com a ajuda de um narrador de primeira pessoa, ao mesmo tempo burlesco e malicioso, aparentemente descomprometido com a teia narrativa, ou seja com a ação motivadora do enunciado, o ato paródico se instala ao projetar duas identidades de Capitu: uma, a vítima da elite provinciana do século XIX e do machismo de Bento de Albuquerque Santiago, respaldada pela nova crítica; a outra, uma personagem que possui, com a traição, a identidade bem mais atraente (segundo ele) alinhada com as grandes heroínas burguesas de Flaubert e Tolstói, também do século XIX.
Você pode julgar uma pessoa pela opinião sobre Capitu.  Acha que sempre fiel? Desista, ó patusco: sem intuição literária. Entre o ciúme e a traição da infância, da inocência, do puro amor, ainda se fia que o bruxo do Cosme Velho escolhesse o efeito menor? Pó, qual o grandíssimo tema romanesco de então, as fabulosas Ema Bovary e Ana Karenina. [...] Inocentar Capitu é fazê-la uma pobre criatura. Privá-la de seu crime, assim a perfídia não fosse próprio das culpadas? Já sem mistério, sem fascínio, sem grandeza. Morreu Escobar não das ondas do Flamengo e sim dos olhos de cigana oblíquos e dissimulados. Por que os olhos de ressaca, me diga, senão para você neles se afogar? [...] Se a filha de Pádua não traiu, Machadinho se chamou José de Alencar.” 
Nos trechos citados, o deboche do narrador se detém na escolha implícita do autor (ao manejar os cordéis da ficção) determinando a perfídia de Capitu, através da memória retrospectiva e sem lacunas de Bento Santiago. A paródia se afirma, inclusive, quando este narrador, dialogando com um emissor que não se manifesta enquanto textualidade, simula a voz autoritária de Bentinho, narrador unilateral, que também simula um diálogo com o leitor. Aprofundando o ato paródico, debocha do romantismo alencarino; Machado de Assis é chamado, jocosamente, de “Machadinho”, ombreando sua estatura literária à de Alencar.
Advoga para Machado a filiação, sem mais nem menos, à corrente realista daquela época, desprezando conscientemente as armadilhas retóricas, a densidade psicológica e o chão social que se inscreve nos romances do escritor fluminense. Inclusive fazendo pouco caso da mimese realista que alinhava o contexto dos grandes romances europeus e do contexto brasileiro, onde não cabiam heroínas trágicas do porte e Ana Karenina e Ema Bovary.  Dalton Trevisan, ele mesmo um realista do conto contemporâneo, cujo olhar crítico e descritivo flagra as contradições do urbanismo provinciano de Curitiba, e que segundo Berta Waldman: “[... insere-se, historicamente, na linguagem desconfiada do realismo de um Flaubert, ou de um Machado de Assis]” 
Ao fazer pouco caso das ambigüidades retóricas da escritura machadiana e ao se apropriar da personagem feminina de Dom Casmurro para seu deleite paródico, Trevisan retira o enigma de Capitu e do famoso romance que, segundo Roberto Schwarz,
[...] tem algo de armadilha, com lição crítica incisiva – isso se a cilada for percebida como tal. Desde o início há incongruências, passos obscuros, ênfases desconcertantes, que vão formando um enigma. 
Diferentemente de “Capitu sem enigmas”, o conto “Capitu sou eu” tem como estratégia retórica um narrador onisciente habilmente camuflado numa máscara de distanciamento. As frases curtas, as construções elípticas, principalmente as omissões propositais dos verbos, o ritmo ágil, cinematográfico, tudo concorre para moldar esse narrador que, dos bastidores, faz a luz dos flashes incidir sobre os personagens. São eles que levam a ação às últimas conseqüências. A relação ambígua da personagem machadiana é reelaborada em outra experiência, desta vez contemporânea, e aparentemente sem ambigüidade, uma vez que suas ações amorosas são amplamente descritas, fazendo jus às conquistas femininas dos anos sessenta do século XX para cá. A ambigüidade permanece na condição feminina atual, que se triparte entre exercer uma profissão, ser mãe de família (tem um filho que mora com ela) e ser uma mulher divorciada, ao mesmo tempo em que tem dentro de si o estopim erótico da fêmea. Tal como é definida a outra Capitu, ela é igualmente sedutora e vítima. Na sala de aula, abomina o comportamento do aluno:
“[...] o único que sustenta a infidelidade de Capitu. Confuso, na falta de argumentos supre-os com veemência e gesticulação arrebatada: infiel, a nossa heroína, pela perfídia fatal que mora em todo coração feminino. Insiste na coincidência dos nomes: Ca-ro-li-na, da mulher do autor (com os amores duvidosos na cidade do Porto), e o da personagem Ca-pi-to-li-na...
A traição da pobre criatura, para ele, é questão pessoal, não debate literário, ou questão psicológica. Capitu? Simples mulherzinha à-toa. “Mulherzinha, já pensou?” ela se repete, indignada. “Meu Deus, este sim, é o machista supremo. Um monstro moral à solta na minha classe” E por fim: “Ai da moça que se envolver com tal bruto sem coração.”
Mas, como o outro Bentinho que se narra descrevendo-se tímido e ingênuo em relação à sagacidade e coragem mental de Capitu, este exemplar do sexo masculino, versão século XX, é descrito pelo narrador como: “[...] na verdade, um tímido em pânico, denunciado no rubor da face, que a barba não esconde. E, aos olhos dela, o torna mais atraente, um cacho de cabelo negro na testa.” Como presença masculina na pele do aluno seduzido/sedutor, o narrador elege a voz feminina com destaque nos diálogos, em que a fala masculina, aparentemente lacunar, é assinalada por um sinal de interrogação, várias vezes reiterado na sucessão dos diálogos.
E como a outra Capitu, essa anônima professora conturba o aluno com um comportamento dual:
Nas aulas, por sua vez, ela que o confunde: sadista e piedosa, arrogante e singela. Sentada no canto da mesa, cruza as longas pernas, um lampejo de coxa imaculada. E no tornozelo esquerdo, a correntinha trêmula – o signo do poder da domadora que, sem o chicotinho ou pistola, de cada aluno faz uma fera domesticada. Elegante, blusa com decote generoso, os seios redondos em flor – ou duas taças plenas de vinho branco?
À medida que a relação amorosa evolui, o papel de dominadora, inclusive intelectual, vai se invertendo e ela fica à mercê dos seus próprios desejos e do erotismo da situação: “ Escrava, sim, rastejadora e suplicante ou professora despótica ainda na cama:” E à medida que caem suas defesas morais, sua auto-estima também se desfaz:
Pela manhã, depois que ele se vai, chora de vergonha. “Como eu fui capaz... Não só concordei. Quem acabou tomando a iniciativa? Só eu. Euzinha. Não jurei que nunca, nunca eu faria... Meu Deus, como beijar agora meu filho? Ó Jesus, sou mulherzinha à-toa? Eu culpada. Eu... Capitu?

Ao fim da relação, configurada também pela rejeição e conseqüente abandono, o narrador constata algo que também poderia ser dito a Capitu de Dom Casmurro: “Sem perdão ela foi condenada, sequer o benefício da dúvida.” E logo mais adiante reafirma a intertextualidade: “Ai dela, mesma situação da outra, enjeitada lá na Suíça pelo bem-amado, desgracido machista.” Meio na troça, meio a sério, ele referenda a posição da nova crítica que aponta a posição de classe e a cultura patriarcal (entre outras coisas) como a causa reveladora do machismo de Bento Santiago.
Afinal, sem mais defesas, a professora capitula naquilo que seria essencial à sua dignidade – a coerência profissional - e confere ao mau aluno os louros literários: “[...] apesar da péssima prova, graduado por média, com distinção em Literatura.”. Resta ainda a essa Capitu moderna a derradeira das humilhações: “E, última tentativa de reconquistar o seu amor, publica na Revista de Letras um artigo em que sustenta a traição de Capitu.”
É evidente que o conto dialoga com a Capitu do Dom Casmurro; um diálogo áspero, paródico, em que o modelo original é distorcido, como uma imagem vista nesses espelhos dos parques de diversão. Deformada de maneira grotesca, a identidade de Capitu é fragmentada em outras identidades ficcionais, adúlteras e/ou sedutoras, forjadas pela tradição da literatura clássica na qual se insere o escritor fluminense.
O que está em jogo, nos parece, é a condição feminina e o desgaste das relações amorosas e sociais numa sociedade em que a mulher é duplamente reificada: no geral, pela estrutura machista que a mantém e subjuga; no particular pela relação a dois. O que mudou do século XIX para cá? Na ficção, fiel ao modelo machadiano, ambas Capitus são punidas: uma com o desterro de luxo na Suíça; a outra transformada numa “mulherzinha à-toa” na boca do aluno machista, e tal como a Capitu de Mata-cavalos que estava “dentro da outra, como a fruta dentro da casca”, segundo a definição de exemplar determinismo de Bento de Albuquerque Santiago.
Como diz, Berta Waldman a respeito da temática de Dalton Trevisan: “Postos frente a frente (cena) homem e mulher, em situação de peleja amorosa, reiteram sempre a relação minada.” Em relação ao seu modus operandi ficcional, a apropriação acima demonstrada é reveladora de que Trevisan está consciente de que toda representação oculta, por trás da máscara narrativa, a soberania das escolhas do autor, ou como diz Maria Lúcia Dal Farra: Manejador de disfarces, o autor camuflado e encoberto pela ficção, não consegue fazer submergir somente uma característica – sem dúvida a mais expressiva – a apreciação. Para além da obra, na própria escolha do título, ele se trai, e mesmo no interior dela, a complexa eleição dos signos, a preferência por determinado narrador, a opção favorável por esta personagem [...] denunciam sua marca e sua avaliação. 
A Capitu de Machado será sempre um enigma na nossa literatura: decifra-me ou permaneço desafiando-te. E o autor sempre poderá dizer: Capitu sou eu, sedutora e indefinida. Já a Capitu de Trevisan é explicitamente vítima do “Bentinho”, decalcado no machista do século XX, o que confirma a paródia da condenação de “Capitu sem enigmas “ e o diálogo intertextual do autor curitibano com o autor de Dom Casmurro.



Escrito por Correio das Artes às 07h58
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LITERATURA

A fala mansa da poesia

Por Amador Ribeiro Neto

Barthes já nos advertiu, no livro “Aula” (editora Cultrix, tradução de Leyla Perrone-Moysés), que literatura é "trapaça com a língua".  Daí depreendemos que o poeta deve falar a língua de sua época e dar ao leitor a oportunidade de concluir: "assim é que eu falaria se pudesse falar em verso", como sintetiza T. S. Eliot. Isto talvez justifique por que curtimos tanto a poesia contemporânea e por que ela nos dá a sensação de plenitude – muitas vezes, mais até do que a poesia de outras épocas  históricas.
Drummond, com sua fala mansa ou ácida, cabocla ou cosmopolita, monossilábica ou polimétrica, sussurrada ou vociferante, toca o leitor. Impossível não dar ouvidos a este sinfonista da poesia.
Também na música popular uma canção é tanto mais bela quanto mais se aproxima da língua falada. Para Luiz Tatit, a canção é a “fala camuflada em tensões melódicas”. Uma canção deve ser cantada com naturalidade, como se fizesse parte de uma conversa. Talvez por isto mesmo todos nós nos achemos no direito de sempre cantarolar alguma coisa.
A manutenção do extrato da fala na melodia da canção é o que lhe confere verossimilhança. Enfim, canta-se como se fala. "A música do verso não constitui um assunto possível de ser tratado verso a verso, mas uma questão que se refere à totalidade do poema. Apenas com isso em mente é que podemos abordar a controversa questão do modelo formal e do verso livre", pontua T.S. Eliot. E complementa: "As propriedades da música que mais interessam ao poeta são as da noção de ritmo e de estrutura".
Eis aqui um elemento importante para a distinção entre a música da poesia e a música da canção popular. Enquanto na poesia o ritmo e a estrutura configuram o corpo do poema, na canção a melodia instrui o texto e o texto instrui a melodia, equalizando palavra e melodia, sem distinções e sem gradações entre elas.
Uma canção não é uma entonação nem é um canto. A canção pulsa na linha de tensão entre o falar e o cantar. Já a poesia fica aquém da canção e além da fala. Ela toma da fala a freqüência e a duração para extrapolá-la no corpo da palavra. "A poesia", diz Pound, no célebre “ABC da Literatura” (editora Cultrix, tradução de Augusto de Campos)  "se atrofia quando se afasta muito da música". E complementa: "Há três espécies de melopéia, a saber, poesia feita para ser cantada; para ser salmodiada ou entoada; para ser falada. Quanto mais velho a gente fica, mais a gente acredita na primeira".
Na poesia, um belo ritmo só tem funcionalidade poética se vier estruturado nos liames da palavra. Na poesia a palavra enquanto campo semântico pulsa mais forte que a palavra enquanto significante sonoro. O tema da canção aparece muitíssimo na poesia de Drummond. Desde o título até no corpo de vários poemas. Sem dúvida, poesia é música (diria mais: é canção) para o poeta itabirano.
Além do contorno semântico (como a citação de instrumentos musicais e a utilização de termos próprios da música), a exploração das redondilhas maior e menor assegura outro caráter musical aos poemas. Não é a troco de nada que José foi o poema responsável pela popularização de Drummond. Neste poema as anáforas imprimem uma dinâmica rítmica que acelera o movimento imagético e conceitual de desembocadura no refrão agoniado. Por isto mesmo o eu-lírico enunciador do poema funciona como o machado de uma câmera cinematográfica, recortando e pondo em close imagens que se atropelam no encadeamento melopaico. Tal procedimento iconiza o percurso de desesperos (no plural) de José.
Ao mesmo tempo, o espaço em que José se locomove é limitado, forçando-o a forjar uma saída. No entanto, as possibilidades de alcançar espaços libertadores são apenas evocações que se desintegram no momento seguinte à enunciação. Os contrastes entre substantivos concretos e abstratos realçam a inquietação histórico-existencial de José: terno de vidro e incoerência; biblioteca e instante de febre; lavra de ouro e jejum, etc. Este Drummond gruda na gente.



Escrito por Correio das Artes às 07h57
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LITERATURA

Canção de Fogo Rides Again
 

Por Ildásio Tavares

Conheço há algum tempo Miguel Carneiro e me compraz seu talento criador e sua dignidade de ser si mesmo; sua capacidade de enfrentar de cara o pantanal que literário; sua valentia. O conhecia como poeta, inclusive de versos traduzidos ao francês. Descubro-o como ficcionista, dramaturgo e cineasta, e até pergunto se esta última não é uma veia de Riachão de Jacuípe, terra do imenso Olney São Paulo, tão cedo roubado de nosso convívio, e dos filhos deste Irving (que também já partiu) e Ilya, parceiro de Miguel no curta que tem o nome do seu rincão.
Mas é o ficcionista que me chega às mãos, agora, para a leitura prazerosa e cativante, O Coronel já não manda mais no trecho, uma novela calcada no cinema direto do sertão; em seus personagens arquetípicos e emblemáticos que Miguel soube, com justeza, retratar. E com aquela justeza pertinente, orgânica, de dentro pra fora, em que o grotesco supera o pitoresco e a deformação ganha da simples caricatura - é muito mais uma forma de expressionismo forte do que a exploração do anedótico. Os personagens de Miguel vivem. Na abertura da novela, em pouco mais de uma página, Miguel traça um perfil cinematográfico - glauberiano - do Coronel Trazibulo Fernandes da Cunha (olha só o nome) em que desce a detalhes que só um sertanejo poderia conceber. Depois de descrever, minuciosamente, o traje do Coronel, o narrador conclui: "Tinha a estampa de um barão da renascença veneziana", o que agrega um elemento de fantasia ao processo, um comentário de Comedia dell'Arte.
Mas é justamente pelo território do dramático que trafega a carruagem de Miguel, bem como as diligências do velho oeste, descortinando a interação da paisagem adusta do sertão com a paisagem sempre rica dos seres humanos que ganham até genealogia na novela, mesclando elementos de ficção a elementos históricos, e que, salvo erro ou omissão, a família de Miguel comparece  ao pódio. Vejo a preocupação de amarrar a narrativa ao real, sem contudo partir para a mera fotografia ou reportagem. Miguel narra e distorce. E nisto é ajudado pelo domínio que tem do linguajar sertanejo que esgrime com perícia, palavras e expressões corlocalistas que tingem a novela.
Este clima expressionista descamba afinal para o realismo mágico, bem a vezo do misticismo católico deste povo do interior, quando surge em cena a figura do espírito de Antino Soares, do Padre Viriato e de São Roque, este primorosamente descrito a partir de sua imagem no tradicional santinho, com o cachorro lhe lambendo as feridas. Fecha-se o mundo surrealista. As potências transcendentais se apresentam para combater o mal imanente. A novela de Miguel é mais um capítulo da luta do bem contra o mal, do povo contra seus opressores. Com o technicolor verdadeiro do sertão.

Ildásio Marques Tavares nasceu na região do cacau, Fazenda São Carlos, hoje cidade de Gongogi, a 25 de janeiro de 1940 os primeiros estudos foram feitos em Feira de Santana onde leu todo Monteiro Lobato infantil até os 9 anos.



Escrito por Correio das Artes às 07h57
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6 poemas de Machado de Assis

Círculo vicioso

Bailando no ar, gemia inquieto vagalume:
"Quem me dera que eu fosse aquela loira estrela
Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!"
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:

"Pudesse eu copiar-te o transparente lume,
Que, da grega coluna à gótica janela,
Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela"
Mas a lua, fitando o sol com azedume:

"Mísera! Tivesse eu aquela enorme, aquela
Claridade imortal, que toda a luz resume"!
Mas o sol, inclinando a rútila capela:

Pesa-me esta brilhante auréola de nume...
Enfara-me esta luz e desmedida umbela...
Por que não nasci eu um simples vagalume?"...


Carolina

Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida,
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs o mundo inteiro.

Trago-te flores - restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados.

Que eu, se tenho nos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos.


Flor da mocidade

Eu conheço a mais bela flor;
És tu, rosa da mocidade,
Nascida aberta para o amor.
Eu conheço a mais bela flor.
Tem do céu a serena cor,
E o perfume da virgindade.
Eu conheço a mais bela flor,
És tu, rosa da mocidade.

Vive às vezes na solidão,
Como filha da brisa agreste.
Teme acaso indiscreta mão;
Vive às vezes na solidão.
Poupa a raiva do furacão
Suas folhas de azul celeste.
Vive às vezes na solidão,
Como filha da brisa agreste.

Colhe-se antes que venha o mal,
Colhe-se antes que chegue o inverno;
Que a flor morta já nada val.
Colhe-se antes que venha o mal.
Quando a terra é mais jovial
Todo o bem nos parece eterno.
Colhe-se antes que venha o mal,
Colhe-se antes que chegue o inverno.


Relíquia íntima

Ilustríssimo, caro e velho amigo,
Saberás que, por um motivo urgente,
Na quinta-feira, nove do corrente,
Preciso muito de falar contigo.

E aproveitando o portador te digo,
Que nessa ocasião terás presente,
A esperada gravura de patente
Em que o Dante regressa do Inimigo.

Manda-me pois dizer pelo bombeiro
Se às três e meia te acharás postado
Junto à porta do Garnier livreiro:

Senão, escolhe outro lugar azado;
Mas dá logo a resposta ao mensageiro,
E continua a crer no teu Machado.


Horas vivas

Noite: abrem-se as flores . . .
Que esplendores!
Cíntia sonha seus amores
Pelo céu.
Tênues as neblinas
Às campinas
Descem das colinas,
Como um véu.

Mãos em mãos travadas,
Animadas,
Vão aquelas fadas
Pelo ar;
Soltos os cabelos,
Em novelos,
Puros, louros, belos,
A voar.

— "Homem, nos teus dias
Que agonias,
Sonhos, utopias,
Ambições;
Vivas e fagueiras,
As primeiras,
Como as derradeiras
Ilusões!

— "Quantas, quantas vidas
Vão perdidas,
Pombas mal feridas
Pelo mal!
Anos após anos,
Tão insanos,
Vêm os desenganos
Afinal.

— "Dorme: se os pesares
Repousares,
Vês? — por estes ares
Vamos rir;
Mortas, não; festivas,
E lascivas,
Somos — horas vivas
De dormir. —"


Livros e flores

Teus olhos são meus livros.
Que livro há aí melhor,
Em que melhor se leia
A página do amor?

Flores me são teus lábios.
Onde há mais bela flor,
Em que melhor se beba
O bálsamo do amor?



Escrito por Correio das Artes às 07h56
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2 poemas de Marcos Tavares

Declaração

(Para as meninas da noite que iluminaram meus dias)

Junto dos vossos, senhores,
Meus amores falsos de neon
Nem lembram estrelas.
Amo burocraticamente
E como tal, contabilizo
Mais lágrimas do que riso em minhas escrituras.

Junto aos vossos, senhores,
Amores domesticados,
O meu, felino, arranha;
Se emaranha nas teias, mal educado arrota à mesa.

Não há regras, senhores
Para amores escusos.Lençóis sujos.corpos suados
E uma inevitável aura de pecado exalada.

Não há nada, senhores,
Que me limpe a alma
Nem essências que me tirem
Esse fedor de esgoto,
Esse escroto gosto nos lábios.


Prendas

O anel que tu me destes
De um dourado duvidoso
Sumiu dos dedos nodosos
Que tanto acariciaram.

Tentas e tão finas carícias
Que teu corpo, povoado de sonhos e mágoas
Repousava aliviado.

O anel que tu me destes
Brilhava menos que a gosma
Com que pregavas palavras
Nos meus ouvidos cansados.

Muito fino e reluzente
O anel que havias dado
Caiu do dedo cansado
De tanto carinho urdido

Urdido, e bem muito urdido
Pois como aranha tecia
A fina teia em que vinhas
Para meus braços, enredados.

Marcos Tavares é poeta paraibano



Escrito por Correio das Artes às 07h53
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5 poemas de Marcílio Medeiros

Recife revisitada

Dos arrecifes, em que começo e acabo
e recomponho a trama da carne
crepitam as setas que matam e glorificam

espelho, confissão e segredo
aurora e sol a derreter-se
em dias passados

Distante, olho-te dentro
ruas, pontes, álbum de fotografias
do que passo e permaneço

A placa de água morena
do rio embriagado e bebido
possui meu nome em naufrágio

alcunha derramada e salgada
de camarão e mar que se arrebenta
e se recolhe na barreira coralínea que me toma.

Penso-te empedernida e abstrata
dama voluptuosa e casta a estender os braços
na armada de idas e chegadas.


Movimento

Só me encontro quando parto, quando deixo
de mim o que está certo, o espelho em que me vejo.
Só chego a mim no caminho, no lufar das velas
que desprendem barcos em ondas despertas.

Só me contemplo inteiro no reflexo difuso
e conheço o nome na flecha em movimento.
Só creio amplo o que é mesclado, impuro
e sinto a concretude da carne no pressentimento.

 

Posse

A posse interrompe a maravilha:

abater o amante
com a lança atingi-lo
e devorar o seu corpo semivivo.


Diálogo

Apodera-te do recurso
a este diálogo único:

capturar a palavra
que digo com a minha boca
colada à tua
e saboreá-la comigo.


Chamado

Como hei de chamar-te?

Arremessando teu nome
o sem-número de vezes
de cravá-lo na história?

Ou responderás
aos meus lábios
movendo-se sem som?

Terei, optando pela calada,
de fechar a cela
esquecer as chaves
e deixar o corpo latejando?


Marcilio Medeiros é Potiguar, radicou-se no Recife aos seis anos



Escrito por Correio das Artes às 07h51
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ENSAIO

O amor entrou em crise

Por Reny Barroso

Vou falar agora de amor. Da falta de amor...
Das paixões. Das suas reações, das suas necessidades...
Da crise pela qual passamos, e pela qual passam esses sentimentos há séculos, diga-se...
Falarei em prosa, em poesia, em verso, em canção, em cordel...tentando, quem sabe assim, decifrar e desvendar todas as linguagens...
Não falarei em meu nome, nem em seu nome. Falarei em nós, em todos nós, seres amáveis, amantes... Seres fracos, necessitados, egoístas, narcisistas...Sim...nós...seres nefastos, horrendos..vis...
De onde se saem palavras, saem também sentimentos. Mas...o que serão eles? Para quem foram destinados quando assinadas suas devidas sentenças? Existirá em tais atos primários algum viés de lealdade? Haverá no amor, esse amor carnal, sublime, incondicional...que se vende na farmácia, algo de puro e casto?
(...)
A pergunta que não quer nunca calar é: o que é o amor? Poetas renomados tentaram por várias vezes, em prosa, em verso, decifrar tal sentimento. Pintores quase celestiais buscaram retratá-lo em telas a tinta e óleo, e até em vitrais. Escultores gregos perseguiram sua personificação. Compositores talentosos prosearam em melodias os acordes desse sentimento...e todos não obtiveram êxito em suas tarefas... . Impossível, então, sair sua resposta em palavras tão brutas e ralas como essas....
Pode-se dizer que o amor é como um demônio...que quando quer se apossa de seu pensamento, por completo...toma suas atitudes para si...te faz perder o controle...a vergonha...te leva ao inferno, sem sequer um Virgilio como guia. É mesmo um desatino esse tal do amor!
(...)
A verdade é que, camarada, estamos em crise! Uma crise de sentimentos.
Que façam pôr em prática A Arte de Amar, de Ovídio. Que ressuscitem a coragem de Romeu e Julieta. Que personifiquem Afrodite em um ser real. E que façam dela musa inspiradora.
Que ponha em cada homem um pouco de Drummond e de Chico Buarque. Que ponha também um muito de Vinicius. Que toda mulher saiba ser um pouco Lady Dy e tenha um muito de Marylin Monroe. Que todo romance seja adúltero como o de Capitu e Bentinho, e casto como no Amor nos tempos do Cólera.
Que todo amor seja como em Veneza, sem restauração, proibido e estimulado, invadido de crise como de festa brava.
Que essa crise não chegue aos adolescentes. Que eles saibam, ainda e para sempre, amar eternamente e de forma compulsiva e devoradora. Pois, eles ainda acreditando no amor, nos resta uma esperança. Que continuem dizendo Je t’aime a todos os seus namoricos e que jurem amor eterno a cada beijo dado. Que todo sexo seja o melhor e o único. Que acreditem em casamento e sonhem em envelhecer com seu primeiro namorado. Só assim preservaremos esse sentimento. Só assim, os Cem Sonetos de Amor poderão se multiplicar e quem saber tornarem-se mil sonetos de amor.
Rezemos... não apenas rezemos, supliquemos para que se cometam mais Crimes de Amor e que todo marido volte a ser complacente. Que a crise não invada a casa daqueles que ainda sonham com alguém que nunca tiveram. Que não se deixe pular os anos e chegar aos corações dos eternos amantes, que mesmo depois de décadas, continuam a esperar o seu amor.
Que a Mulher de Trinta Anos continue a esperar o seu Querido Canalha. Que Ana Karenina traía, e traía sempre para assim se sentir amada. Que o Primo Basílio retorne de viagem, encare a doença, encare o marido, encare a sociedade por mais um beijo, por apenas mais um grito de amor.
A crise que aparece e que muito nos admira por sua profundidade e alcance, instala um caos em todos os apaixonados que ainda acreditam em juras de amor.
Mas, meu Caro Amigo, não se assuste! Ainda hei de lhe escrever para confirmar que há aqueles que ainda esperam Uma estação de Amor, que nunca perderam suas ilusões. Por mais absurdo que possa parecer para os mais céticos, ainda existem remanescentes do velho e bom Delírio Amoroso. Dêem graças a eles. São os nossos salvadores. Por eles ainda batem corações. Neles ainda sobram suspiros apaixonados. E que nunca cessem...
Sim, não sejamos tão radicais...deixemos que haja Intervalos Amorosos, mas que estes não se demorem muito. Que a crise pela qual estamos passando não deixe as Histórias de Amor esperarem por muito tempo. Que ela não impeça de dançarmos uma Valsinha, Sem Fantasia, sem pudor algum. Que Lígias, Luísas, Cecílias, Carois, Januárias...todas elas continuem a esperar na janela. Continuem a dançar, a ler poemas, a escrevê-los...
Que Lucíolas e Helenas se percam em seus pecados, que continuem buscando sua independência no amor.
Que as Cartas a Nelson Algren não se percam nos correios amorosos, que vejo, estão em greve. Nem que nenhuma carta seja roubada, se nela conter pactos de amor e de sangue.
Que Meninas Más continuem a fazer suas travessuras pelo mundo, sempre a espera de mais uma ricardito para desiludi-lo.
As promessas de amor eterno! Onde estão essas promessas?. Por Deus, apareçam! Gritem...chorem debaixo de chuva...precisamos delas...precisamos de volta os contos fantásticos dos Irmãos Grimm...precisamos dar a volta ao mundo em 80 dias para ver se n’algum lugar ainda resta algum amor, alguma promessa, alguém que ainda seja capaz de dar um beijo ressuscitador, de domar a Megera Indomável, que em tempos de crise se mostra ainda mais rebelde.
Alguém aí, por favor, grite por Agatha Cristie, quem sabe ela não consiga resolver, num Passe de Mágica, o grande mistério em torno dessa crise. Mandem uma Mensagem, solicitando mais pílulas de amor, mais maças envenenadas, mais flechas que caiam certeiras nos corações dos mais rudes.
De quem será a responsabilidade por essa crise? Das mulheres? Pois chamem Balzac para desnudá-las, e dêem à Lolita a oportunidade de ensinar-lhes seu jogo de sedução. Será dos homens? Pois que venha a nós novamente os sábios conselhos de Nelson Rodrigues e o infalível charme de Dom Juan.
É amigos, estamos em crise. E ela nos acompanha desde sempre, e, (que medo) para sempre. Já são mais de Cem anos de Solidão. Nunca mais 120 dias de Sodoma. A Espiã na Casa do Amor se aposentou sem aviso prévio, para nosso desespero.
Uma crise, e uma crise que teima em se mostrar a tudo e a todos. Que não escapa nem à Mulher mais Linda da Cidade...
Mas, há esperanças. O otimismo de Cândido nos faz ter uma esperança. O amor, assim como o diamante, continua eterno. Ainda há um último e salvador Amor de Perdição. Ainda há quem cante Eu te Amo, quem recite (e viva) a Toada do Amor e os Sonetos para amar o amor, por que não?.
Ainda há quem teime em não viver uma Lua de Fel, quem sonhe com um desconhecido tal qual Amelie Poulain o fez... Sim, para nosso conforto, ainda haverão Dias e Noites de Amor e Guerra.
Porque sempre haverá paixões e amor às tontas – não importa a frieza com que hoje nos tratemos. Ainda há, e sempre há de existir, a luva que (sempre) servirá para aquela mão.



Escrito por Correio das Artes às 07h48
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LITERATURA

O advento do novo Cordel

Por Manoel Monteiro

Devido às dimensões continentais do Brasil, somos um país de diversidade cultural fantástica. Na culinária, nos folguedos, nas crendices, no falar e nos costumes gerais temos a cara de quase todos os povos. Desse modo algumas manifestações disseminam-se de tal forma que verdeamarelizam-se (como diria o poeta Jessier Quirino) passando a ter voz e rosto tupyniquins. Este é o caso do folheto de feira que chegou aqui nos porões das caravelas portuguesas e de folhetim passou a folheto, folheto este que ganhou o apelido de cordel e transferiu-se das feiras livres para as livrarias, bancas de revista e escolas.
Tudo evolui. O “folhetinho” não poderia ficar imune ao poder transformador do tempo. Eu, que sou da velha guarda, me lembro muito bem quando o folheto era o jornal do povo. Não só o jornal, mas a revista humorística, o almanaque, cheio de curiosidades e previsões metereológicas, e de livro didático. Muitos de nós aprendemos a ler nos cordéis.
Na minha infância matuta tive dois livros de cabeceira: A Carta de ABC e o folheto d’O Pinto Pelado, de João Ferreira de Lima (1902-1973). Do Pinto de João vem-me a memória: “Minha galinha pedrez/ do Brejo da Bananeira/ pôs em uma sexta-feira/ 20 ovos duma vez/ no dia 20 do mês/ deitei ela com cuidado/ se eles não têm gorado/ me dava um bom “paládio” (?)/ só tinha um ovo sadio/ nasceu um pinto pelado.// Quando esse pinto nasceu/ comeu um litro de milho/ e beliscou um novilho/ que o couro do pé desceu/ um galo se atreveu/ exemplá-lo nesta hora/ o pelado disse, agora/ no bico vou enfrentá-lo/ deu um beliscão no galo/ arrancou-lhe a crista fora”. É um clássico do gracejo poético.
Aquele Pinto Pelado, do astrólogo e poeta João Ferreira, fez-me tomar gosto pela leitura. Como jornal era então de acesso difícil ao povão, o cordel noticiava os fatos políticos, os desastres naturais, as guerras.

Folheteiro “novo rico” com a morte de Getúlio Vargas
Em agosto de 1954 eu estava com 17 anos e sobrevivia itinerante de escrever e vender folhetos de feira em feira. Aproveitei o evento trágico do suicídio de Vargas e escrevi um folheto de época. Fui o primeiro folheteiro (assim eram conhecidos os que escreviam e vendiam poesia sertões a dentro) a chegar na feira de Campina Grande-PB com  a morte de Getúlio  cordelizada. Começava assim: Eloim me encaminhai/ Em tuas veredas larga/ Para eu descrever em versos/ As últimas horas amargas/ Da vida do Presidente/ Getúlio Dornelles Vargas... //
Pelas circunstâncias que motivaram a “história” - porque fui o primeiro a chegar com ela na feira e porque o folheto era o jornal do povo - dentro de poucos dias, vendi 11 mil exemplares da morte de Getúlio. Ganhei vida nova como autor festejado e como “novo rico” da praça. Do fumo de Arapiraca passei para o cigarro Astória e da cachaça brejeira pulei para a cerveja gelada (hoje me abstenho dos dois) Por um breve tempo eu fui “rico, rico, rico de mavé, mavé, mavé”. Falo disso movido pela saudade da juventude e para reavivar a importância que o cordel teve e tem no panorama cultural da nossa gente.
Na ausência de outros entretenimentos, à noite, nas casas de fazenda, vilarejos e periferias das grandes cidades o povo se reunia para ouvir A História do Boi Leitão ou O vaqueiro que não mentia (Francisco Firmino de Paula 1911-1967): “Numa cidade distante/ há muito tempo existiu/ um distinto fazendeiro/ o mais rico que se viu/ e tinha um jovem vaqueiro/ homem que nunca mentiu...// O autor prossegue por 384 versos heptassílabos até a conclusão da história quando o incorruptível vaqueiro Dorgival casa com a filha do fazendeiro e vão viver felizes para sempre. O final apoteótico e esperado deliciava a platéia e o folheto cumpria a sua sublime missão de divertir e incentivar a moral e os bons costumes. Dentre outras coisas é para isso que a literatura serve.

Folhetos nem tão licenciosos assim
Em tempo, ocorre-me que esse poeta Francisco Firmino - o autor do Boi Leitão - apropriou-se do recurso do pseudônimo quando escrevia versos que achava licenciosos, avançados, apelativos, de duplo sentido, enfim. Escondia-se por trás de H. Romeu, H. Rei, H. Renato. Experimentem esta amostra de licenciosidade (?) que está no seu cordel A moça que virou cabra no sertão do Ceará: “E a cabra quando chega/ Aonde tem um forró/ Bota o povo pra correr/ De ninguém ela tem dó/ Outro dia se agarrou/ Com um rapaz e furou/ Bem perto do fiofó...” Fiofó é um apelido carinhoso que aqui pelo Nordeste colocaram em ânus.
Como sempre digo: quando um cordelista extrapola no duplo sentido sua obra poderá ser declamada, sem constrangimento, na missa dominical. Em relação à pornografia, do cordel para a televisão há a distância que separa o céu do inferno. Voltaremos ao assunto duplo sentido, porque agora, o que desejamos é mostrar a diferença do cordel de ontem para o cordel de hoje. Deixemos claro, métrica, rimas e coerência no assunto exposto são – imexíveis. Lembram de alguém?

Novo Cordel: temática e linguagem do séc. XXI
O que estamos constatando, por sinal, com extrema alegria, é que muitos cordelistas, no momento, estão produzindo textos atuais, cheios de sensibilidade poética e obedientes às regras que caracterizam este estilo literário, sobretudo, construindo versos com uma linguagem século XXI. É o que chamo: Novo Cordel. Este Novo Cordel que está sendo feito pelo Ceará, Rio Grande do Norte, Rio de Janeiro e São Paulo, principalmente, já não fala de Pavões Misteriosos e Bois Mandingueiros, nem de cangaceiros, beatos, Malazartes ou guerreiros medievais e, se fala, atualiza os contos para que o leitor jovem os entenda. Isto porque, cordel hoje, está sendo consumido pela estudantada; os professores descobriram que o cordel, pela graça poética e pela atração natural da linguagem vem se portando como auxiliar maravilhoso em sala de aula. Escolas de todos os quadrantes do país estão admitindo o cordel como paradidático. Incentivar o hábito da leitura é uma tarefa que o cordel desempenha a contento.
Corroborando este Novo Cordel que surge afloram títulos como: Presidentes do Brasil – De Deodoro a Sarney, de Homero do Rego Barros; A Era do Feudalismo, de Medeiros Braga; Gramática no cordel, de Janduhy Dantas; A Gramática em cordel, de José Maria de Fortaleza; 100 Dúvidas de Português, este, um ajudante indispensável a todos que lidam com a palavra escrita, nem poderia ser diferente, pois o seu autor é nada menos do que Geraldo Amâncio o mais arguto e completo violeiro e cordelista da atualidade.
Nesta afluência de Novos Cordéis contam-se Salvem a Fauna, Salvem a Flora, Salvem as Águas do Brasil e Manual de Primeiros Socorros, neste, as estrofes 54 e 55 dão à receita do bom viver quando dizem: Legumes, frutas, verduras/ Água, leite e exercícios/ Trazem grandes benefícios/ A todas as criaturas,/ Passar longe das gorduras/ Comer pouco, dormir cedo,/ De açúcar e sal ter medo,/ Bebida e fumo? Nem vê/ Eis um resumo de que/ Viver bem não tem segredo.// Uma breve caminhada/ Pela manhã ou a tarde/ Na hora que o sol não arde/ Faz bem e não custa nada/ Com uma roupa adequada,/ Sapato próprio ao evento,/ Tomar água no momento/ E é bom não esquecer/ De antes e ao fim fazer/ Um pouco de alongamento.//
Adotássemos como conduta de vida a orientação destes simples versos certamente os hospitais não estariam sobrecarregados, teríamos mais saúde e mais tempo livre para lermos o Novo Cordel.

Manoel Monteiro é, membro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, do Instituto Histórico e Geográfico do Cariri Paraibano, é o maior expoente do chamado “Novo Cordel”, divulgando-o hoje do ensino fundamental à universidade.



Escrito por Correio das Artes às 07h47
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LITERATURA

Simbolismo no Eu: O Monólogo de Augusto

Por Félix Maranganha

A obra de Augusto dos Anjos bem que poderia ser considerada regressora, não fosse a linguagem usada em seus poemas. Eu, seu único livro, busca questões tão velhas quanto a própria humanidade, e as responde, à sua maneira particular. Sua temática oscila da ciência às artes, da psicologia à história, da filosofia ao cotidiano, sempre de modo considerado, em sua época, como imoral, violento ou esqueroso, coo veremos abaixo:

“Almoça a podridão das grupas agras,
Janta hidrópicos, rói vísceras magras
E dos defuntos novos incha a mão...

Ah! Para ele é que a carne podre fica,
E no inventário da matéria rica
Cabe aos seus filhos a maior porção!”
(Augusto dos Anjos, O Deus-Verme)  

Não tinha como ser diferente. O fim do século XIX e o início do século XX são dois momentos que se bem poderiam figurar como uma só época alquímica da humanidade. Alquímica por causa das transformações que nos marcaram, e que ocorreram não apenas nas esferas política e social, como também se manifestaram na cultura, nas artes e no modo de pensar. Estávamos ainda nos acostumando com o darwinismo, com a genética de Mendel e com a ascensão proletária na Rússia, somente para citar alguns desses eventos.
No campo do pensamento tivemos os primórdios da psicologia moderna. As artes, “contaminadas” com esse psicologismo, penderam para o simbolismo, movimento iniciado na França no século XIX por Paul Verlaine, que tentava, através dessa nova estética, ressuscitar o Romantismo de Lord Byron.
Jung cita a arte como uma das grandes manifestações do inconsciente coletivo, apresentando-a como uma amostra do desenrolar dessa herança psíquica da vida exterior do indivíduo, nela aparecendo os inúmeros arquétipos com os quais já desde cedo nascemos. Segundo Campbell, os arquétipos são símbolos que surgem da tensão existente entre as energias do corpo e da mente. As energias do corpo seriam as forças que nos empurram à satisfação dos instintos básicos (alimentação, sexo, hidratação, descanso etc). Enquanto que as energias da mente seriam formadas pela razão, e todas as suas manifestações repressoras sobre esses instintos básicos (ascetismo, abstinência, trabalho etc). Campbell aponta que, como símbolos dessa tensão, resta aos arquétipos apenas sugerir a experiência, em vez de explicá-la.

“Um símbolo – um símbolo mítico – não se refere a algo conhecido ou possível de ser conhecido de maneira racional. Refere-se a um poder espiritual que é operativo na vida e conhecido apenas por seus efeitos. [...] É uma potencialidade, não um fato”. (CAMPBELL, 2004, 24).

Esses símbolos são inúmeros. Há o arquétipo do pai, da mãe, da anima, do animus, da criança, do velho sábio, da sombra. Desses, é escolhido para esse trabalho, a sombra. Ela é, segundo muitos, um resquício do passado, uma espécie de elo psíquico entre o homem e o animal. Ela representa a liberação de todos os instintos básicos que deixaram de ser aceitos em sociedade. Considerado pelo ser humano como imoralidade e violência, por não se adequar aos padrões sociais estabelecidos e às ideologias individuais, esse arquétipo costuma se manifestar em sonhos, delírios, alucinações, assim como na mitologia e nas artes.
Apesar do repúdio que a sociedade tem em relação à sombra, é dela que tiramos boa parte da criatividade e da espontaneidade presentes em nossos avanços científicos e filosóficos. O homem, para adequar-se ao mundo, tem a necessidade de adequar-se, primeiro, à fera que há dentro de si, para depois adequar-se à razão. Como diz Augusto:

“O Homem que, nesta terra miserável,
Mora entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera”.
(A.A., Versos Íntimos)  

Ou seja, a besta dentro do homem precisa tanto do homem fora da besta quanto o seu contrário. Do homem sai o julgamento da realidade, mas é da besta que fluem, segundo Jung, o insight e a emoção profunda, presentes na arte. Essa besta é a sombra, mais experimentada nas artes através de estilos subjetivos como o trovadorismo, o barroco, o romantismo e o simbolismo. Essa mesma sombra seria , porém, mais ainda observada, mesmo que para ser repudiada, entre os movimentos ditos objetivos como o classicismo, o arcadismo, o parnasianismo, o realismo e o naturalismo (esses últimos trantando-a como elemento irracional e fora de controle da estrutura instintiva humana). Isso permite uma categorização da literatura em língua portuguesa de acordo com a reação que se tem para com esse arquétipo.
No Simbolismo os poetas procuram experimentar essa sombra, talvez como um resquício do satanismo romântico de Byron, mas também há uma busca de identificação com a mesma, como se o homem dependesse da imoralidade e da violência para permanecer vivo. No Simbolismo brasileiro, o poeta que manifesta isso mais claramente é Cruz e Sousa. A busca da cor branca, por exemplo, se apresenta como a busca da razão para equilibrar-se esteticamente com a escuridão. Apesar de esse poeta ter também profunda preocupação com outros arquétipos, principalmente com a anima, a presença da sombra é incontestável em poemas como Satã, Monja Negra, A Flor do Diabo e Canção Negra.

“Certa noite soturna, solitária,
Vi uns olhos estranhos, que surgiam
Do fundo horror da terra funerária
Onde as visões sonâmbulas dormiam...
[...]
Nunca da terra neste leito raso
Outros olhos eu vi transfigurados.”
(C.S., Canção Negra)   

A sombra se manifesta claramente em Cruz e Sousa como o horror a ser experimentado e evitado. Isso faz do Simbolismo a estética que mais se aproxima da arquetipologia junguiana e de Augusto dos Anjos.
Entre os vários poemas de Augusto dos Anjos, talvez o Monólogo de uma Sombra seja o que mais denuncia a presença desse arquétipo violento e anti-social. Formado por trinta e uma sextilhas decassílabas, o poema traz também consigo um conceito denso e multifacetado acerca do que foi, é e será o homem, tendo consigo, a presença marcante e incômoda da sombra.
As primeiras sete estrofes apresentam a origem e o trajeto da sombra até sua chegada no homem moderno, tanto do ponto de vista evolutivo


“Sou uma Sombra! Venho de outras eras,
Do cosmopolitismo das moneras...[...]
(A.A., Est.1)    


como filosófico.

“Na existência social, possuo uma arma
- o metafisicismo de Abidarma -
E trago [...]
A solidariedade subjetiva
De todas as espécies sofredoras.”
(A.A., Est. 4)    

Mas a natureza humana, que seria, em outras épocas, demonstrada como elemento bestial, se apresenta aqui como um elemento derivado da razão, à qual devemos repudiar se quisermos nos adequar à nova realidade humana diante do cosmo.

“Com um pouco de saliva quotidiana
Mostro meu nojo à Natureza Humana.
A podridão me serve de Evangelho...”
(A.A., Est. 5)    

Depois da décima-quinta estrofe, o homem é levado a constatar sua condição miserável diante dessa azêmola, tendo-a não somente como o princípio da natureza, como também o fim do próprio homem, como parte da sombra que ele mesmo renega. Através da putrefação, o humano que antes existia cede seu lugar às feras roedoras, que comerão sua carne e o ligarão novamente à natureza. Essa idéia pateísta e xamânica de ligação com o espírito natural, conhecida em outros estilos através do heroísmo e da morte idealizada, se apresenta em Augusto dos Anjos através da morte real que dissolve o corpo de volta ao pó de onde veio.
Nas estrofes que vão de 16 a 20, a ligação com a natureza deixa de ser idealizada, e se identifica com a animalidade imoral da sombra. Augusto dos Anjos se aproxima do ideal do Naturalismo, sem perder sua essência simbolista. O sensualilsmo, a sodomia, o hetairismo, as orgias, o meretrício, tudo nessas estrofes remete não a um humano superior às outras formas vivas, mas a um animal que se relaciona diretamente com os fundamentos da mente humana. Essas são as estrofes que poderíamos considerar como a chave desse poema, aqui havendo, em vez da negação do espiritual, sua aproximação com o profano.

“Estoutro agora é o sátiro peralta
Que o sensualismo sodomista exalta
Nutrindo sua infâmia a leite e a trigo...
Como que, em suas células vilíssimas,
Há estratificações requintadíssimas
De uma animalidade sem castigo.

Brancas bacantes bêbedas o beijam.
Suas artérias hírcicas latejam,
Sentindo o horror das carnações abstêmias,
E à noite, vai gozar, ébrio de vício,
No sombrio bazar do meretrício,
O cuspo afrodisíaco das fêmeas.

No horror de sua anômala nevrose,
toda a sensualidade da simbiose,
Uivando, à noite, em lúbricos arroubos,
Como no babilônico sansara,
Lembra a fome incoercível que escancara
A mucosa carnívora dos lobos.”
(A.A., Est 16, 17 e 18)    

A estrofe 21 mostra como essa animalidade se torna violenta e relacionada direto com a filosofia humana, e a sombra, que até esse momento era a transformadora da razão, se apresenta também como transformada pela mesma, fazendo-a repensar os impulsos anti-sociais, imorais e violentos. As estrofes seguintes refletem bem isso:

“É o despertar de um povo subterrâneo!
É a fauna cavernícola do crânio
- McBeths da patológica vigília,
Mostrando, em rembrandtescas telas várias,
As incestuosidades sanguinárias
Que ele tem praticado na família.

[...] autopsiando a amaríssima existência
Encontra um cancro assíduo na consciência
e três manchas de sangue na camisa!”
(A.A., Est. 22 e 23)    

As estrofes de 26 a 31 mostram a aparição final da arte. Sua função, diante da sociedade que procura refrear a “animalidade sem castigo” da tensão entre o corpo e a mente, seria a de válvula de escape para esse arquétipo representativo das pulsões do corpo, sempre cumulativas, mas necessárias para tentar a união entre o homem e essa sombra, como podemos observar nas estrofes 26, 27 e 31.

“Somente a Arte, esculpindo a humana mágoa,
Abranda as rochas rígidas, torna água
Todo o fogo telúrico profundo
E reduz, sem que, entanto, a desintegre,
À condição de uma planície alegre
a aspereza orográfica do mundo”

Provo desta maneira ao mundo odiento
Pelas grandes razões do sentimento,
Sem os métodos da abstrusa ciência fria
E os trovões gritadores da dialética,
Que a mais alta expressão da dor estética
Consiste essencialmente na alegria.

[...]
E o turbilhão de tais fonemas acres
Trovejando grandíloquos massacres,
Há de ferir-me as auditivas portas,
Até que minha efêmera cabeça
Reverta à quietação da treva espessa
A à palidez das fotosferas mortas!”
(A.A., Est. 26, 27 e 31)    

O que concluímos sobre Augusto dos Anjos é que ele não foi somente um reflexo freudiano da humanidade, como previu o professor Chico Viana, mas também nos repassa a visão junguiana da natureza humana. Isaac Asimov disse, certa vez, que a arte possui uma maneira antecipatória de se manifestar, e a inovação temática de Augusto dos Anjos conseguiu superar todos os estilos por ele utilizados, seja em tema, seja em forma.

Bibliografia

ANJOS, Augusto dos. Eu. João Pessoa: UFPB/Editora Universitária, 2000.
ASIMOV, Isaac. “In Re Sprague”. In: CAMP, L. Sprague de. Contrutores de Continentes: 2ª parte das Crônicas de Viagens. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1977.
CAMPBELL, Joseph. E por falar em mitos: conversas com Joseph Campbell. Campinas: Verus Editora, 2004.
_______________. “Temas mitológicos na arte e na literatura criativa”. In: CAMPBELL, Joseph (org). Mitos, sonhos e religião. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.
JUNG, C.G. Os Arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2000.
SOLIÉ, Pierre. Mitanálise junguiana. São Paulo: Nobel, s/d.
SOUSA, Cruz e. Broquéis/Faróis. São Paulo: Martin Claret, 2002.
VIANA, Chico. O Evangelho da Podridão: culpa e melancolia em Augusto dos Anjos. João Pessoa: UFPB/Editora Universitária, 1994.
Félix Maraganha é Graduado em Letras, UFPb



Escrito por Correio das Artes às 07h46
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LITERATURA

No reino das imaginações de Ledo Ivo

Por José Mário da Silva
  

Em suas preleções literárias, o professor-doutor Hildeberto Barbosa Filho sempre faz alusão ao trabalho de um teórico da literatura chamado Alan Viala, que versa sobre a importância do livro inaugural de um determinado escritor. Para o referido teórico, o primeiro livro de um artista da palavra : poeta / ficcionista ou praticante de um outro gênero da literatura, se, por um lado, não é suficiente para a partir dele se ter uma cartografia completa de toda a mundividência e possibilidades expressivas do escritor, por outro, revela, invariavelmente, as matrizes essenciais de um dado construto estético; um jeito bem peculiar de ser e estar no mundo; e uma modalidade específica de se transfigurar as experiências existenciais mais significativas, transformando-as em edifícios verbais bem arquitetados, que atendem pelos instáveis nomes de poemas, contos, novelas, romances, crônicas, dentre outros que integram o diversificado e híbrido código onomástico do intrincado universo dos gêneros literários.
O primeiro livro embora via de regra, não manifeste a plena maturação criadora e o completo domínio dos recursos técnico-expressivos inerentes ao ato-processo da construção literária, prerrogativas advindas com a passagem do tempo, o estudo paciente e o rigoroso cultivo de uma necessária disciplina interior, dado que, com Ezra Pound, aprendemos que “o domínio de qualquer arte supõe o trabalho de uma vida inteira”, revela, já, direcionamentos e propensões do espírito que perduram toda a vida, mudando, tão somente, a atitude e o modo como o artista passa a se relacionar com aquelas que são as suas indisputáveis “afinidades eletivas”.
Noutras palavras : o primeiro livro de um escritor, mesmo quando renegado e considerado, quase hegemonicamente, como imatura produção da juventude, ocupa papel importante num dado sistema literário, cabendo ao crítico, sem pressa e com astúcias de rigoroso detetive, rastreá-lo, para, desse modo, adquirir uma compreensão mais acertada e sistemática da obra do referido escritor.
Essas considerações introdutórias vêm a propósito de tentarmos tecer algumas considerações acerca do livro Imaginações, com o qual, em 1944, no albor de uma inquieta e criativa juvenília, Lêdo Ivo estréia na literatura brasileira, mais precisamente no território da poesia, prosseguindo até hoje, quando cruza as fronteiras cronológicas de bem vividos oitenta anos, revelando uma dupla e impressionante fidelidade : a si mesmo e à literatura, configurando-se, como acertadamente assevera Ivan Junqueira, “num dos derradeiros e mais autênticos homens de letras deste país em que pouco se lê”, dado que foi no cultivo da leitura, das histórias de piratas e tesouros escondidos de Emílio Salgari à prosa movediça e sapiencial de Montaigne, que Lêdo Ivo amealhou a erudita e invejável cultura humanística de que é portador.
Ao longo de mais de meio século de quase ininterrupta produção literária, Lêdo Ivo, genuíno polígrafo das letras, tem incursionado por vários gêneros literários, sempre com invulgar brilhantismo e raro domínio expressivo. Da poesia, carro chefe de sua fenomenologia criadora, ao ensaísmo crítico, tendo inclusive, nesse território, produzido textos clássicos, como, por exemplo, O Preto no Branco, minudente exegese de um poema de Manuel Bandeira, ombreando-se a outros competentes praticantes da leitura microscópica do texto poético, como os mestres Antonio Candido, Augusto Meyer, David Arrigucci Jr, Alfredo Bosi, Antonio Carlos Secchin, dentre outros, Lêdo Ivo tem-se constituído em referência obrigatória no panorama da literatura brasileira contemporânea.
Na ficção ganhou destaque com o romance Ninho de Cobras. Romance diferente, poético, revelador de um mundo sombrio e insólito, ambientado na geografia alagoana. Geografia essa na qual o romance foi alvo de díspares recepções por parte da crítica especializada. Da mais aderente e deslumbrada até a que o repudiou, vendo nele um duro e acusatório libelo contra a sociedade alagoana e o ethos de violência e desigualdade social que a tem emblematizado.
Memorialista brilhante, Lêdo Ivo legou-nos Confissões de um Poeta, odisséia autobiográfica matizada por um fundo mergulho no caleidoscópico universo dos motivos e motivações que, urdidos e bem correlacionados, desvelam os subterrâneos simbólicos mais expressivos da sua obra : suas leituras mais decisivas e formadoras da sua personalidade estética; seus temários mais recorrentes; suas obsessões mais agudas; sua poética mais radical; poética aqui entendida como uma espécie de filosofia composicional que subjaz a toda criação literária do poeta; enfim, aquilo que Roland Barthes chamou de a “mitologia secreta do escritor”. E, claro, o papel fulcral da memória como instância garantidora da identidade humano-estética de Lêdo Ivo e, ato contínuo, geradora da ganga bruta de vivências de que se tem nutrido a sua diversificada produção estética.
Cronista fabuloso, A Cidade e os Dias dá bem a medida de um olhar lírico cuja sensibilidade rastreia todos os desvãos da cidade atravessada pelo visceral motor das irreprimíveis transformações modernas; o que, se por um lado, empresta-lhe a eufórica fisionomia do cosmopolitismo progressista, por outro, não logra escamotear os vestígios de desumanização que deixam as suas marcas traumáticas em todos os cenários da sua trepidante agitação urbana.
E por aí segue a palavra criadora de Lêdo Ivo. Mas, voltemos ao ponto de partida da sua aventura literária, ao inaugural reino das suas Imaginações. Profundo conhecedor da obra poética de Lêdo Ivo, a ela tendo dedicado lúcidos ensaios, Ivan Junqueira diz que, marcado por “fantasmagorias e iluminações rimbaudianas, tributo à respiração elegíaca de Rilke, ao surrealismo de Murilo Mendes e ao lirismo coloquial do Vinícius de Morais das Cinco Elegias, o livro Imaginações já traz, bem ou mal, o timbre personalíssimo da dicção de Lêdo Ivo”. Dicção essa que se explicita, de maneira ostensivamente visível, na onipresença de um verso espraiado, longo, não raro torrencial, construído, deliberada e voluntariamente, na contramão do metro contido inerente ao minimalismo que hegemoniza certas produções líricas da contemporaneidade.
Esse pendor irresistível para o verso desgarrado, polimétrico, completamente arredio a qualquer forma de convencionalismo e disciplinamento prévio, presente em Imaginações, tem acompanhado o poeta até o presente momento, incorporando-se, definitivamente, ao seu paideuma particular. Tal procedimento criativo faz com que Lêdo Ivo, embora seja sempre associado à chamada Geração 45, dela se distinga sobremaneira, mantendo, sempre, uma liberdade radical no modo de compor.
Certa vez, objetivando avaliar o caráter dionisíaco da poética de Lêdo Ivo, tendo como paradigma a dimensão apolínea da lírica de João Cabral de Melo Neto, de quem Lêdo Ivo era amigo e com quem travou longos debates estéticos, certo jornalista afirmou que o criador de As Alianças não era um poeta conciso. Ao que, transitando do humor à ironia, Lêdo Ivo respondeu : “Sou um poeta conciso, sim, só que a minha concisão é a dos oceanos e não a das caixas de fósforo”.
Com isso, o poeta, lucidamente, rechaçou a insuportável e autoritária idéia de se querer apreender, ou melhor, aprisionar a poesia dentro de modelos infrangíveis e unidimensionais. Tal traço oceânico da sua poesia tem nas Imaginações o seu nascedouro e ponto de chegada e de partida para vôos mais incontornáveis no mundo ontologicamente transgressor da fenomenologia poética.
“Poema em memória de Éber Ivo”, Adriana e a poesia”, “Valsa fúnebre de Hermengarda”, “Descoberta de Adriana” são alguns dos poemas que explicitam o largo fôlego do poeta e o seu descomedido modo de transfigurar as vivências íntimas, transformando-as em objetos estéticos. Consultando, mais uma vez, Ivan Junqueira, somos informados de que “Lêdo Ivo deve ser compreendido, também, à luz do excesso, de uma prestidigitação retórica e de uma linguagem encantatória que são apenas singularmente suas. Se não o fizermos, consideráveis segmentos de sua vasta e polifônica produção poética correm o risco de permanecer indecifrados e, o que é mais grave, distantes da estima de são merecedores”.
A assertiva-advertência do poeta-ensaísta Ivan Junqueira é sobremaneira pertinente, dado que, aqui/acolá, nos deparamos com críticos redutores que, ao elegerem determinadas famílias estéticas com as quais melhor se identificam, passam a relegar as outras ao campo da mais absoluta desimportância. Os que valorizam, por exemplo, a simplicidade composicional de um Mário Quintana, uma Adélia Prado, um Manuel Bandeira, tendem, equivocadamente, a despretigiar as outras modalidades de construção literária, rotulando-as de retóricas, no pior sentido que esta palavra adquiriu no seio da cultura bacharelesca nacional. Ignora-se aqui, por má fé ou despreparo intelectual mesmo, que há retórica e retórica; e que compreender o seu uso e funcionalidade estética é dever de quem, optando pelo elevado ofício da crítica literária, superior vocação do espírito e da inteligência no dizer de Fidelino de Figueiredo, deve ter no discernimento a sua aspiração e utopia mais perseguida.
Mas, flagramos, também, nas Imaginações de Lêdo Ivo, a presença, modesta é certo, mas, de igual modo, resistente, de um sensualismo que, comparecendo em vários poemas, vai abrindo espaço para um erotismo que celebra o fascínio do prazer e as pulsões desrepressoras do corpo. “Esmeralda”, “Soneto de dormitório”, “Praia do Sobral”, “Fazenda do amor campestre”, “Cavalo Morto” são peças desse lirismo que tem no corpo feminino, onde “havia muitos países do amor”, seu ponto de convergência, “magia e tormento” das descobertas do misterioso território do desejo.
As Imaginações de Lêdo Ivo, de igual maneira, põem em cena um dos mais inarredáveis leitmotiv da sua plural arquitetura poética : a percepção aguda, não raro desconfortável, da transitoriedade inerente a todas, da finitude e contingencialidade que findam se constituindo na nervura essencial de tudo, e que tem na morte, ponto final da travessia humana, a sua senha mais inamovível.
O temário onipresente da morte confere à poesia de Lêdo Ivo uma tonalidade irresistivelmente corrosiva. O poema “O Branco Hotel” é um emblemático exemplo de como, desde a sua juventude, Lêdo Ivo já vislumbrava na morte um dos mais desconcertantes enigmas da existência, sempre pródigo em nos privar da convivência com as pessoas a quem amamos.
Outro núcleo centralíssimo da poesia de Lêdo Ivo, já presente no âmago mesmo das suas Imaginações, é a memória, conjunto diversificado de vivências, com amplo privilegiamento para os longínquos pátios da infância, de cujo solo primevo o autor retira a seiva fecunda de que se tem nutrido a sua luminosa arte. Memória que, revisitada e recriada, consorcia o particular e o que é imanente a toda a condição humana, pois, como afirma o escritor no belo “Justificação do Poeta”, “o tempo não existe na alma do poeta / tudo é universal e abrange todos os tempos / os poetas, meu pai, são os corações do mundo / são as mãos de Deus escrevendo os poemas do mundo inseguro”.
Por fim, há um belíssimo poema, urdido pelas Imaginações de Lêdo Ivo, que, a meu ver, sumaria bem o que tem sido a marca registrada de uma artista da palavra que, há mais de meio século, vem esculpindo, no escorregadio dorso das palavras, a sua criadora arte poética. Refiro-me ao poema “O laboratório da noite”. Já a partir do título, título que de acordo com a lingüística transfrástica se constitui num dos elementos garantidores da coerência textual, nos deparamos com duas realidades bem singulares. De um lado, o racionalismo inerente ao semema laboratório, com tudo o que ele implica de solaridade e dimensão objetiva; de outro, o semema noite, com tudo o que ele sugere de onirismo, névoa, opacidade.
Nesses dois pólos parece residir o fio subterrâneo seminal da poética de Lêdo Ivo. O domínio inigualável de todas as técnicas da engenharia laboratorial do fazer poético, por um lado, e, por outro, a irreservada e transgressora sedução que sobre o poeta tem exercido o universo indomável do sonho, da magia e das dimensões mais encantatórias da existência.
Em postura metalingüística, o poeta vê, no livro de poesia, o seu instrumento de solidão e de dor, ao mesmo tempo em que, recusando-se a ser enquadrado nas gramáticas previsíveis e institucionalizadas, em tom confessional, exclama : “Oh, não perguntes meu nome / Eu sou o rosto de alguém / num baile que não prossegue / Sou a porta de todas as imaginações / Um céu espera por mim / em um áspero continente / que nenhum mapa registra”.
Aqui, de forma ostensivamente visível, temos a senha da poesia de Lêdo Ivo, erigida sob o transgressor signo da diferença, da abertura a todas as possibilidades de transfiguração do real. Transpondo a longeva casa dos oitenta anos, em permanente estado de inquietação criadora, ao mesmo tempo em que continuamos aguardando a publicação do seu mais novo livro de ensaios, fazemos votos que a imorredoura musa da poesia continue habitando os horizontes humanos e estéticos do admirável poeta dos mangues e dos caranguejos.
Para Lygia Fagundes Telles, uma conspiração de afetos

José Mário da Silva é ensaísta e professor de Literatura da UFCG



Escrito por Correio das Artes às 07h46
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LITERATURA

Alegoria sobre o abismo

Por Ronaldo Cagiano

Tendo iniciado com o pé direito sua estréia literária com os contos de A grande incógnita (Annablume, SP, 2005), o jovem escritor paulista Ivan Hegenberg incursiona com novo fôlego no romance Será (Ragnarok, SP, 2007), cuja história faz um (in)tenso mergulho na realidade contemporânea, com um olhar crítico sobre os rumos da técnica e da ciência, a partir da revelação da vida, dos condicionamentos e ações de personagens desajustados emocional e socialmente. 
O universo narrativo de Ivan Hegenberg projeta-se para o século XXIII, uma época que sofre os efeitos de um caos já ancestral, que se manifesta na estagnação da vida, nos prejuízos causados pelos desequilíbrios sociais e ambientais, levando ao esgotamento não só da natureza, mas também à falta de perspectiva para a própria ciência, ainda que os seres tenham a seu favor todos os benefícios de um progresso alcançado nos séculos passados.
Ao mapear esse novo ambiente em que, de um lado o homem depara-se com os resultados da evolução e, de outro, com as conseqüências da transformação da vida pela tecnologia, criando suas ilhas tanto de excelência produtiva quanto de isolamento, solidão e neurose, o autor compartilha com o leitor uma preocupação com os destinos da humanidade e do Planeta, questionando o modus vivendi de uma civilização cujos ícones vão sendo paulatinamente desmantelados.
Este século XXIII que serve de pano de fundo à trama é permeado de contradições. Não se trata de uma visão hiperbólica, ou escatológica, do caos inadiável, mas a percepção dos caminhos que podemos trilhar caso a  condição humana insista na prevalência de uma lógica vital que privilegie o “ter” no lugar do “ser”, do virtual em vez do real, o que vem levando de roldão a sociedade a um estágio cujo ritmo avassalador impõe a cada um relações descartáveis e um profundo abismo existencial, ensejando uma crime que é fruto do escalonamento de valores morais, espirituais e éticos.
Ao abordar a questão da transição do homem para esse “futuro” de aparências e conveniências, cujo desenvolvimento cuidou de arraigar ainda mais o materialismo e a racionalidade em lugar de ratificar a alteridade e o encontro, Ivan denuncia a forma mais sutil de medievalismo, representada pelo fundamentalismo das religiões, das ideologias políticas e do mercado. Instituições que criaram uma relação esquizofrênica do homem com o seu semelhante e o próprio meio e que impõem um ritmo autofágico, sem esperança para qualquer projeto onírico. Será traduz-se numa narrativa metafórica do abismo em que estamos metidos, sobre a vida que poderia ter sido e não foi, território em que se percebe a tênue fronteira entre o delírio e a sanidade.
Romance repleto de surpresas e imprevistos, com nítidas influências niilistas e clariceanas, antecipa uma reflexão sobre o eterno embate do espírito contra a consciência, da vida contra a morte, do virtual contra o real, da tecnologia contra os sentimentos. Ao mesmo tempo perturbador e poético, mas que nos coloca frente a frente com nossos dilemas e faz uma competente e sensível crítica dos valores na sociedade contemporânea, na expectativa de um caminho com volta. Com este segundo livro, o autor consolida seu trabalho e apresenta-se como uma das promissoras vozes da nova ficção, demonstrando completo domínio da arte narrativa.



Escrito por Correio das Artes às 07h45
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RODAPÉ/PONTO DE VISTA CRÍTICO

Preciosidades alegóricas

Por Rinaldo de Fernandes

O cearense Pedro Salgueiro (foto ao lado) já publicou os livros de contos O peso do morto (1995), O espantalho (1996), Brincar com armas (2000), Dos valores do inimigo (2005) e Inimigos (2007). Participou de coletâneas como Geração 90: manuscritos de computador (2001, org. Nelson de Oliveira), Os cem menores contos brasileiros do século (2004, org. Marcelino Freire), Contos cruéis: as narrativas mais violentas da literatura brasileira contemporânea e Quartas histórias: contos baseados em narrativas de Guimarães Rosa (as duas últimas de 2006, org. Rinaldo de Fernandes). Recebeu, dentre outros, o Prêmio Guimarães Rosa (Radio France Internationale) e o Prêmio de contos da Biblioteca Nacional para obras em curso (Biblioteca Nacional/INL).
Inimigos, coletânea agora lançada pela 7 Letras, na coleção Rocinante (que tem projetado bons autores para o país, como é o caso da paraibana Marilia Arnaud), compõe-se de 20 contos curtos. Contos que se passam em vilarejos do Sertão, com estradas, poeira, serras, forasteiros, e reportando-se a épocas mais remotas. O espaço predominante é o do Sertão - mas as situações são universais. Contos de frases contidas, secas, como a paisagem de rochas não raro configurada, com momentos de grande maestria poética, de palavras ou torneios que nos surpreendem pela força e exatidão. Pedro é um poeta da prosa. A sua opção por produzir o livro com contos curtos, compactos, tem uma razão se ser - a de apresentar uma história com implicitudes, sugestões, subtextos, justamente para caracterizar a força de sua prosa poética. Assim, antes de tudo, em boa parte dos contos da coletânea, o que aparece é o desempenho da linguagem, o estilo bem posto. Em seguida é que o leitor vai percebendo que a história, os seus personagens e situações, também têm grande força, abrem-se muito em seu significado.
O conto que dá título à coletânea é cheio de susgestões - todo um longo enredo está contido em pouco mais de duas páginas. Esta e várias narrativas do livro têm forte carga alegórica. O conto descreve um contexto de guerra, de uma invasão, por um pelotão, do território inimigo. A invasão tem caráter demolidor - devasta moralmente os inimigos, abate-os, subjuga-os (além de retê-los, roubá-los, os vencedores relacionam-se com suas mulheres). O pelotão vencedor, de tão confiante, de tanto apostar na fraqueza dos inimigos, termina relaxando, retraindo-se em seu ímpeto. E, ato imprevisto, os inimigos reagem. E reagem de que maneira? Não vou tirar o gosto de o leitor saber como. Só adianto que o pequeno conto é a viva metáfora de que, enquanto não finda o embate, a força do vencedor pode ser relativa, que o respeito ao adversário, compreendendo-o não como um fraco, mas como alguém momentaneamente sem recursos para resistir, é crucial.
Por sua vez, o protagonista de "Limites" se sente enclausurado numa terra "ruim", de gente "ordinária". A vigilância permanente, por parte dos proprietários vizinhos, dos marcos territoriais, aborrece o personagem, o deixa infeliz. Vivendo na corda bamba (com receio dos ataques e/ou armadilhas dos vizinhos), o personagem entende que seu povo, na distância, é bem "diferente". O conto aborda, assim, o problema da perda de identidade, do indivíduo desterritorializado. "Descoberta" também pode ser lido como uma alegoria do desterrado, do migrante cearense, nordestino. A estrada aparece como uma condição atávica, ancestral. A estrada "é o meu destino", afirma o personagem-narrador em certo momento. Personagem nascido em Papaconha -  que aparecerá no livro como lugar de povo peregrino, em permanente deslocamento. O reencontro com Papaconha, para o personagem, é questão crucial, de recomposição/reintegração da própria identidade.
E o trem-fantasia de "Madrugada"? Conto de forte intensidade poética, com escuros, sombras, capins contornando a plataforma da velha estação. Um personagem, como outros do livro, na fronteira entre a realidade e a imaginação. A memória, o passado, recortando o presente. Um verdadeiro poema sobre a nostalgia. O estranho "Aleine", tratando de um marido em busca da mulher desaparecida, perturba pela situação narrada como pela reação dos moradores do vilarejo "em mudança". Daí a permanente sensação de deslocamento do protagonista, o marido, e também do leitor, que, intrigado, se indaga sobre a razão de tão estranhas reações, sem obter resposta. A atmosfera do conto, assim, acaba sombria, nebulosa. Por sua vez, o personagem que passa a perseguir obsessivamente um louco alegre em "Um batedor", não esconde a sua insanidade. Bom, mas ele é mesmo insano? O mérito do conto está no próprio ato narrativo. Trata-se do relato de um perseguidor-narrador? De um louco-perseguidor? Ou de um narrador-louco? O leitor opta. "Alívio" metaforiza o inimigo como miragem - um conto com desenho parecido com o que dá título ao livro. O protagonista de "Perdido", ao deparar-se com a placa com os dizeres "Por favor, não ria dos nativos" (dos nativos de um povoado onde chega), fica perturbado. Como se perturba ainda com os moradores que só o observam pelas costas. "Sentia seus olhares frios em minha nuca", ele diz. É outro conto de atmosfera nebulosa, estranha; de estranhos que se espreitam sem nunca se desvendarem. "Defesa" alegoriza o abrigo, a proteção bem arquitetada contra o inimigo. "Asas do vento" revive o mito de Lampião, sendo que todo um quadro sociológico é posto numa página e meia. "Os loucos de Papaconha" trata da intolerância, do difícil convívio, no mesmo território, de povos de culturas diferentes. Mas "A passagem do Dragão", narrando o episódio do eclipse solar de 1919 em Sobral (CE), que foi acompanhado por uma comissão composta por astrônomos de vários páises (os quais estariam interessados em comprovar a teoria da relatividade, de Einstein), é possivelmente o principal conto do livro. Um conto antológico - fato e ficção na medida certa. Ciência e misticismo, razão e crença se misturam nessa pequena história que termina sendo uma grande metáfora do nosso atraso.
Pedro Salgueiro não é mais uma promessa no conto brasileiro. Trata-se de um dos principais contistas hoje em atividade no País. Em Inimigos reinveste em motivos (como, por exemplo, o misticismo e as desavenças/violências por terras, domínios) caros à nossa tradição regionalista. Mas o faz com soluções novas, na forma de pequenas e contundentes alegorias.



Escrito por Correio das Artes às 07h43
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ESTOU LENDO

Vale tudo - O som e a fúria de Tim Maia
de Nelson Mota
Parte da narrativa parece surreal, mas em se tratando de Tim, acredita-se que realmente aconteceu. É um livro engraçado com relatos muito loucos sobre a vida do peso pesado da soul music.

Cláudia Carvalho é jornalista


Rasif - mar que arrebenta
de Marcelino Freire Rasif reúne contos do escritor pernambucano radicado em São Paulo. Conflitos individuais e coletivos são abordados na obra, com a linguagem característica do escritor. Marcelino Freire é um nove que vem, realmente, se impondo na literatura contemporânea.

Linaldo Guedes é jornalista



Escrito por Correio das Artes às 07h42
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LANÇAMENTOS

Uma mulher em Berlim
Anônima, Editora Record. O trágico diário de uma jovem berlinense, escrito entre 20 de abril de 1945 e 22 de junho do mesmo ano, durante a invasão e conseqüente ocupação russa da capital alemã. Em um relato preciso, a autora descreve a vida miserável que levou e os repetidos estupros que sofreu durante esse período.

Machado de Assis - 1935-1958
Augusto Meyer, Bertrand Editora. Lançado originalmente em 1935 e reeditado, acrescido de diversos artigos publicados na imprensa, em 1958, o livro Machado de Assis (1935-1958), de Augusto Meyer, um dos maiores críticos literários brasileiros de todos os tempos, é, nas palavras de Alberto da Costa e Silva, “um dos mais importantes que temos sobre Machado de Assis, e nada justifica ter ficado por meio século quase fora do alcance de duas ou três novas gerações de leitores”.

A volta ao dia em 80 mundos
Júio Cortázar, Civilização Brasileira. Divididos em dois volumes, 'A volta ao dia em 80 mundos' rompe com o modelo clássico de narrativa e apresenta ao leitor uma coletânea de citações, recortes de jornais, ensaios, contos, poemas e comentários alternados com ilustrações e fotografias que tratam de temas diversos como boxe, política, novas técnicas culinárias, Paris, sadismo, entre outros. Os textos, com tradução de Ari Roitman, foram reunidos numa edição que respeita os formatos originais dos livros, tal como foram pensados pelo autor.



Escrito por Correio das Artes às 07h40
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